Sociedade

25% dos jovens assumem ser agressivos no namoro

Durante os namoros, 25% dos jovens têm comportamentos abusivos e 22% já foram vítimas deste tipo de situação. As bofetadas, insultos e difamações são as agressões mais comuns, mas em muitos relacionamentos juvenis também se assiste a tentativas de estrangulamento. Os dados constam de um estudo da investigadora e docente da Universidade Fernando Pessoa Madalena Sofia Oliveira que será divulgado em breve.

Com o título 'Transmissão intergeracional da violência: o contexto familiar, as relações de intimidade e as crenças dos jovens', o trabalho, realizado ao longo de três anos, assenta em inquéritos a 1.500 estudantes de 57 escolas do ensino secundário e profissional, entre os 15 e os 20 anos, de 26 municípios do Norte e Centro do país. 

Nos inquéritos, dos jovens com relacionamento violentos, entre 38% a 42% indicaram os insultos e as difamações como os actos mais praticados. Entre 30% e 40% sinalizaram a bofetada e entre 9% a 15% referiram a tentativa de estrangulamento.

Segundo a autora, estes comportamentos resultam em grande parte das cenas de violência doméstica que assistem no seio da família. “Os jovens expostos a ambiente familiar violento são potenciais agressores”, diz Madalena Sofia Oliveira no estudo, concluindo que “a violência transmite-se de geração em geração”.

O estudo, a que o SOL teve acesso, refere que metade dos 1.500 jovens admitem ter assistido a insultos (56%) e a gritos (47%) em casa dos pais. Além disso, 255 confessam que, no seu contexto familiar, viram uma pessoa atirar um objecto contra outra e 210 testemunham alguém a bater noutra. 

Nas famílias portuguesas, de acordo com os dados recolhidos, são também comuns as atitudes coercivas: do total de inquiridos, 33% assistiu a um dos elementos do agregado familiar a ser proibido de sair de casa e 14% registou alguém a ser obrigado a trabalhar arduamente e a ser forçado a guardar segredo de um acontecimento.

Para concluir que a violência é mesmo transmitida entre gerações, a investigadora cruzou os dados das agressões nos namoros e da violência doméstica com as crenças dos jovens sobre estes comportamentos. E verificou que 53% acha que os pais batem nos filhos para “os corrigir” e 22% considera que as pessoas “merecem apanhar para aprender”. Ao mesmo tempo, 73% concorda que “para uma pessoa magoar outra tem que haver um motivo”, enquanto 30% considera que a “violência é um método de resolução de um problema”.  

'Acham normal o namorado controlar telemóvel'

Apesar de referir que os agressores são de ambos os sexos, o estudo identifica as jovens mulheres como as maiores vítimas.

A forma como a juventude encara a violência está, aliás, a preocupar a Associação Democrática de Defesa dos Interesses e da Igualdade das Mulheres. “Os jovens desvalorizam a violência. E acham natural que o namorado controle o telemóvel e a maneira de se vestirem”, diz ao SOL Carla Mansilha Branco, presidente desta associação, segundo a qual 10% das 27.218 queixas de violência doméstica apresentadas em 2013 às autoridades são de menores de 16 anos. 

Mansilha Branco lembra que, segundo as estimativas, “um em cada quatro jovens portugueses” é vítima de violência no namoro. “É um problema de saúde pública”, alerta, explicando que o cyberstalking (assédio e perseguição através da internet) é um dos abusos mais praticados nas relações juvenis. Dados da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) confirmam: 75% da população universitária já foi vítima de cyberstalking. A solução, defende Rosa Saavedra, da APAV, é apostar na formação, especialmente na escola.

“As vítimas de uma fase de namoro abusiva tendem a acreditar que tudo melhora no casamento”, frisa Mansilha Branco, lembrando que, em vez disso, se assiste a uma escalada da frequência e gravidade das agressões, como prova o facto de este ano já terem morrido 35 mulheres por violência doméstica, mais duas do que em 2013.

simoneta.vicente@sol.pt