Cultura

José Cid: 'Não sou uma celebridade, sou um mito’

10 000 Anos Depois Entre Vénus e Marte é considerado pela revista americana Billboard um dos cem melhores discos de rock sinfónico e ajudou José Cid a recuperar a atenção do público nos últimos tempos. Aos 72 anos, o músico diz que canta melhor do que Roberto Carlos, acusa Tony Carreira de plagiador e repudia o programa apresentado por Teresa Guilherme. Monárquico convicto, fala ainda do partido recém criado Nós, Cidadãos e defende que D. Duarte daria um dos melhores reis da história de Portugal.  

"Eu não contesto, constato" José Sérgio/SOL

No dia 15 vai revisitar, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, o disco 10 000 Anos Depois Entre Vénus e Marte, de 1978. É o seu álbum mais importante?

É uma obra irrepetível, embora não o considere o meu melhor álbum de rock sinfónico. O Vida (Sons do Quotidiano) é o melhor e também vai ser tocado no Coliseu. Mas, instrumentalmente, o 10 000 Anos é muito complexo e, por isso, vou ter mais um elemento na banda, o meu sobrinho Gonçalo Tavares, que vai tocar teclas. Em vez de dois teclistas, vão ser três, com a vantagem ainda de que ele tem os instrumentos exactos do rock sinfónico que eu não tinha quando o gravei. 

Nos últimos anos o disco tem sido acarinhado, mas em 1978 não teve aceitação.

Aqui em Portugal nenhuma. Não vendeu. Mas, às vezes, ainda me aparecem com o disco original para autografar. 

Por que não vendeu?

Era um álbum muito à frente e as pessoas queriam ouvir-me em coisas comerciais como 'No dia em que o rei faz anos', 'A minha música', 'A cabana', 'Addio adieu auf wiedersehen goodbye', '20 anos'... 

Tinha noção do risco quando o compôs?

A minha obra é muito camaleónica, não se fixa por um género. Até fado gravei, em 1988, e foi um êxito. Vendi 40 mil vinis numa altura em que ninguém vendia 300. Quanto ao 10 000 Anos aquilo estava escrito e tinha que ser feito. Escrevi o álbum pouco a pouco, já estava no Quarteto 1111, mas achei que o grupo era para outro tipo de rock e guardei este álbum para mim. Agora sinto uma responsabilidade acrescida porque, no final do milénio, depois de o disco ser editado nos Estados Unidos, a crítica americana pegou nele e o disco ganhou uma dimensão mundial. Tornou-se um álbum de culto, com a Billboard a nomeá-lo como um dos 100 melhores álbuns de sempre. O Blitz também o colocou como o segundo melhor álbum nacional de todos os tempos, atrás de Cantigas de Maio, do Zeca. Recentemente foi a Sputnik Music a nomeá-lo como um dos cinco melhores álbuns de rock sinfónico. Portanto, o rock português tem aquilo que é apontado pela crítica mundial como um dos melhores álbuns mundiais de sempre. A França não tem, a Alemanha não tem, a Espanha muito menos. 

Este reconhecimento começou há dez anos, quando a Art Sublime o editou nos EUA. Houve ainda uma edição japonesa?

Os japoneses também estavam na jogada, mas optei pelos americanos e nitidamente foi o melhor que fiz. Mas o álbum está já de tal maneira relançado pelo mundo inteiro que para aí há dois meses recebi uma chamada de um sul-americano a dizer-me que há uma edição em vinil pirata do 10 000 Anos no Peru. De tal maneira pirata, que meteram o Vida (Sons do Quotidiano). Queriam vir entregar-me direitos de autor, mas não aceito dinheiro ilegal. 

Vai gravar o concerto e fazer um DVD para reforçar o projecto no mercado internacional? 

Sim, vou tentar finalmente fazer o DVD. É a altura para o fazer: amadurecemos o concerto e já que o álbum está tão bem cotado quero tentar fazer grandes concertos mundiais. No Rock in Rio Lisboa não, porque para eles eu sou mais rio do que rock. Em Portugal, há um lobby muito grande contra o José Cid porque tenho público. É impensável que tenha um álbum nomeado entre os melhores do mundo e nunca tenha ido cantar ao Rock in Rio, quando todo o gato sapato lá vai. 

