Cultura

Capicua: “Em ‘Medusa’ quis falar da culpabilização da vítima”

Faz hoje um ano que saiu “Sereia Louca” e quis assinalar a data com um novo álbum, intitulado “Medusa”. O último ano foi particularmente especial?

DR  

Foi muito especial. Desde que a “Sereia Louca” saiu, parece que as coisas se aceleraram. Consegui chegar a muitas cidades do país onde nunca tinha tocado, dei muitos concertos, fui a muitos festivais… Senti que as pessoas criaram uma ligação afectiva com muitas das canções da “Sereia Louca” e que entenderam o disco. E pessoas muito diferentes. As crianças, por exemplo, adoram o ‘Vayorken’, as pessoas mais velhas ‘A Mulher do Cacilheiro’. Senti que tinha, por um lado, que retribuir este carinho todo e, por outro, assinalar um ano cheio de trabalho.

Neste “Medusa” convocou artistas do mundo da electrónica para fazerem remisturas das suas canções. Porquê?

Senti sempre que “Sereia Louca” é um disco muito melancólico e queria dar-lhe mais electricidade, um ‘burst’ de energia. Pensei que remisturas era uma boa ideia, até porque como sou um pouco ‘control freak’, gosto de meter o bedelho em todas as decisões, esta coisa de dar as pistas de voz para alguém para fazer o que quiser foi libertador.

Descobriu-se de outras formas nesta reinvenção das canções?

Sim, descobri. E apercebi-me que as coisas podem resultar de diferentes formas. Foi um disco feito por muita gente, feito muito à distância, com muitas trocas de emails, e ir montando estas peças todas permitiu surpreender-me com o meu próprio trabalho.

Octa Push, Sam the Kid, DJ Ride, Ninja Kore, Puto Anderson são algumas das colaborações. Como escolheu os artistas que aparecem aqui?

Com alguns já tinha trabalhado, como o DJ Ride, o D-One, o Stereossauro. Outros são pessoas que vou acompanhado e admiro o trabalho, como os Octa Push, o Marfox… Acho que os nomes aqui reunidos espelham um pouco a diversidade da música electrónica que se faz em Portugal e também quis ter outros territórios musicais para me experimentar a mim própria nessas linguagens.

O tema que dá título ao disco é original e, tal como a Sereia, a Medusa também é uma figura mitológica. Que fascino é este?

São histórias que me interessam explorar porque permitem abordar várias questões. A medusa, uma divindade aquática que foi violada e como castigo da sua própria violação, porque supostamente foi ela a culpada, Minerva transforma-a em monstro. Passou a ser a mulher mais feia do mundo e todos os homens que olham para ela transformam-se em pedra. Acho esta história muito forte porque simboliza a culpabilização da vítima e nós fazemos isso diariamente em muitas situações, desde a violência doméstica até outras questões como o ‘cyberbullying, a pressão que as mulheres sofrem para cumprirem um ‘standard’ de beleza, caso contrário mais vale esconderem-se em casa, a censura à liberdade sexual das mulheres… São tantos os casos em que a vítima da opressão está a ser culpabilizada que achei a medusa um bom mote para falar sobre estas diversas formas de violência.

“Sereia Louca” já era um disco sobre mulheres...

Sim e esta música, apesar de ter sido escrita já depois do “Sereia Louca”, vem reforçar esse universo. A par disso, esteticamente é uma música que tem a ver com aquilo que quero fazer a partir de agora: uma música com mais espaços, mais silêncios, em que o rap é um bocadinho spoken word. E foi uma forma de voltar à escrita, depois de um 2014 em que praticamente não escrevi.

As letras têm imenso peso no hip hop. Sente que é pela escrita que as pessoas se ligam à sua música?

Não sei dizer porque as pessoas se afeiçoam aos temas, ninguém consegue sentir o seu próprio cheiro, mas uma explicação pode ser a questão da emoção. O meu rap fala de emoções e as pessoas identificam-se com isso. Outro aspecto é o facto de procurar genuinidade em tudo o que faço. Tento ser mesmo fiel a mim própria e acho que as pessoas reconhecem e identificam-se com isso. Mas há muitos rappers que trabalham bem isto. O Valete, que participa no tema, também tem essa capacidade de falar das emoções e de nos aproximar à palavra dele.

Depois de um 2014 especial, em que foi uma das artistas nacionais que mais tocou ao vivo, como vai ser este 2015?

Vamos começar a tour da ‘Medusa’ em Abril – dia 11 na Casa da Música, no Porto, e dia 16 no Lux, em Lisboa. Vamos mudar o repertório, vamos ter um novo set up, vamos ter um novo músico, que vai tocar MPC e teclados, e vamos ter um ilustrador novo. Espero continuar a tocar muito com esta tour, ir a novos sítios, e tenho muita vontade de voltar a escrever. 

alexandra.ho@sol.pt