Cultura

A Primavera da Matriarca

“Era uma vez uma história /de um castelo misterioso./ Não se diz como ela acaba.../É feio ser curioso!”. Assim começa o livro Conversas com Versos, de Maria Albertas Menéres, editado em 1968, e ilustrado pelo pintor Manuel Batista. Hoje, com a obra perto de completar meio século, é a vez de a filha Eugénia Melo e Castro cantar os poemas que ouviu pela primeira vez aos dez anos, e de a neta Mariana se encarregar das ilustrações. São três gerações que se unem - já para não falar da bisneta da matriarca, Mia (com quatros anos)... - para homenagear a autora à beira de comemorar 85 anos.

Maria Alberta Menéres começou a escrever poesia ainda adolescente e, embora se tenha notabilizado no universo infanto-juvenil, assinou uma extensa obra para adultos. Mas desengane-se quem imagina a autora como uma contadora de histórias inata. “Ela começou a escrever porque não tinha o menor jeito para contar histórias! Se começava a tentar contar a história da Carochinha, desinteressava-se e ficava - literalmente - com o nariz esborrachado à janela a ver a neve cair e a imaginar outras coisas...”, explica Eugénia Melo e Castro, que se recorda perfeitamente do momento em que Conversas Com Versos ganhou vida. Tinha 10 anos e, juntamente com a irmã, servia de 'cobaia' da mãe. “Ela testava o livro connosco e nós encenávamos os poemas”.

Uma vez que os livros ficavam prontos, a autora pura e simplesmente desaparecia. “Dizia: 'Venho já'. E aparecia oito dias depois! Tinha estado no Minho, em Faro, na serra não sei onde... Ia sempre sozinha de carro, com os livrinhos atrás para contar o Ulisses - e outros -, coisa que agora é quase prática comum de todos os autores. E as editoras começaram a perceber que, de facto, nessas idas às escolas havia uma grande promoção dos livros. Até nisso a minha mãe foi pioneira!”.

Alberta Menéres não era uma mãe comum. Em casa, contam a filha e a neta, não entrava - nem entra - na cozinha. Não sabe estrelar um ovo, não troca a pilha do comando da televisão, nem tão-pouco sabe passar a ferro. “Eram coisas que não lhe interessavam. Alimentava-se a torradas e a galões”, diz Géninha. Era uma máquina de trabalho e, nessa altura, estava mais ocupada em construir 'a biblioteca' Alberta Menéres do que em afazeres domésticos. Além disso, preocupava-se também em organizar tertúlias em casa, por onde passaram os grandes vultos da cultura portuguesa dos anos 60, 70 e 80 do século passado. “Nós tínhamos um ambiente em casa diferente, com liberdade de pensamento, de convívio com pessoas interessantíssimas, inteligentíssimas e geniais. A nossa casa era um pólo cultural”, descreve a cantora. Este ambiente marcou-a de tal maneira que quis que a filha Mariana tivesse uma experiência semelhante. “A Mariana de pequenina dormia no camarim do Milton Nascimento (de quem é afilhada), do Chico Buarque, do Caetano Veloso. A nossa casa foi, talvez, um dos pólos mais importantes de cultura da minha geração. O Júlio Pereira viveu dois anos lá, o Jorge Lima Barreto viveu lá três anos, o grupo de teatro que nós formámos, o Ânima, todos dormiam lá. A casa tinha nove quartos! Nunca a minha mãe lá entrou a criticar-me - a sua grande preocupação era se havia comida para toda a gente. E ia ao supermercado, enchia o carro de comida e despejava a comida lá em casa”.

Não é por isso de estranhar que este Conversas Com Versos, editado em 2014, conte com a participação de Ney Matogrosso - que possui exemplares autografados de todos os livros da autora - e direcção musical de Eduardo Queiroz. “Quando ele esteve pela primeira vez em Portugal, há uns dez anos, conheceu a minha mãe e ficou completamente doido pela obra dela. Depois disse-me: 'Temos que fazer uma coisa musical com isto'“.

Hoje o projecto está finalmente concluído: um livro, um disco, mas também as partituras musicadas, de forma pedagógica. “As partituras foram ideia da minha mãe. Um dia estava a conversar com a Mariana em relação às ilustrações e disse: 'Ó Mariana, porque é que não pões aí umas notinhas?'. Umas notinhas… quero lá saber de umas notinhas! Vou é pôr as partituras! E lá ligámos ao Camilo Carrara, que é o autor de 80% das músicas, que imediatamente começou a trabalhar para as tornar mais didácticas”. Assim, qualquer um que toque um instrumento pode interpretar os poemas imaginados há 47 anos pela autora, Grande Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças e Jovens (1986), Comendadora da Ordem de Mérito (2010) e autora de obras que geração após geração continuam a figurar nos currículos escolares como Leitura Obrigatória.

Mas o livro agora reeditado pelas descendentes é só o primeiro passo de uma viagem que vai passar por actualizar todas as obras da autora. “Estava tudo num marasmo, encostado ao Ulisses. E nós queremos que o próprio Ulisses seja revitalizado a nível de imagem, porque os miúdos ainda o estudam! Precisa de um videobook, de um site interactivo, de videoclips. Sendo ela uma autora estudada, com imensos livros e com metas curriculares nos Planos de Leitura, nós queremos revitalizar um nome que está vivo, vivíssimo na memória de toda a gente”. E acrescenta: “A minha mãe tem uma certa idade e por isso queremos homenageá-la agora. Enquanto ela se pode divertir com a brincadeira. E, de facto, isto tem sido uma alegria na vida dela”.

Para este ano, está previsto o Conversas Com Versos 2 e a reedição da obra de Maria Alberta Menéres para adultos num CD com 20 poemas que a própria gravou para a Philips nos anos 60 e 70. “E isto não é uma compilação, são as obras completas. Não existem duas 'Marias Albertas Menéres' por isso as suas obras têm que ser perpetuadas e as linguagens actualizadas. Os miúdos hoje em dia não querem só um livro com uns bonequinhos, querem ilustrações giras, apelativas e inteligentes, videoclips e videobooks com interacção”. E querem também concertos ao vivo: ao longo do ano, Mariana, Géninha e Ney Matogrosso vão actuar por esse país fora.

patricia.cintra@sol.pt