Internacional

EI decapita pacifismo japonês

A Constituição pacifista do Japão, redigida pelos norte-americanos após a derrota nipónica na II Guerra Mundial e que proíbe a manutenção de um exército regular e a intervenção militar no estrangeiro, deverá ser alterada este ano. A execução de dois japoneses por extremistas do autodenominado Estado Islâmico (EI) foi a gota de água que levou o primeiro-ministro Shinzo Abe a informar que o seu Partido Liberal Democrático já apresentou um projecto de alteração ao documento no sentido de permitir “o dever de proteger as vidas e os bens de cidadãos japoneses”.

A alteração da Constituição é uma vontade antiga de Abe, que em Janeiro voltou a aumentar o orçamento para a Defesa - agora na ordem dos 36 mil milhões de euros. É a terceira vez consecutiva que se verifica um acréscimo para as verbas do sector.

Se mais meios para as actuais Forças de Autodefesa japonesas revelam a necessidade de marcar uma posição regional - pelas disputas territoriais com a China no que diz respeito, por exemplo, às ilhas Senkaku/Diaoyu, e à ameaça permanente do programa nuclear da Coreia do Norte -, a mudança na Constituição permitiria que o país estivesse envolvido em acções de defesa dos aliados em território estrangeiro. E essa alteração será mais facilmente concretizada com a maioria parlamentar do que com um referendo.

O documento actual impede, por exemplo, que o Japão integre as fileiras da coligação liderada pelos EUA na luta contra o EI, que há seis meses lança bombas sobre a Síria e o Iraque.

O que Tóquio faz, enquanto aliado dos EUA, importador de petróleo e parte interessada em manter a estabilidade na região, é contribuir com ajuda não-militar aos países que combatem o EI.

O valor desse contributo, na ordem dos 200 milhões de dólares, foi o mesmo que os terroristas exigiram a 20 de Janeiro pela libertação dos cidadãos japoneses Haruna Yukawa, raptado na Síria no Verão, e Kenji Goto, jornalista sequestrado em Outubro. O EI impunha um prazo de 72 horas para o pagamento.

Tóquio não cedeu, mas manteve conversações com dois países-chave na região: Turquia e Jordânia. De pouco serviu. A imagem de Yukawa degolado seria divulgada a 24 de Janeiro, Goto teria o mesmo destino em vídeo difundido pelo EI uma semana depois. O Japão, em choque, percebeu que fazia oficialmente parte da lista do EI de alvos a abater.

Shinzo Abe garantiu que o país “não vai ceder ao terrorismo”. Referindo-se aos terroristas, o PM assegurou ainda que o Japão vai “continuar a trabalhar ao lado da comunidade internacional para fazê-los pagar pelos pecados”.

Amã promete vingança

Dias depois, o PM japonês condenaria novo assassínio: o do jordano Moaz al-Kasasbeh, capturado na Síria a 24 de Dezembro durante uma missão da coligação. O vídeo do piloto queimado vivo numa jaula surgiu na terça-feira. A execução, diferente daquelas que o EI divulga, foi a primeira de um árabe muçulmano.

Amã estava em negociações com o EI desde final de Janeiro. As autoridades jordanas tinham-se mostrado dispostas a trocar al-Kasasbeh pela jihadista iraquiana Sajida al-Rishawi , condenada à morte na Jordânia pela participação em ataques bombistas que mataram mais de 60 pessoas em Amã em 2005. Mas queriam provas de que o piloto estava vivo.

A publicação do vídeo de 22 minutos interrompeu a viagem do Rei Abdullah II aos EUA. Pouco depois foi avançada a informação, pelos jordanos, de que Moaz al-Kasasbeh teria morrido a 3 de Janeiro - muito antes das negociações entre Amã e o EI terem começado. O porta-voz do exército avisou: “A vingança será tão grande quanto a perda dos jordanos”. Sajida al-Rishawi e o compatriota Ziyad Karboli da al-Qaeda foram enforcados nas primeiras horas de quarta-feira. Pelo menos mais três terroristas já condenados e presos na Jordânia podem vir a ser executados.

Enquanto já é pública a retirada da coligação dos Emirados Árabes Unidos, Amã cerra fileiras e promete destruir o EI - que por sua vez oferece 20 mil dólares pela morte de cada piloto jordano. Mas os repetidos assassínios de reféns civis suscitam uma questão: como é que, com o poderio bélico e tecnológico de que dispõe, a coligação liderada pelos EUA ainda não conseguiu ter sucesso numa operação de resgate em território do EI?

ana.c.camara@sol.pt