Sociedade

Empregada de Sócrates coloca computador em andar vizinho

Na noite de quinta-feira, véspera da detenção de José Sócrates, uma empregada doméstica que trabalha em sua casa retirava o computador do antigo primeiro-ministro do seu apartamento no edifício Heron Castilho, em Lisboa, e colocava-o na residência de um vizinho onde também fazia limpezas. Este facto reforçou a convicção dos investigadores quanto à tentativa de desvio de provas, a que se adicionava a hipótese de fuga.

Na manhã de sexta-feira, enquanto tinham lugar mais uma dezena de buscas, Sócrates cancelava de novo o regresso a Portugal, acabando por marcar o voo definitivo para o fim da tarde do mesmo dia, com chegada a Lisboa prevista para as 22h30.

Segundo disseram ao SOL fontes conhecedoras da investigação, terá ligado para a SIC, avisando que estava a sair de Paris (o que a estação, através do seu director de informação, Alcides Vieira, desmente). Tal chamada telefónica terá sido, segundo a investigação, efectuada à hora do embarque. 

Nessa altura, já as informações que o davam como suspeito corriam os meios jornalísticos da capital portuguesa, além de que os investigadores deixavam de poder continuar com as buscas, que a lei impõe só poderem realizar-se entre as 7h00 e as 21h00.

Restava às autoridades aguardarem pela chegada de Sócrates à Portela. Sabendo que adquirira tardiamente o bilhete, contavam que fosse dos últimos a sair do aparelho, e decidiram avançar ao seu encontro. 

Comunicaram-lhe a detenção logo à saída da manga do avião e, com o seu acordo, seguiram para o Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), com vista à efectivação dos respectivos procedimentos legais, incluindo a constituição como arguido.

Despistar os jornalistas

Como as saídas do aeroporto estavam bloqueadas pelos jornalistas, os investigadores, acompanhados pela PSP, arranjaram um caminho alternativo para despistar as estações de televisão. 

Ao longo dessa noite, a SIC repetiu as imagens nocturnas de um carro a passar na rua em frente ao aeroporto, com os jornalistas em estúdio a dizerem que Sócrates seguia no seu interior. O alegado alerta do ex-chefe do Executivo à estação de Carnaxide poderia ter como objectivo invocar mais tarde violação do segredo de Justiça.

Além da perturbação do inquérito e do perigo de fuga, o juiz Carlos Alexandre, do DCIAP, também invocou a continuação dos actos indiciados, de fraude fiscal e branqueamento de capitais, como justificação para a emissão dos mandados de detenção. 

Segundo os responsáveis do inquérito, a mãe de Sócrates, Maria Adelaide Monteiro, apesar de utilizada pelo filho em várias manobras de alegado branqueamento de verbas por ele recebidas ilicitamente, não estará conscientemente envolvida no esquema.

felicia.cabrita@sol.pt