Economia

Salgado escondeu milhões de empreiteiro

No final de 2013, a guerra estava instalada entre os líderes dos Espírito Santo. Com o caos financeiro a adensar a atmosfera como um fantasma, são os casos na Justiça que levam o clã a terçar armas. Entre as quatro paredes, desvendam-se segredos e trocam-se ameaças que nem todos entendem. Das reuniões do Conselho Superior, a cujas gravações o SOL teve acesso, ressaltam novos dados do foro criminal. 

Ricardo Salgado deu à família uma explicação diferente da que fornecera ao Ministério Público sobre os 8,5 milhões que recebeu  do construtor José Guilherme: negou que tenha sido uma comissão ou presente por algum negócio, enquanto no Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), em Dezembro de 2012, quando foi prestar declarações no processo Monte Branco, justificara a quantia, recebida numa offshore em 2011, paralelamente à sua actividade de banqueiro, como honorários por serviços de consultadoria àquele empresário em Angola. “Bons conselhos”, como corroboraria depois o empreiteiro no DCIAP – embora tenham ficado por explicar outras transferências através do BES Angola, de 2009 e 2010, para a mesma conta de Salgado no Panamá, que juntamente com o restante perfazem 14 milhões de euros e dos quais, segundo o SOL apurou, ainda se desconhece a proveniência. 

Por outro lado, segundo contou Salgado à família, José Maria Ricciardi não só telefonou a Passos Coelho como tentou encontrar-se pessoalmente com Maria Luís Albuquerque, à época secretária de Estado das Finanças, para tentar obter informações sobre o processo de venda das acções do Estado na EDP e na REN, em finais de 2011 e princípios de 2012 – o que  levou o MP a constituí-lo arguido por tráfico de influência. Maria Luís ignorou os apelos com um silêncio de ferro, enquanto Ricciardi, em telefonemas para Passos (de quem se considerava amigo desde meados de 90, quando era o representante do BES no grupo de Ilídio Pinho, onde o primeiro-ministro trabalhava à época), dizia dela cobras e lagartos.

Da sucessão à privatização da EDP

No Conselho Superior de 7 de Novembro, o ambiente é tenso, como o demonstra a declaração de abertura feita pelo comandante António Ricciardi, que preside àquele órgão familiar: “Nunca vivemos um período tão grave como o actual… É um facto a existência da crítica sobre actuações que estão na base de diversos problemas, porventura ainda em apreciação pelas autoridades e em risco de vir a público a qualquer momento”. 

Umas semanas antes o SOL revelara o pagamento de José Guilherme e o jornal i noticiara que Salgado tinha ido explicar-se ao Banco de Portugal (BdP), o que o banqueiro fizera questão de negar. Naquele mesmo dia, 7 de Novembro, o DIAP de Lisboa fizera buscas no BESI. E a imprensa, em geral, começava a dar conta da discussão interna sobre a sucessão no Grupo Espírito Santo (GES). José Maria Ricciardi era o nome mais falado.

Salgado toma a palavra e apela à coesão da família, alertando-a para “calúnias que criaram facções que vão destruir o banco”. “Isto tem de acabar hoje e aqui”, avisa. A mensagem tem como alvo José Maria Ricciardi, que não poupa adjectivos: “Não aceito intenções de que andamos a fazer traição. Somos livres de discutir e de nos interrogarmos sobre aspectos que não estão devidamente esclarecidos”. Realça responsabilidades: até aí o líder fora “o Ricardo” e a família cala e consente. “A única coisa que fazemos é ouvir o que ele decidiu fazer”.

Nesse ano, o presidente do BES fora constituído arguido em casos distintos. Em Janeiro, era suspeito dos crimes de manipulação de mercado e abuso de informação privilegiada num caso que remontava a 2008, quando a seguradora do grupo, a BES Vida, vendeu ao BES acções que detinha na EDP nas vésperas de esta dar o ok para a entrada em bolsa da EDP Renováveis, sendo o BESI responsável pela dispersão de capitais (um caso que entretanto já foi arquivado, no que lhe dizia respeito). Dois meses depois, em Março, fora apanhado em escutas e novamente constituído arguido, por suspeita de tráfico de influências e de abuso de informação privilegiada nas privatizações da EDP e da REN, em que o BESI representara a China Three Georges e a State Grid. Ricciardi, para que os clientes fossem beneficiados, movera empenhos ao mais alto nível.

Conhecedor de certas matérias, reage e lança a ameaça ao primo. Nem tudo o que se escrevia a seu respeito era verdade: “Estou muito causticado porque me vi envolvido em alguns processos a que sou totalmente alheio. Ainda hoje, fiquei a saber de umas notícias que trazem o meu nome à baila. Depois os jornalistas não sabem explicar muito bem, uns dizem que tem a ver com a compra de acções do processo de 2008, outros dizem que são compras de acções da EDP durante a privatização, que eu também desconheço”.

De facto, nesta matéria e apesar de representar os interesses dos chineses e conhecer as suas propostas, Ricciardi não tirara disso proveito. O mesmo não acontecera com Salgado que investiu mais de 10 milhões de euros em acções da EDP quase em cima da privatização da empresa – facto com o qual também fora confrontado no DCIAP, tendo negado acesso a informação privilegiada, explicando que fora  seu gestor de conta na Suíça, Nicolas Figueiredo, quem o aconselhara a investir.

Ricciardi avança com a firmeza de quem sabe o que diz: “Responsabilizo-me por aquilo que faço, não me responsabilizo pelo que não faço. Vejo-me envolvido em situações pouco transparentes, que me têm prejudicado muito. Nunca comprei acção de coisa nenhuma, nomeadamente desde que sou presidente do BESI, há 10 anos”.

