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A proposta da ciência: do Paleolítico à nutrigenética

Há uma geração que cresceu a ouvir falar da fome na Etiópia e na Somália. O flagelo, que afecta muitas outras latitudes, foi combatido com novas estirpes de cereais, transgénicos e produtos industrializados, transformando de forma brusca e transversal os hábitos tradicionais. Nos últimos anos entraram na cadeia alimentar milhares de substâncias novas - estima-se que tenham sido introduzidas cerca de 20 mil -, cujos efeitos a longo prazo são ainda desconhecidos. Mas a curto prazo já é possível tirar algumas conclusões.

O Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável mostra que em Portugal já há, segundo dados de 2013, 1 milhão de obesos e 3,5 milhões de pré-obesos. Mas o estudo vai mais longe: associa categoricamente a obesidade a outras doenças crónicas, como hipertensão, cancro, diabetes ou apneia do sono. A tendência mundial é semelhante: de acordo com a Organização Mundial de Saúde, 25% da população dos países mais ocidentalizados é obesa e 50% tem excesso de peso. Perante este cenário catastrófico, muitos médicos admitem que estamos, pela primeira vez na História, “a assistir a uma geração que vai viver menos do que os seus pais”. Esta opinião é partilhada tanto por Manuel Boavida, do Programa Nacional para a Diabetes, como por Eulália Semedo, pneumologista do Hospital de Santiago, em Setúbal, e do Hospital da Luz-Centro Clínico da Amadora. “Há uma tendência maior para a obesidade, pois as pessoas consomem um conjunto de alimentos tóxicos, e cuja toxicidade só se vai ver ao fim de 20/30 anos”, afirma Manuel Boavida.

O médico alerta ainda para o facto de os alimentos que antigamente constituíam a base das nossas refeições familiares, os horto-frutícolas, não só terem visto o seu consumo reduzido para níveis mínimos, como terem sido aqueles que mais encareceram. Por outro lado, salienta Boavida, “a fast food, os refrigerantes e os alimentos industrializados conseguiram baixar ainda mais os seus preços”.

Paralelamente a esta revolução alimentar, diminuímos a nossa actividade física, muitas vezes limitada a horas sentados em que apenas mexemos dedos e mãos. “É neste contexto que estamos. Mas se encontrarmos uma harmonia entre proteínas, vegetais, redução das gorduras saturadas, redução de hidratos de carbono de absorção rápida [cereais] e diminuição de açúcares, provavelmente vamos encontrar novamente o equilíbrio”,  afirma o médico. E Eulália Semedo acrescenta: “Temos de fazer exercício físico! A saúde de uma grande parte da população baseia-se nos seus hábitos de vida e a maioria das pessoas que fica doente nesta parte  do mundo fica por causa de cinco factores: come mal, bebe muito (mesmo quando diz que é só ao fim-de-semana), fuma, não faz exercício e dorme pouco e sem horários. Se corrigirmos isto vamos ver o desemprego dos médicos”, considera a pneumologista, actualmente à frente do departamento de Medicina do Sono do Hospital de Santiago.

O primeiro desafio para termos uma vida mais saudável, dizem os especialistas, começa logo no processo de compra dos alimentos. Nos supermercados, a zona dedicada a massas, farinhas ou bolachas ocupa normalmente uma área superior à dedicada aos produtos frescos. “E mesmo para chegar a esses corredores, obrigam as pessoas a passar pelo do açúcar e o das massas. Depois, quando já estamos a pagar e resistimos a milhares de coisas, temos aquelas doçarias todas, que é só pegar e pôr na caixa. Temos que controlar as grandes superfícies”, sugere Boavida.

Há uns anos, lembra o médico, houve uma proposta de classificação dos alimentos por índices nutricionais com três cores - verde, vermelho e amarelo - que acabou por ser vetada. “Todas as distribuidoras e produtoras de alimentos se recusaram e os grandes lobbies conseguiram que essa proposta, na qual Portugal estava empenhado, fosse chumbada na Comunidade Europeia”, diz, lamentado que continuemos “a assistir a isto, impávidos e serenos, em nome de uma suposta liberdade comercial”.

Para resistir à sedução alimentar de que somos constantemente alvo, a dietista Joana Oliveira aconselha a fugir dos alimentos industrializados, com listas intermináveis de ingredientes nos rótulos. “Nós não sabemos muitas vezes que ingredientes são. O que se sabe hoje é que não são tóxicos. Mas não sabemos qual o impacto que vão ter a longo prazo porque são organismos estranhos, não são nutrientes”. 

Uma dica também partilhada por Pedro Bastos, investigador na Faculdade de Medicina da Universidade de Lund, na Suécia, que defende o regresso aos alimentos que culturalmente consumimos ao longo de milénios. “Quando pensamos, por exemplo, na dieta Paleolítica, estamos, na verdade, a reflectir sobre o nosso estilo de vida durante a maior parte do tempo que vivemos na Terra. E por estilo de vida entenda-se padrões de sono, actividade física, nível de stress, tipo de dieta e exposição a poluentes. Quando olhamos para populações que ainda têm um estilo de vida - não podemos dizer que vivem como no Paleolítico mas que estão quase lá ou na transição - têm melhores marcadores de saúde do que nós, países ocidentalizados. O que ocorre hoje é que conseguimos manter pessoas doentes vivas por mais tempo”.