Alguma vez abordou a Roberta Medina?

Já e não houve resposta. À volta dela há o tal lobby. E depois tinha de ser agressivo, tinha de lhe explicar que em Portugal sou o equivalente ao Roberto Carlos no Brasil. A diferença é que canto muito melhor do que o Roberto Carlos. 

Sente-se injustiçado pelo Rock in Rio?

Um palco é um palco e aquilo é um grande concerto. Alguns colegas meus completamente estilizados e decrépitos vão, porque não ir lá tocar também? É uma injustiça, mas o facto de não me levarem significa que têm uma grande dor de cotovelo de mim. E isso diverte-me. 

Enquanto não vai, continua a preparar o seu próximo disco de rock sinfónico, projecto que já se fala há anos?

Sim, estou a escrever um quarto álbum, e último, de rock sinfónico que se chama Vozes do Além. Poeticamente parte de uma estética mais à frente, com poesia de Natália Correia e Sophia de Mello Breyner ligado com algumas ideias poéticas minhas. Mas o próximo trabalho que vou lançar não é esse, mas sim Menino Prodígio. 

É sobre o quê?

É a minha história. Quando era pequenino tocava piano, cantava e as pessoas chamavam-me menino prodígio. É um álbum muito roqueiro, mas com textos, com opinião política e até objecção de consciência na própria poesia. 

Porque os tempos actuais o exigem? 

A publicidade do álbum vai ser assim: sem se aperceber ou querer, Portugal teve, nos anos 70, um dos maiores rockers do mundo. Quarenta anos depois, o menino prodígio vem provar isso mesmo. É uma bomba, tem tudo o que as minhas outras músicas têm, mais a originalidade de ser actual. 

Essa actualidade tem a ver com as suas convicções políticas e a recente criação do partido Nós, Cidadãos? 

Já fiz o hino e digo que é uma boa ideia, mas ainda não entrei definitivamente porque estou à espera do debate de ideias. Não assino cheques em branco. Acho que o Nós, Cidadãos tem de ser uma mesa redonda, de 12 pessoas, entre elas o D. Duarte, um homem interessantíssimo, que daria um rei melhor do que 90% dos reis que tivemos. Além de culto, tem uma visão estratosférica sobre o país. Se ele der a cara pelo partido, entro para se tomarem posições muito concretas. Uma delas é o voto obrigatório. As pessoas deviam sentir a votação como uma obrigação. Quem não vota deve ser multado pesadamente. 

Se não sentem, o Estado obriga?

Basta olhar para as percentagens de abstenção das eleições. Não é preciso uma lei se as pessoas sentirem o voto como uma obrigação cívica. É como nas rádios, não é preciso uma lei que obrigue a passar música portuguesa se os locutores se sentirem na obrigação de passar porque são portugueses. O voto é a mesma coisa. O Nós, Cidadãos não é um projecto à esquerda, nem à direita, nem ao centro. É estar por cima para idealizar e por baixo para proteger os mais necessitados.

É assumidamente monárquico. É o sistema que defende?

Os melhores sistemas políticos mundiais são as monarquias do Norte da Europa, onde a corrupção é quase nula, a cultura, a saúde e a educação são importantes. No fundo, as coisas que são importantes para as pessoas comuns. Pagam impostos, mas têm tudo facilitado. Aqui não, pagam-se impostos e ainda se é mal tratado. Neste país, politicamente não se consegue concretizar nada porque o sistema não presta, o 25 de Abril é um projecto adiado. Só aumentou consideravelmente a pobreza, destruiu a classe média e não soube controlar a classe rica, que pode criar empregos ou fazer offshores. Mas nem isso controla. Para que serve o 25 de Abril? Para termos liberdade para falar? Então é o que estou a fazer. O Presidente da República viu o país ir-se por aí abaixo, sabia o que estava a acontecer, mas não travou. Há oito anos, foi oferecido pelo Xanana [Gusmão], a custo zero, o pagamento da dívida externa de Portugal. O Sócrates não quis, este [Passos Coelho] também não e o PR está a par desta história. Timor está forrado de dinheiro por causa do petróleo e quis ajudar, mas nós não aceitámos a ajuda timorense para favorecer os interesses da Europa, da banca e dos políticos ligados ao processo da Europa que, se calhar, também recebem dinheiro por baixo da mesa. Qual é o resultado? Estamos nós, os nossos filhos, os nossos netos a sofrer consequências dramáticas por não nos ligarmos ao único país no planeta que gosta de nós. Aqui era preciso fazer como em Timor. 