Primo ‘chocado'

Ricardo Abecassis, o primo que gere o escritório do BES no Brasil, reportando-se à tese que circulava de que o dinheiro de José Guilherme seria um presente, põe  o dedo na ferida: “Temos visto um desgaste muito grande do grupo na figura do Ricardo. Houve este ano um desgaste adicional com a situação de José Guilherme, que não é normal”. E sobe o tom: “Não aceito a explicação que foi dada. Desculpe Ricardo, mas tenho de dizer isto: não é normal. Não posso aceitar que um presidente de um banco aceite um presente desta magnitude de um cliente”.

E retira conclusões futuras: “Isto leva a que todos os funcionários do banco possam receber presentes e justificar que são amigos dos clientes. Eu não conheço nada que tenha acontecido assim, mas é a explicação que o Ricardo deu e a gente aceita como quer aceitar. Mas eu acho que ela é complicada de ser aceite e há muita gente que não aceita”, insiste Ricardo Abecassis. E conta como  foi abordado no Brasil, por gente perplexa: “‘O que é que se passa que o presidente recebe comissões de terceiros’? Tive de disfarçar. A mim choca-me. Se amanhã um director meu receber uma comissão, o que lhe vou dizer? Isto foi muito para lá do que se pudesse imaginar”.

Salgado não está habituado a ser encostado ao ringue: “Recuso-me a falar do assunto José Guilherme”. Mas vai falando: “Quando aconteceu esse assunto, eu fui o primeiro a ir ao MP e o assunto foi completamente esclarecido”. Nunca conta, porém, que ao DCIAP justificara o rendimento como decorrente dos  conselhos que dera ao empreiteiro. “Fui duas vezes ao Banco de Portugal (BdP) falar sobre o assunto. O BdP considerou que era uma questão do foro pessoal. Isto não é nenhum presente, é um assunto que tem a ver com a minha relação pessoal com José Guilherme. Nunca tive uma sociedade fora do grupo, nunca participei em capital de nada, não sou conselheiro de ninguém. Não aceito mais conversas sobre essa matéria”, encerra Ricardo Salgado.

A discussão acaba por ficar por ali, mas não sem antes o próprio Ricciardi anotar uma contradição: “Quando foi do Ministério Público, foi-nos dito que era uma operação pessoal, que o Rui Silveira [administrador com pelouro jurídico] também sabia, que tivéssemos confiança porque era investimento pessoal teu. Só depois soube da história do José Guilherme, pela capa do SOL”.

Salgado sobe o tom: “Não recebi comissão nenhuma”. Muda  as agulhas à conversa, colocando a questão da liderança do GES e acenando com o fim do império: “Se não há uma moção de confiança, eu não vou para a frente. Agora, com o mar turbulento que temos, estar a mudar o piloto da embarcação é um convite a irmos todos para o charco”. Ricciardi é que não está pelos ajustes: “Estou em reflexão.  Neste momento não me sinto confortável a dar uma moção de confiança”.

Mas o recado faz efeito e os outros, incluindo o pai, concordam em manifestar confiança em Salgado. José Maria abandona então a reunião: “Não estou a fazer nada aqui”.

Nas suas costas, Ricardo Salgado regressa aos processos: “O Zé Maria sente-se prejudicado por ser arguido, por duas vezes. Há uma, por aquilo que vi, que eu sei que ele não tem culpa nenhuma. Foi o facto de ele estar no conselho da EDP quando houve o IPO das Renováveis. A EDP valorizou-se e o BES fez operações com a BES Vida. Não lembra ao careca que a CMVM tivesse mandado fazer uma investigação dentro de um grupo em que o banco faz negócios com o próprio grupo”.

 ‘Conversas complicadas’ com Passos

Atropelando o assunto das acções que Ricciardi fizera questão de realçar que não lhe dizia respeito, Salgado lança à fogueira o que aquele omitira: “O segundo caso já é diferente!”. Com uma pausa a favorecer a exclamação, avança: “Ele vem ali falar das acções… mas o Zé Maria foi arguido porque as conversas com o primeiro-ministro, e as referências ao primeiro e à secretária de Estado das Finanças da altura, foram gravadas e consideradas complicadas”, explica, referindo-se a Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque. Um dos parentes interpreta: “Tráfico de influências”.

Salgado prossegue: “Foi na altura da privatização da EDP, diz coisas que não são muito normais. Foi feito arguido porque os tipos do MP acharam aquilo um regalo, estar a fazer pressão sobre o primeiro e a secretária de Estado das Finanças. Ele contou-me pouco depois e eu disse-lhe: ‘Ó Zé Maria, eu nunca por nunca peguei num telefone para ligar para um primeiro-ministro, só em casos de muita urgência e através do secretariado. Às vezes ligavam para mim, mas não era eu que ligava”. O banqueiro dá uma explicação cândida: “Quando nós ligamos para um primeiro-ministro, aquilo entra imediatamente sob escuta. Portanto, eu disse-lhe ‘nunca devias ter ligado ao primeiro’. Mas ele considera-se amigo do primeiro”.

“As conversas que estão no MP já foram ouvidas por várias pessoas e as coisas que foram ditas não foram fáceis”, carrega Salgado, rematando com um pensamento introspectivo: “Bom, à nossa volta o mar está revolto e nós vivemos num país que é um alguidar de lacraus”.

felicia.cabrita@sol.pt