Opiniao

Já vimos isto

Desde a licenciatura ao domingo que os fins-de-semana não correm bem a José Sócrates. Detido numa sexta-feira à noite e até ao momento em que escrevo, sem notícias sobre o que será o seu futuro próximo, o ex-primeiro-ministro está a ser investigado por suspeitas de prática de crimes graves. Sobre isto não adianta agora comentar. Se forem confirmados pela justiça, tornar-nos-emos um país em que poucos confiarão, comparável a choldras como a Ucrânia ou a Itália, que tem a vantagem de se vestir melhor. Escrevo isto com mágoa e refugio-me num episódio jocoso. Segundo apurou o SOL, dez mil exemplares do resultado da sua tese na Sorbonne, com o título optimista A Confiança no Mundo, terão sido adquiridos pelo próprio para esgotar a primeira edição. Charles Saatchi também pediu às assistentes da ex-mulher, Nigella Lawson, para comprarem milhares de exemplares do livro dele para assim entrar nas listas dos mais vendidos. Por vaidade, tudo se repete.

Uma ou três

No Museu Calouste Gulbenkian pode ser vista uma exposição generosa intitulada A História Partilhada: Tesouros dos Palácios Reais de Espanha. As obras reflectem a história que se cruza entre Portugal e Espanha em acontecimentos como guerras ou casamentos. As ligações entre os dois países são visíveis nos retratos dos membros das famílias reais, reunidos numa árvore genealógica muito útil logo à entrada. Há duas alternativas para fazer a visita: com um guia conhecedor dos protagonistas e da História ou sem ninguém a limitar os seus passos. Aconselho as duas maneiras e mais uma. A primeira visita pode ser de reconhecimento do local e deve servir para prestar homenagem a um Tiziano (Ecce Homo), um Caravaggio (Salomé com a cabeça de São João Baptista) e dois Goya (Fábrica de Balas e Fábrica de Pólvora). A segunda deve ser feita com o guia. Aconselho uma terceira visita a quem quer demorar o seu tempo a ver a armadura deslumbrante de Carlos V.

Justiça e política

Maria de Belém afirmou que «à justiça o que é da justiça e à política o que é da política» como se fosse a continuação natural de uma frase dita por Jesus Cristo para resolver um problema de pagamento de impostos: «Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus». As moedas cunhadas não pertenciam à religião, assim como as questões de fé não eram julgadas por César. Penso que a ideia era dizer que não comentava um processo em curso e também, mais subtilmente, que o Parlamento não estava acima dos tribunais. Se for isso, a notícia é boa, mas deve ser encarada com cautela porque não queremos chegar ao ponto em que somos governados por tribunais, incluindo o Tribunal Constitucional. Na justiça, a mentira é punida. Numa democracia, a política é uma mentira necessária dita à vista de todos. E é necessária para não sermos um regime totalitário, que decide quem é culpado e que diz a verdade porque não tem de manipular. Precisamos de ambas.

Os vitalícios

Pensava que o país estava depauperado, numa recuperação a passo de caracol depois de uma crise avassaladora? Achava que estava a ser obrigado a pagar impostos a triplicar porque ainda não era possível pagar menos? Pois pensava e achava mal. Portugal atingiu a prosperidade com uma rapidez avassaladora e o IRS será reduzido já no próximo ano. Como sabemos isto? Na semana passada, os deputados Couto dos Santos (PSD) e José Lello (PS) apresentaram uma proposta para a reposição das subvenções vitalícias aos políticos com um rendimento médio acima dos dois mil euros por mês, suspensa desde 2005 por José Sócrates, a confirmar que até um relógio parado acerta nas horas duas vezes por dia. Entretanto, nos partidos perceberam que talvez não fosse boa altura para repor uma ideia tão excêntrica e a proposta foi retirada. Sugiro que por uma vez nas nossas vidas de eleitores e contribuintes não esqueçamos esta intenção. Ela diz tudo o que temos de saber.

Boçalidade ao rubro

Julien Blanc é um suíço de 25 anos a quem foi negada a entrada no Reino Unido. Uma petição com 150 mil assinaturas e uma acusação de sexismo e promoção da violação levaram o Governo britânico a tomar uma decisão que até agora só fora aplicada a terroristas ou a militantes nazis. Blanc, de aspecto normal, auto-intitula-se um conquistador de mulheres e mestre do engate. Cobra pelas palestras e pelas ‘aulas práticas’. A técnica é simples: desplante, assédio, bullying, uma violência controlada em que pareceria estar a brincar, não fosse a grosseria dos seus gestos. Claro que se as raparigas estão bêbedas, os métodos ganham em eficácia. O homem é detestável mas não sei se negar-lhe o visto é uma boa solução. A escritora Jojo Moyes sugeriu no Twitter que as mulheres comprassem todos os bilhetes e que se sentassem a rir dele. Gosto da parte de ir à palestra, mas rirmo-nos dele é demasiado subtil. Devíamos fazer alguma coisa mais contundente, não acham?