Como?

Os timorenses contrataram uma polícia fiscal australiana e a ministra da Justiça e do Trabalho já foram presas. E Timor só tem dez anos de democracia. Aqui não, a classe rica age de forma escandalosa. Acredito que muita dela é honesta e trabalha para o bem do país, mas depois há as excepções que temos visto, algumas delas associadas ao poder político, que fabricam o dinheiro em Portugal e depois metem-no lá fora, sem impostos, com fugas. É por isso que digo que o 25 de Abril não é um projecto concretizado. Mas o problema vem de trás. Os últimos cem anos da nossa história são vergonhosos. Mataram um rei genial, o rei D. Carlos, um homem cultíssimo com prestigio a nível mundial, e impuseram uma República, que até já teve duas ditaduras - uma salazarista e outra marcelista. E mais recentemente teve outra, legalizada pelo voto do povo, em que o primeiro-ministro se achou no direito de fazer tudo o que queria e lhe apetecia porque tinha a maioria absoluta. Devia ter sido demitido. 

Se entrar para o Nós, Cidadãos vê-se como candidato?

Ministro da Cultura era capaz de ser, até porque tenho muito mais perfil do que o secretário de Estado que lá está. Como acho, por exemplo, que se o António Costa ganhar e puser o Carlos do Carmo como ministro da Cultura faz muitíssimo bem. 

O pelouro da Cultura deve estar entregue a um artista? 

Não se percebe como é que o Partido Socialista está anos e anos no poder e não tem uma pessoa como o Manuel Alegre na Cultura. Um homem tão brilhante a escrever. Há uma grande diferença entre pessoas cultas, que debitam frases finas, e pessoas criativas. O maestro Vitorino de Almeida é outro homem culto e criativo. 

Herdou convicções políticas de família?

Não, até era republicano ao princípio e depois percebi que os sistemas republicanos falham completamente. A minha família tinha um lado monárquico e outro republicano. O meu bisavô Albano Coutinho, um homem extraordinário, era maçom, mas rapidamente percebeu o que a República portuguesa queria fazer e saiu da maçonaria. Depois tenho um lado monárquico, com alguma ascendência. 

Aos 72 anos ainda se sente com energia para lutar pelos seus ideais? 

A idade já pesa, estou todo podre, mas a voz contínua impecável. A minha vida é escrever canções e agora que estou um pouco na recta final da minha carreira se puder armazenar alguns álbuns acho uma boa ideia. Sinto que continuo criativo e que tenho voz. Por isso, em Janeiro, lanço Menino Prodígio e durante o próximo ano vou gravar Vozes do Além. 

Está a armazenar projectos? Tem medo da velhice?

Já estou nela. Estou só a gerir a minha decadência. Além de Menino Prodígio e Vozes do Além já tenho praticamente acabado um álbum que se vai chamar Fados Fandangos, Chulas e Malhões, e tenho outros projectos que não posso dizer já para não me copiarem a ideia. 

Foi muito plagiado para ter esse medo?

Não, até porque vocalmente é muito complicado cantar José Cid. Mas é uma ideia estética muito concreta e seria dar de mão beijada uma ideia muito minha. 

Quando descobriu que podia cantar?

Comecei a cantar num grupo de jazz em Coimbra e, com 14 anos, criei com alguns amigos Os Babies, uma banda de covers que animava as festas de garagem. Primeiro tocava piano, mas um dia o vocalista não pôde cantar e substituiu-o. Aos poucos fui percebendo que podia cantar muita coisa. 

Teve aulas?

Não, tudo sozinho. Nunca tive uma aula na vida. 

Nem de piano?

Não, completamente autodidacta. 

Mas ganhou um concurso ainda muito novo…

Ganhei o primeiro prémio de canto coral no colégio de jesuítas em que andei em Santo Tirso. 

Era um colégio interno?

