Internacional

Papa Francisco: Infância feliz mas austera

A senhora do casaco de gola de raposa não passou despercebida no cais de Buenos Aires naquela manhã de Janeiro de 1929. Apesar do calor sufocante do Verão húmido do Hemisfério Sul, Rosa Bergoglio vestia um enorme casaco, debaixo do qual escondia todo o dinheiro das poupanças e da venda dos bens que a família possuía em Itália e com as quais tencionavam recomeçar a vida do outro lado do Atlântico.

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A história dos Bergoglio na Argentina começa aqui - com a chegada da avó e do pai do futuro Papa, na altura com 21 anos, no navio Giulio Cesare, no qual haviam embarcado depois de terem perdido o lugar no Principessa Mafalda, navio famoso para o qual já tinham bilhetes e que naufragou junto ao Brasil. A história da vida e vocação do futuro Papa também começa aqui. Embora nesta altura Jorge Mario ainda não tivesse nascido, seria em Buenos Aires que o seu pai conheceria Regina, a mulher com quem se casaria. E que, sob a influência da avó Rosa, o jovem rapaz cresceria e despertaria para a fé, ingressando numa caminhada espiritual que o conduziria até chefe máximo da Igreja Católica.

Na Argentina já estavam instalados três irmãos do avô de Jorge Bergoglio, que chegaram em 1922 e construíram uma empresa de pavimentos, que depois de um período próspero, viria a falir na crise de 1932. Um deles comprou depois um armazém e Mario Bergoglio, pai do actual Papa, começou a trabalhar aí como contabilista.

O relato destes primeiros passos da família Bergoglio na Argentina é feito pelo próprio Papa à escritora italiana Francesca Ambrogetti, co-autora com Sergio Rubin dos livros El Jesuita e Papa Francisco. Ao longo de várias horas de conversa, o então cardeal Bergoglio conta ainda que não foi a situação financeira em Itália que motivou a emigração, mas sim a vontade de reunir a família. “Os meus avós tinham uma confeitaria (em Itália) mas quiseram vir para se juntarem aos irmãos”, relata, sublinhando que a naturalidade com que a família se reergueu na Argentina “demonstra a força da raça” dos Bergoglio. Maria Elena Bergoglio, a única irmã viva do Papa que pôde vê-lo assomar à varanda na Praça de São Pedro no dia da sua eleição, acrescenta numa entrevista que o pai repetia muitas vezes “que o advento do fascismo fora a razão que os levara, de facto, a sair de Itália”.

As mulheres da vida do Papa: a avó paterna e a namorada

Os pais de Bergoglio conheceram-se na missa, no oratório Salesiano de San Antonio. Ela era filha de uma piemontesa e de um argentino descendente de genoveses. Casaram no ano seguinte e tiveram cinco filhos: Jorge, Oscar, Alberto, Marta e María Elena. O primeiro foi Jorge Mario, que nasceu a 17 de Dezembro de 1936.

O nascimento do irmão Oscar, quando Jorge Bergoglio tinha apenas 13 meses, fez com que a mãe do futuro Papa tivesse de recorrer à ajuda dos sogros, que viviam perto do Bairro Flores e passaram a cuidar dele durante o dia. Rosa Bergoglio viria a exercer uma enorme influência na vida do neto, sublinha ao SOL Francesca Ambrogetti. “É na família que encontramos a origem da fé do Papa Francisco. Uma família italiana profundamente crente com uma figura que teve uma enorme influência na infância do Papa: a avó Rosa, que sempre recordará como aquela que lhe transmitiu os valores religiosos que inspiraram a sua vida e a sua vocação”.

Noutra entrevista, Bergoglio reconhecerá a marca deixada pela avó no seu coração e espírito: foi com ela que aprendeu a rezar e as histórias dos santos. Foi também a avó Rosa quem lhe deixou as palavras de maior incentivo quando, mais tarde, comunicou a intenção de abraçar o sacerdócio: “Se Deus te chama, bendito seja Ele”, terá dito a avó, recorda a escritora que melhor conhece o Papa argentino. A Rosa Bergoglio, o actual Papa foi também buscar a coragem e frontalidade. Acérrima opositora do fascismo, consta que em Itália chegou mesmo a subir ao púlpito de uma igreja para contestar Mussolini.

