Opiniao

Um centro de pasmar

A lembrança mais recuada que tenho do centro histórico de Guimarães remonta aos anos 80 do século passado, ainda na primeira fase da recuperação pela Câmara Municipal, apontada como uma intervenção urbana exemplar (que viria a ser internacionalmente reconhecida e compensada com a sua classificação como Património da Humanidade em 2001). 

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Não sei o que antes me fizera desconhecer o burgo medieval: se alguma tonta sobranceria bracarense, se a perigosidade de ‘bairro favelado’ que, até então, estigmatizava o lugar. 

Sei que a sua descoberta foi para mim uma revelação, pela riqueza arquitectónica e patrimonial que encerrava – e que a cuidada restauração pôs em evidência, com destaque para as casas alpendradas pintadas de cores garridas. 

Mas dentro desse espaço urbano, o conjunto formado pelo Largo da Oliveira e pela Praça de Santiago surgia como particularmente interessante, desde logo porque fora aí que a cidade nascera. 

De facto, o Largo da Oliveira encontrava-se originalmente implantado defronte do mosteiro edificado no séc. X pela condessa Mumadona Dias nas terras de Vímara Peres, ditas de Vimaranes, que as havia conquistado aos mouros para o reino da Galiza. 

Ora, foi à volta desse mosteiro que se fixou um primeiro grupo populacional, a Vila Baixa, para cuja defesa foi depois construído um castelo, no alto da colina vizinha, no qual se fixou um segundo núcleo populacional, a Vila Alta, ficando ambas ligadas pela Rua de Santa Maria. 

Desse mosteiro e desse castelo já nada ou quase nada existe.

No séc. XII, o mosteiro deu lugar à Colegiada de Santa Maria de Guimarães, cuja igreja, depois dedicada a Nossa Senhora da Oliveira, sofreu no séc. XIV uma profunda reforma gótica patrocinada por D. João I, Mestre de Avis, em agradecimento pela vitória na batalha de Aljubarrota. 

Datam desta época os vestígios mais antigos ainda existentes, que sobreviveram a posteriores intervenções manuelinas, neoclássicas e modernas. 

Um desses vestígios encontra-se na quadrangular torre sineira, mais especificamente na gárgula situada na sua esquina esquerda. Para divertimento do povo e mofa do clero, o mestre pedreiro esculpiu-a de tal modo que um observador colocado sob ela, na vertical, vê um falo em plena penetração. 

Foi também no séc. XIV que, por iniciativa de D. Afonso IV, para comemorar a vitória contra os mouros na batalha do Salado, foi erguido o Padrão do Salado – que actualmente arvora a monumentalidade do seu alpendre gótico no meio do lajedo granítico da praça, frente à igreja de Nossa Senhora da Oliveira. 

Reza a lenda que a toponímia do largo e da santa padroeira da cidade teve origem na edificação deste padrão. Porque, ao lado do local onde foi assente, existia uma oliveira seca – a qual, três dias depois da sua colocação, voltou a dar folha, sendo o fenómeno interpretado pelo povo como milagre. 

A Norte do Largo da Oliveira, dando passagem para o vasto terreiro da Praça de Santiago, fica o original edifício dos antigos Paços do Concelho, também do séc. XIV, cujo piso térreo forma um alpendre apoiado em cinco arcadas góticas, que tem no alto da fachada uma enorme estátua que representa Guimarães.