Sim, a casa dos meus pais ficava a 300 quilómetros. Nessa altura levava-se oito horas para lá chegar. Era quase clausura total. 

Com uma educação muito católica?

Sim, foi uma seca. Fiquei altamente traumatizado. Durante quatro anos tinha que ir todos os dias, às 8h da manhã, à missa. Isso é traumatizante para qualquer criança. Quando sai de lá passei a ir só ao domingo, mas chegava sempre atrasado e ficava no átrio à espera que as minhas amigas saíssem da missa. 

Hoje permanece desligado da Igreja?

Hoje sou capaz de parar para rezar, mas tenho outro Deus, mais antigo: o Endovélico, que é o deus que os portugueses deviam seguir. Antes de os romanos chegarem, o Endovélico era o nosso deus, mas foi silenciado pelo cristianismo. Ainda há um único altar endovélico em Portugal, no Monte da Lua, em Sintra. Só quem sabe é que lá vai e eu vou lá rezar de vez em quando. Aí e noutro sítio fantástico, que ainda tem resquícios do Endovélico, em São João da Pesqueira, na margem Sul do Douro, num promontório que se chama São Salvador do Mundo. Até escrevi uma música sobre este sítio. Não tenho nada contra Fátima, embora ache que aquilo seja um supermercado do rosário, mas São Salvador do Mundo é que devia ser o nosso Stonehenge. Se foi o colégio jesuíta que me fez procurar este outro Deus já não sei, mas fiquei traumatizado pelo isolamento. Também porque, naquela altura, tinha uma grande paixão pela minha preceptora francesa, a Monique, com quem aliás ainda hoje falo. Ela tem agora quase 90 anos e continua a ser uma mulher lindíssima. 

Como o marcou esta preceptora?

Foi ela que percebeu que era um miúdo que gostava de música, de letras, de artes. Que não era o miúdo que os meus pais queriam formar. Na Chamusca, onde cresci, a minha família era de uma classe social e económica bastante elevada, por isso não queriam que cantasse, mas sim que fosse advogado. 

Se tinha uma preceptora porque foi parar a um colégio interno?

Ela era uma mulher lindíssima, que despertou grandes paixões no Ribatejo. Os meus pais foram-na depositar a Paris porque ela e o meu primo Fernando Cid tinham uma grande paixão, uma espécie de Romeu e Julieta da época. Ela nunca mais voltou a Portugal e foi nessa altura que fui internado em Santo Tirso. Sofri imenso, os padres diziam que me fartava de chorar e chamar pela Monique. 

São as memórias de infância que guarda?

Também não me esqueço das brincadeiras com os meninos da minha rua. Era muito engraçado porque sabia que sempre que atirava um para dentro da piscina os meus pais davam-lhe roupa. Então fazia de propósito. Atirava-os e depois gritava: 'Mãe, o não sei quantos caiu para dentro da piscina. Tem de levar roupa e sapatos'. Era isso e as jangadas de canas que construíamos para andar nas cheias. A parte de trás do nosso jardim dava para uma horta a 500 metros do Tejo e, quando chovia, aquilo ficava tudo inundado e nós andávamos nas cheias de jangada. Uma vez íamos morrendo, foi preciso os bombeiros irem-nos salvar de barco. 

Ainda se dá com os amigos de infância?

A grande maioria sim, mas alguns deixei porque são meio insuportáveis, armados em snobes. Pessoas muito finas, todos engravatados, uma chatice.

E os irmãos não participavam nas brincadeiras? 

Não tinha irmãos, só duas irmãs, dez anos mais velhas. Eram como segundas mães. Vim muito mais tarde porque os meus pais sempre quiserem ter um rapaz. 

Um rapaz que lhes deu algumas dores de cabeça… 

Nunca quis estudar Direito, fui para lá empurrado pelos meus pais. Não tinha jeito nenhum, nem gostava daquilo. Fiz duas cadeiras em quatro anos. Só queria saber de desporto e de música. Eram os meus projectos de vida e isso provocou, naturalmente, muita guerra em casa. Mas desisti do curso de Direito, vim para Lisboa para o curso de Educação Física e continuei na música. 

É já em Lisboa que cria o Quarteto 1111.

