Politica

Esquerda elogia pragmatismo do Syriza

A provável vitória do Syriza de Alexis Tsipras nas legislativas da Grécia (dia 25) vai ser acompanhada ao segundo pelos partidos e movimentos  à esquerda do PS. Tanto que o BE, que no fim-de-semana das eleições iria estar reunido na Madeira para as suas jornadas parlamentares, decidiu ficar pelo Porto enquanto Catarina Martins voa até Atenas para seguir de perto o resultado que a esquerda europeia, a Sul, espera aplaudir. 

"A vitória do Syriza é a vitória da esperança na reestruturação das dívidas soberanas", admite a porta-voz dos bloquistas, que recusa admitir que Tsipras tenha moderado o seu discurso - e as suas propostas - à medida que as sondagens arrepiavam caminho para a vitória de um partido que também resulta da união de partidos de extrema-esquerda. "Quando é que o Syriza propôs a saída do euro? O euro não prevê saídas. Ele quando diz 'Nem mais um sacrifício pelo euro' está a dizer é que não aceita a chantagem e a ameaça alemã", clarifica. 
Mas George Stathakis, economista e conselheiro de Tsipras, explicou numa digressão europeia que o Syriza "de hoje já não é o de 2012" - que era acusado de ser radical e de incitar à violência nas ruas contra a troika. Acrescentou, ao Libération, que as posições anti-europa deram lugar à certeza de que a Grécia quer continuar integrada na zona euro.

O partido de Tsipras, que entretanto viu sair radicais anti-euro, reagiu assim às posições assumidas pela Comissão Europeia ("a permanência na zona euro é irrevogável", disse uma porta-voz) e da Alemanha ("Merkel preparada para deixar a Grécia sair do euro", avançou o jornal Der Spiegel). Em comunicado, o Syriza já garantiu que quer contribuir para a estabilidade da zona euro e não o contrário, anulando também as acusações de Antonis Samaras, primeiro-ministro demissionário, que disse que uma vitória do Syriza traduzir-se-á na bancarrota e na saída do euro, contrária à vontade de 74% dos eleitores gregos.

O 'fantasma' de Hollande

Carlos Antunes, co-fundador com Joana Amaral Dias do 'Juntos Podemos', lembra que, "com a aproximação de eleições, há sempre ajustes na linguagem". Daniel Oliveira, do Fórum Manifesto, descodifica: "O Syriza percebeu que era preciso dar segurança ao discurso radical. Mas sempre foi muito cauteloso em relação ao euro e muito claro sobre a reestruturação da dívida. Não vejo um recuo, mas sim pragmatismo".

O Syriza lidera actualmente as intenções de voto, com 30,5%, mas está longe de conseguir maioria. Se vencer, vai precisar de alianças com partidos do centro-esquerda, para onde entrou uma nova sigla criada pelo ex-PM George Papandreou, disposta a evitar a vitória da Nova Democracia de Samaras, que cresce nas sondagens. Na mesa das negociações para uma solução de governo, estarão propostas como o não pagamento de metade dos 320 milhões da dívida pública grega, o aumento do salário mínimo ou a redução da carga fiscal. 
António Filipe, do PCP, admite o impacto na zona euro de uma vitória do Syriza, mas lembra que é preciso esperar para perceber "se mesmo com uma solução governativa" o Syriza "consegue rasgar com a austeridade". Rui Tavares, do Livre, recusa pensar que Tsipras possa ser para a esquerda europeia o que François Hollande foi para o PS. Até porque, nota, "virar o jogo será um esforço grande e demorado".

Catarina Martins (BE)
“A vitória do Syriza pode ser o princípio do fim da austeridade. Tsipras não defende austeridade de outra forma, mas sim o fim. Após as eleições, o confronto europeu vai ser duro.”

António Filipe  (PCP)
“Uma mudança na Grécia terá sempre impacto na zona euro. Mas não estamos condicionados pelo resultado. Em Portugal tem havido uma reflexão sobre a necessidade de reestruturar a dívida.”

Rui Tavares (Livre)
A eleição na Grécia pode legitimar a nível parlamentar as vozes contra a austeridade. Mas não se vira o jogo num só golpe. É passo a passo, sem que nos intimidemos com ameaças e chantagens. 

Daniel Oliveira (Fórum Manifesto)
“O Syriza percebeu que tinha de vencer o discurso do medo e da derrota, seguido pelo próprio PS. Além disso, não ficou numa posição de quem quer ser oposição durante 20 anos.” 

Carlos Antunes (Juntos Podemos)
“Não há risco de o Syriza desiludir. Tsipras tem mostrado posições muito fortes que abrem
precedentes e que podem deixar Angela Merkel numa situação muito difícil.”

ricardo.rego@sol.pt