Entre as recordações de infância expressas ao longo das várias entrevistas, o Papa destaca as idas ao clube de San Lorenzo, onde o pai jogava basquete, as tardes passadas a escutar ópera na rádio com a mãe e os irmãos, os jogos de cartas em família, e o tempo passado na cozinha, a ajudar a mãe, que ficou paralítica na sequência do parto do quinto filho. Ao domingo, a família ia à missa e a tarde estendia-se com um almoço de vários pratos e doces cozinhados pela mãe que faziam as delícias das crianças.

Mas é à literatura que o jovem Jorge dedicará mais tempo da adolescência, com a Divina Comédia, de Dante, e Los Novios, de Alessandro Manzoni, a liderarem as suas preferências. Nos momentos de lazer, Jorge Bergoglio ouvia música, em especial clássica, mas é do tango que terá mais saudades, confidenciou um dia, referindo-se-lhe como “algo que sai dentro de mim”.

Foi nessas saídas com os amigos para dançar que Jorge Bergoglio se apaixonou. A outra mulher da vida do futuro Papa é, assim, Amalia, vizinha com quem teve um namoro aos 12 anos e a quem um dia dirigiu a frase premonitória: “Se não casas comigo, vou para padre”. Ainda hoje a residir no Bairro Flores, rodeada de filhos e netos, Amalia confessou aos media que o namoro não passou de algo inofensivo. “Éramos apenas crianças, foi um namoro muito inocente. Crescemos juntos, brincávamos sobretudo no passeio ou nos parques da vizinhança. Começámos a passar todas as tardes juntos”.

Uma vida dura de estudo e trabalho que começou aos 13 anos

Jorge Bergoglio viria a sublinhar muitas vezes a importância da comunicação que o pai lhe fez aos 13 anos, quando terminou a escola primária: “Como vais começar o secundário, convém que também comeces a trabalhar”. O anúncio apanhou o jovem Mario desprevenido, desconcertando-o, pois apesar de não serem pobres não viviam dificuldades e o salário do pai bastava para atender às despesas da família. Os Bergoglio não tinham carro, não saíam para jantar fora nem para passar férias mas ninguém passava necessidades. As roupas do pai eram reaproveitadas para os filhos e a comida que sobrava de uma refeição voltava para a mesa noutro prato.

“Agradeço muito ao meu pai ter-me mandado trabalhar. O trabalho foi uma das coisas que me fez melhor na vida; e, particularmente, no laboratório aprendi o bom e o mau de qualquer tarefa humana”, confessou à jornalista Francesca Ambrogetti o então cardeal de Buenos Aires, salientando que a dignidade de cada homem “só vem pelo trabalho”. A sua primeira função foi numa fábrica de meias, onde nos primeiros anos se ocupou das limpezas e mais tarde de tarefas administrativas. No quarto ano da sua vida profissional, Jorge Mario começou a estudar química alimentar num instituto industrial, acumulando estudos com trabalho, agora num laboratório.

Jorge Mario estudou Química numa escola industrial e trabalhava ao mesmo tempo

A rotina do futuro Papa era exigente e cansativa: das sete às 13 horas estava no laboratório e depois de uma rápida pausa para almoço ia para as aulas até às oito. Desse tempo, recorda os ensinamentos de Esther Ballestrino, a chefe do laboratório, com quem aprendeu “a seriedade do trabalho”. Com esta paraguaia simpatizante do comunismo, manteria o contacto por muitos anos, até ao dia em que a amiga sofreu o sequestro da filha e do genro. Neste período da ditadura militar, Esther Ballestrino seria também raptada, juntamente com duas freiras francesas, e assassinada.

Além deste trabalho na fábrica de meias e no laboratório de química alimentar, teve também um fugaz emprego como porteiro de discoteca. Foi já numa visita a uma paróquia fora de Roma que confidenciou que a sua experiência profissional também tinha passado pela noite de Buenos Aires e que esse trabalho lhe facilitou, mais tarde, a missão de chamar pessoas para a Igreja.