Segundo esta corrente, desde o Paleolítico até ao início da Revolução Agrícola, o homem ingeriu praticamente a mesma dieta e manteve um estilo de vida de caçador-recolector. Isto significa, por exemplo, que os cereais só começaram a fazer parte dos hábitos de consumo já muito tarde. Os lacticínios estavam excluídos, com excepção do leite materno. E o próprio açúcar era ingerido na forma de mel ou de fruta e não na forma de açúcar refinado, como hoje o consumimos. “Não é uma dieta que tenha a ver com comer quilos de carne ou coisas cruas mas está relacionada com reduzir a ingestão de alimentos industrializados como, por exemplo, óleos vegetais - de girassol, milho ou soja - que só foram introduzidos na cadeia alimentar há 100 anos! Hoje já se sabe que não só não reduzem o risco de doenças cardiovasculares, como até aumentam a possibilidade de um segundo acidente cardiovascular em pessoas que já o tiveram”. Em suma: o que estes novos produtos estão a fazer é, segundo o investigador, “a aumentar de forma astronómica as doenças degenerativas crónicas”.

Eulália Semedo acredita que estamos a ficar doentes com o que comemos. Por isso decidiu abrir um restaurante de comida saudável em frente a uma escola secundária, em Almada. “Em 2005 trabalhei com o INEM e fiquei chocada com a quantidade de gente nova que reanimei com enfartes, doenças que quando comecei a trabalhar eram consideradas de velhos. Comecei a pensar nisto e achei que era uma boa ideia mostrar aos jovens, pais e educadores que é possível comer saudável todos os dias e de forma barata”.

Para grande pena sua, uns tempos depois teve de fechar o restaurante, cujo funcionamento era incompatível com as suas obrigações enquanto médica. Mas também foi influenciada pela falta de entusiasmo à sua volta. “Achei que podia fazer acções com a escola e motivar os alunos para novos hábitos. Toda a gente achou boa ideia, mas depois ninguém se mostrava disponível para os colocar em prática. A mim incomoda-me imenso olhar para esta geração e ver tanta gente muito nova com excesso de peso, mas provavelmente não vou poder fazer nada de especial”.

É de pequenino...

Segundo dados do Instituto Ricardo Jorge, a obesidade infantil é um dos mais sérios desafio de saúde pública do século XXI, estimando-se que, em todo o mundo, cerca de 200 milhões de crianças em idade escolar apresentem excesso de peso, das quais 40 a 50 milhões são obesas. Portugal é um dos cinco países da União Europeia com maior prevalência de obesidade infantil. O estudo mostra ainda que 60% das crianças obesas vão tornar-se adultos obesos. Por isso, os médicos concordam que esta discussão sobre a alimentação devia ocorrer numa fase inicial da vida das crianças. 

“A primeira mensagem é, sem dúvida, para os pais, no sentido de não terem medo de introduzirem os vegetais. E aqui há umas modas na alimentação infantil que são uma coisa pavorosa. Por exemplo, amamentar até aos dois ou três anos e não introduzir outro tipos de alimentos. É preciso desafiar os sabores das crianças”, alerta Manuel Boavida. Por isso, aconselha os pais a habituarem os filhos aos vegetais nas sopas - que não devem ser totalmente passadas - e a manterem esse hábito nas refeições familiares. Quanto às escolas, o médico recorda o caso de Cabo Verde, que na passada semana proibiu que as instituições de ensino pudessem vender qualquer tipo de refrigerantes ou de alimentos que não tivessem valor nutricional acrescentado. “No entanto, as escolas portuguesas continuam a vender esse tipo de produtos nos bares”, indigna-se. E realça que uma das principais razões que levam uma criança ao bar da escola é, na verdade, a sede: “Ora, se tiverem água como tinham nos recreios, escusam de ir ao bar e serem seduzidos por outro tipo de alimentos extremamente apelativos”.

Em termos práticos, o médico aconselha as famílias a encontrarem o seu próprio equilíbrio, através de uma alimentação globalmente equilibrada “e depois irem ajustando-a consoante os seus objectivos (de emagrecimento, de manutenção de peso), as suas necessidades (a fase do crescimento em que estão), e o tipo de exercício físico que fazem. Esta inteligência na utilização dos alimentos evidentemente que é muito difícil”. 

Por estas - e por todas - as dificuldades que uma alimentação saudável acarreta, médicos e nutricionistas defendem que o caminho passa por fazer planos nutricionais “baseados em evidência científica mas também tendo em conta a individualidade e a genética de cada um”. Por isso, aqui e ali começam a surgir sinais que mais do que planos alimentares transversais, vamos começar a ouvir falar em nutrigenética ou nutrição funcional. “A nutrição personalizada vai ser a nutrição do século XXI. Passa por personalizar a dieta, tendo em conta várias ferramentas como a nutrigenética ou análises clínicas que são um indicador da pessoa que o nutricionista ou que o dietista tem à frente. E, com base nesses indicadores, poderá então prescrever aquilo que seria mais adequado para aquele indivíduo”, defende Pedro Bastos. No entanto, realça, “também não podemos cair no erro de dizer 'se existe uma grande variabilidade genética então não podemos fazer nada'. Não é assim.

Aquilo que se sabe é que o que as pessoas estão a fazer agora - desistir do exercício, padrões de sono alterados e a comer 'lixo' - afecta toda a gente. Acredito que este estilo de vida e a dieta que estamos a fazer são a grande causa da maioria das doenças”, remata o investigador.

alexandra.ho@sol.pt

patricia.cintra@sol.pt