Sim. Um dos meus colegas no Instituto Nacional de Educação Física era irmão do Michel que tocava no Conjunto Mistério. Juntei-me ao grupo e, pouco tempo depois, mudámos o nome para Quarteto 1111. Era o número de telefone da sala de ensaios, o que facilitava o contacto com as fãs. 

Tinham muitas groupies atrás de vocês?

Sempre odiei groupies. São ninfomaníacas deslumbradas que não ouvem música. Nunca namorei com uma fã. 
Com os 1111, já com Tozé Brito na formação, criaram uma banda paralela: os Green Windows. Porquê? 
Censura. Tenho 28 canções censuradas pelo antigo regime. Começámos a contar os tostões e pensámos numa forma de ganhar o mercado. Surgiu então a ideia de fazer uma banda comercial, com vozes femininas, com as nossas companheiras. A Maria Armanda, a minha segunda mulher, cantava connosco. 'No dia em que o rei fez anos' e '20 Anos' são dessa altura.

Apesar desse sucesso, anos depois a parte comercial já não corre tão bem. 

Depois do 25 de Abril, os estigmas do grupo Ary dos Santos, da pseudo-esquerda festivaleira, tudo isso. José Cid era o perigo porque era o homem que tinha êxito e achavam que estava contra eles. Muito mais tarde fiquei muito amigo do Paulo de Carvalho, do Carlos Mendes e do Carlos do Carmo. O Carlos do Carmo diz que tenho uma língua viperina e eu respondo-lhe sempre: 'eu não contesto, constato'. 

Na década de 1980, quando se dá o chamado boom do rock português, também é posto de lado. 

Logo. Não convinha ter um rapaz como eu, que cantava ao vivo muito mais do que aqueles roqueirinhos todos. Sou de outros campeonatos vocais. Era comparar a obra-prima do mestre com a prima do mestre-de-obras. E não se pode comparar. 

Revoltava-o?

Sorri e esperei pelo meu tempo, tive essa paciência. Sou muito cínico nesse aspecto. Nos anos 90 fiz álbuns brutais, que não venderam: Camões, as Descobertas e Nós, Ode a Federico Garcia Lorca, Cais do Sodré, de jazz, Pelos Direitos do Homem, dedicado à causa de Timor-Leste, e aquele álbum da fotografia despido de preconceitos. 

Está a falar da fotografia que fez em 1994, onde aparece nu, deitado num sofá, com um disco de ouro à frente?

Sim, despi-me de preconceitos e protestei contra as playlists das rádios. Quando as pessoas têm de sujeitar a sua criatividade e talento, com um sorriso de esgar e arrogância, aos 'donos' das playlists não posso fazer outra coisa. Com essa fotografia consegui separar o trigo do joio. As pessoas preconceituosas ficaram horrorizadas, as despreconceituosas acharam um piadão, acharam-me rebelde. 

Sabia que a imagem ia perdurar?

Claro que sim. O John Lennon despiu-se com a Yoko Ono pela paz no mundo e a imagem ficou para sempre, mesmo sendo a Yoko uma mulher horrorosa e o Lennon um lingrinhas do pior que há, com uma pilinha que ninguém queria pegar a não ser a medonha da Yoko. Eu, ao menos, sou ribatejano, de uma raça superior. O Lennon nu era o oposto do seu talento. A Yoko não percebeu que estava ao lado de um homem genial e quis manipulá-lo. Comigo a Yoko não tinha um dia de existência, comprava-lhe um par de patins e vinha do Castelo de São Jorge por aí abaixo. 

Nunca foi influenciado por uma mulher?

Não! Mulher que queira mandar em mim não tem hipótese. Também nunca quis mandar em nenhuma das mulheres com quem casei. Estou muito atento à manipulação das mulheres. É essa a grande vantagem que tenho com a Gabriela [a actual mulher]. É completamente independente, e dá-me a certeza de que sou verdadeiramente amado. 

É a sua quarta mulher. Como aconteceu?

Sou amigo de todas as minhas ex-mulheres, uma infelizmente já morreu, a Maria Armanda, mas tinha decidido não casar mais. Mas depois apareceu-me uma senhora interessantíssima, pintora, que não depende de mim economicamente, que tinha conhecido há muitos anos na Austrália. Ela tinha sido Miss Timor e era jornalista em Melbourne. Foi aí que nos conhecemos, quando me fez uma entrevista. Estivemos quase 30 anos sem nos falar. 