A confissão que mudou a vida do jovem Jorge Mario aos 17 anos

Aos 21 anos, Jorge Mario esteve às portas da morte. Uma pneumonia grave deixou-lhe a vida em suspenso durante três dias e obrigou-o a uma operação para retirar um pulmão. Nesse período que classifica como “terrível”, contou com o apoio da família e a assistência especial de uma freira que já conhecia da preparação para a primeira comunhão. Em vez de palavras de conforto e incentivos às melhoras, que suscitavam até alguma irritação no jovem doente, em profunda dor, a Irmã Dolores deixou-lhe uma matriz cristã para suportar o sofrimento. “Disse-me uma coisa que me ficou gravada e me deixou muita paz: 'Estás a imitar Jesus'“, recorda o cardeal de Buenos Aires nas conversas com Francesca Ambrogetti. “A dor não é uma virtude”, explicaria mais tarde, mas “pode ser virtuoso o modo como é vivida”.

Apesar da marca espiritual que esta experiência lhe deixou, Jorge Mario Bergoglio não atribui a esse episódio a responsabilidade de decidir entrar no seminário. Na origem da vocação religiosa que se foi construindo desde os 17 anos há outro episódio. Aconteceu no dia 21 de Setembro, o Dia do Estudante, em que os alunos saíam para festejar. Antes de se juntar aos colegas para os festejos, Bergoglio passou pela paróquia para se confessar. São as palavras do próprio Papa que dão conta que nessa confissão ocorreu “qualquer coisa estranha” que lhe “mudou a vida”.

Várias décadas mais tarde, refere-se a este momento como “a estupefacção do encontro”: “Apercebi-me de que estavam à minha espera. É isso a experiência religiosa: a estupefacção de nos encontrarmos com alguém que está à nossa espera. A partir deste momento, para mim, Deus é Aquele que chega primeiro”.

Jorge Mario só comunicou a decisão à família quatro anos mais tarde. Na sua caminhada de discernimento espiritual, vivida em solidão, havia outro facto a pesar, confidencia a sua irmã. Uma namorada, do qual nunca se veio a saber o nome, e a quem Jorge Mario tencionava declarar-se nesse mesmo Dia do Estudante. Mas Deus parece ter-lhe trocado as voltas e, ao sair da igreja de São José das Flores, o jovem estava mais inclinado a seguir a vida religiosa.

Família Bergoglio (a contar da esquerda, em pé): irmão Alberto Horacio, Jorge Mario Bergoglio (Papa, o mais velho), irmão Oscar Adrián, irmã Marta Regina. Sentados: a irmã María Elena e os pais, Regina e Mario José Francisco

Companhia de Jesus: a opção por uma força avançada da Igreja

O pai foi o primeiro a saber que o futuro de Jorge Mario passava pelo seminário. Congratulou-se com a decisão, não sem antes se certificar de que era mesmo essa a vontade do filho. Da mãe não chegaram palavras de incentivo, apesar de já suspeitar desta inclinação religiosa, principalmente depois de ter descoberto no sótão de casa tantos livros de teologia. Católica praticante, sempre achou a escolha precipitada e nunca foi ao seminário visitar o filho. O maior apoio veio da avó Rosa, a sua mentora espiritual de infância, que não deixou de sublinhar que as portas de casa continuavam abertas se desistisse de seminário e decidisse regressar à família.

A verdade é que, quando terminou os estudos de química, Bergoglio ainda verbalizou a intenção de seguir medicina. Mas quando a mãe o confrontou com o espólio religioso do sótão, corrigiu a vocação: “Eu disse-te que queria estudar medicina, é verdade, mas medicina das almas”.

Francesca Ambrogetti atribui a escolha da Companhia de Jesus por ser uma “força avançada dentro da Igreja e de estar orientada para a tarefa missionária”. Ao SOL, a escritora acrescenta que o ambiente social e cultural de Buenos Aires, “uma mega cidade onde convivem o bem e o mal em todas as suas forças, deram ao Papa uma visão ampla e uma compreensão profunda sobre o mundo de hoje”.

Entrou no noviciado da Companhia de Jesus a 11 de Março de 1958. Depois estudou no Chile e licenciou-se em Filosofia na Faculdade do Colégio Máximo de São José, já de regresso a Buenos Aires. Foi ordenado sacerdote no dia 13 de Dezembro de 1969 - tinham passado onze anos desde que tomara esta opção.

rita.carvalho@sol.pt