Opiniao

2015 - A primeira crise

O fim do ano de 2014 - o ano do centenário da Grande Guerra, a mãe de todas as guerras e de toda a História do século XX - devia aconselhar alguma prudência aos responsáveis ocidentais.


Dezenas de títulos saídos sobre as origens do conflito reflectiram uma perplexidade que permanece: como é que de uma competição industrial e diplomática entre potências 'civilizadas' se passou aos estúpidos massacres cruzados da Flandres? Como é que um magnicídio numa zona periférica pôde determinar uma hecatombe nos centros de poder mundial? E porque é que homens de Estado e burocratas prudentes, com largos anos de política e de realpolitik, se deixaram agarrar pelos sentimentos chauvinistas e revanchistas dos demagogos?

As crises deste princípio de 2015 têm que ver com questões políticas, umas político-económicas, outras político-religiosas.

Falemos hoje das primeiras.

O preço do barril de crude, como referencial e índice principal do valor de mercado dos outros produtos energéticos, é um padrão central da geopolítica mundial. Já porque a energia é uma commodity que todos os Estados têm de avaliar e usar - como exportadores ou importadores -, já porque o seu valor condiciona o valor de muitos outros bens e serviços essenciais à vida moderna.

Apesar de numerosos livros e artigos de previsão energética, ora eufóricos ora pessimistas, uns recomendando confiança na mão invisível do mercado livre, outros pedindo vigilância e contenção estatal, não se acharam, até hoje, receitas certas em termos futurológicos. E quando a energia se mistura com a política e a geopolítica, então mais difíceis se tornam os cálculos.

A realidade mais complexa neste momento prende-se com a situação da Rússia de Putin, simultaneamente vítima da baixa dos preços do petróleo, valor principal das suas exportações, e das sanções económicas ocidentais, impostas por razões políticas.

Para que a Rússia pudesse equilibrar contas, o preço deveria andar pelos 100 dólares/barril, muito acima dos actuais 55 (29 de Dezembro). Se algumas das companhias ocidentais do sector, sob a pressão das sanções, se retirarem das joint-ventures, o prejuízo financeiro na quebra de investimento mais o gap tecnológico contribuirão a curto prazo para uma baixa da produção, sobretudo nas regiões árcticas da Sibéria e no deep offshore. O Banco Central Russo está a bater-se para defender a moeda, à custa da taxa de juro e dos dólares das suas altas reservas, mas é sempre um combate desigual.

Washington e NATO continuam a hostilizar Moscovo, Obama aprovou novas sanções. Putin conserva um grande apoio dos russos, mas sente-se mais encurralado e com menos opções económicas e diplomáticas.

Em Agosto de 1941, os americanos embargaram as vendas de petróleo ao Japão, que lhes comprava cerca de 75% do combustível; depois congelaram-lhe os activos financeiros - Pearl Harbour veio quatro meses depois.