Como foi o reencontro?

Através destas coisas modernas da internet e Facebook. Gostei logo dela, foi tórrido... Depois estivemos 30 anos sem nos ver e há três veio a Portugal e encontrámo-nos. Ela foi a Timor resolver a sua vida e voltou para nos casarmos. 

Pediu-lhe logo em casamento?

Não, na minha idade já não se pede ninguém em casamento. Aos 72 anos era um disparate. Com esta idade o que se diz é: 'Damo-nos lindamente, temos tudo em comum, o mesmo sentido de humor, até somos os dois monárquicos progressistas, é uma boa ideia termos uma companhia na recta final das nossas vidas'. 

Usando a sua expressão, então agora já não é 'tórrido', já não há paixão, sexo… 

Damo-nos com Deus e os anjos. Cuidamos muito um do outro, dormirmos muito abraçadinhos, fartamo-nos de rir de manhã quando acordamos. Estamos sempre a rir, a dizer coisas engraçadas e a provocar. Com a minha idade as pessoas têm de se habituar a gostar de quem gosta delas. Quando gostamos das pessoas que gostam de nós levamos uma vida muito mais tranquila. A Curia [concelho de Anadia] dá-nos uma qualidade de vida bestial. A minha quinta também é muito bonita, passeamos com as nossas cadelas, ela pinta, eu escrevo os meus êxitos. 

É muito vaidoso da sua carreira. 

Eu? Nada. Gosto de escrever boas canções e de cantá-las. 

Então porque reforça várias vezes o reconhecimento internacional, o facto de cantar melhor do que o Roberto Carlos…

Mas isso é tão óbvio! É o mesmo que dizer que é mais bonita que a Teresa Guilherme. São coisas tão óbvias, que se pode dizer isto sem querer sublevar o ego [ri muito]. Aquela gente com quem a Teresa Guilherme está naquela Casa, que eu chamo de Casa dos Degredos, choca-me porque não tem representatividade em relação à juventude portuguesa. 

Se fizessem com celebridades e o convidassem entrava?

Está fora de questão. Não sou uma celebridade, sou um mito. E os mitos não se misturam com celebridades. Os mitos pairam a outros níveis. 

Isso não é contraditório com o que disse antes da sublevação do ego? 

Qual é o problema de as pessoas terem ego? Sou um mito porque, com 72 anos, tenho uma homenagem pública cada vez que dou um concerto, para salas completamente cheias, com gente a cantar comigo do princípio ao fim. Estou mitificado pelo público nacional. A Amália e o Zeca, injustamente, não tiveram uma homenagem destas. 

Nessa lógica o Tony Carreira também é um mito.

Não tenho a menor dúvida que sim. O Tony Carreira canta lindamente, tem poemas geniais, da mais alta qualidade poética, e tem músicas extremamente originais, basta ir à internet e ver. É um monstro de palco.

Está a ser irónico?

Não estou. Ele canta qualquer tipo de música: jazz, blues, rock. A voz dele presta-se a tudo. É do melhor que há. 

Continua a soar irónico.

Se pela negativa não vou lá, agora falo sempre pela positiva. Quem quiser que vá à internet e escreva ''L'Idiot' Herve Vilard', oiça e depois tire as suas conclusões. Como essa canção há mais 40. E as centenas de multas que já pagou por plágios na América do Sul e Central? O Marco Paulo, que cantava mesmo, tinha voz, e agora estou a falar a sério, punha poetas portugueses a fazer a tradução de letras e assumia-se como cantor de versões. A Sociedade Portuguesa de Autores paga-me a mim como paga aos plagiadores. Isso não é justo. Eu sou um criativo, um poeta, autor de toda a minha obra, não tenho nada que ser misturado com esta merda. 

Ser irónico e desbocado ajuda a construir o mito?

Não sou desbocado, é uma palavra sua. Eu não contesto, constato. Não sou malévolo a analisar as coisas. Obrigo é as pessoas a terem sentido de humor, se não têm nunca vão gostar do José Cid. 

alexandra.ho@sol.pt