Opiniao

Um país de tolinhos

Não estou certa de se ter tornado um caso, na medida em que as redes sociais se mantiveram sossegadas quanto ao tema, mas a possibilidade de o Presidente da República condecorar o ex-primeiro-ministro José Sócrates parece ter agitado alguns comentadores. Do PS, Manuel Alegre já fez saber que acha bem, o que nos descansa. Por outro lado, Augusto Santos Silva, num comentário na sua página de Facebook, afirmou que aceitar a condecoração seria "uma nódoa no currículo de Sócrates". Mais: seria uma nódoa "não merecida", o que sugere que há nódoas e nódoas. Segundo percebo, os ex-governantes são condecorados mais tarde ou mais cedo. E são-no por instituições e não por pessoas. É uma forma de reconhecimento dos serviços prestados ao país, independentemente dos serviços. Para evitar constrangimentos tipicamente portugueses, sugeria que a condecoração fosse feita logo no dia da derrota nas eleições. Assim ficava despachado o certificado do adeus, até nunca mais.

Tim Cook é alto

O CEO da Apple, Tim Cook, declarou há dias que tem "orgulho em ser gay". O anúncio da sua orientação sexual tem certamente importância na comunidade homossexual. Não questiono a necessidade nem a decisão de expor a mesma, embora lamente que ainda hoje seja necessário anunciar ao mundo que se é como se nasceu. O que estranho é o 'orgulho' que declara em ser o que não escolheu. Mas talvez a minha estranheza tenha que ver com uma certa 'norma'. Ninguém se mete com ninguém por ser heterossexual e talvez daqui surja o 'orgulho gay, que funciona mais como uma declaração de identidade contra a homofobia presente e latente do que como uma emoção que não parece fazer sentido. Seria como alguém dizer que tem orgulho de ser homem ou mulher, de ser branca, ter olhos verdes e mãos delicadas. É inútil e arrogante, na medida que não escolhemos nenhuma destas características. É, aliás, tão estranho como 'ter orgulho' do sítio onde nascemos.

The Affair

A estreia da série televisiva The Affair anima quem sente falta de Masters of Sex. A história é contada de maneira original. Alison Lockhart (Ruth Wilson), empregada de mesa num café nos Hamptons, casada, a recuperar da morte do filho, e Noel Solloway (Dominic West), professor e escritor, casado, com quatro filhos, que está a passar férias em casa dos sogros, contam o seu caso amoroso no que parece ser um interrogatório de Polícia na sequência de um crime. Parece ter passado algum tempo desde que Alison e Noel se conheceram, alguém morreu atropelado, não sabemos quem. Esta é a informação que temos do presente. O passado vai sendo construído nos testemunhos de cada um. A história é contada duas vezes e, claro, tem diferenças. Ambos pensam que foi o outro que começou, mas Alison imagina-se sempre de cabelo apanhado, com pior aspecto, menos à vontade do que Noel a imagina, confiante e de cabelo solto. Quem escolherá melhor as suas lembranças?

Um polícia em cada esquina

A pergunta que ainda ninguém fez sobre 'piropos', ou como se passou a dizer de um momento para o outro 'assédio sexual de rua', é: alguma vez deu resultado? Sim, que resultado prático tem um assobio, um suspiro, um piropo ou uma ordinarice dita a uma mulher? Não errarei por muito se disser que nenhum. Isto significa, portanto, que as intenções dos que se metem com raparigas e mulheres na rua são apenas as de mostrar um sinal de que existem e não necessariamente àquela a que assobiam. Criminalizar este comportamento, como pretende o Bloco de Esquerda, implica fazer do Estado o que pais e maridos faziam - e fazem, cuidado - que era proteger a fêmea à solta na selva urbana. Em vez do paizinho temos um polícia a repreender quem anda por aí a dizer o que ninguém está interessado em ouvir. Há que perceber que as mulheres andam sozinhas na rua há poucas décadas e que a facilidade de adaptação à novidade não é o ponto forte do sexo masculino em geral.

Melhorou muito

O mundo virtual ficou nervoso e estupefacto com a aparição da actriz Renée Zellweger numa entrega de prémios em Hollywood. O motivo da agitação - como se nestes dias parvos tivesse de haver um motivo especial para expressar surpresa - foi a aparência da ex-Bridget Jones. O escândalo de ter feito uma cirurgia plástica que lhe modificou a expressão foi objecto de análise desagradável. O mundo que Zellweger quer agradar retribuiu o seu esforço generoso de ter uma aparência não enrugada com uma sucessão de comentários misóginos. Razão teve Brigitte Bardot quando se esteve nas tintas para o que o mundo pudesse achar das suas rugas. Mas cada mulher decide como quer. E Renée Zellweger escolheu fazer o que entendeu ser melhor para si. Pelo que vi e comparando inevitavelmente com a cara que tinha, de menina à beira de um ataque de lágrimas, afirmo com agrado que Zellweger melhorou muito. Tem por fim os olhos abertos. Agora sim: tem cara de mulher.