Internacional

Extrema-direita foi à Rússia declarar apoio a Putin

Desde que Viktor Ianukovich foi derrubado pela revolução ucraniana, Vladimir Putin tem sustentado a actuação russa no conflito com a necessidade de combater a “junta fascista” que diz ter tomado conta do país vizinho. Dentro de poucas semanas, o líder russo será o orgulhoso anfitrião da parada que assinalará em Moscovo o 70.º aniversário da vitória dos Aliados contra o regime nazi de Hitler.


Mas, num momento de maior isolamento internacional, é de fascistas e apoiantes de Hitler que chegam os únicos apoios ocidentais ao regime russo. A cidade de São Petersburgo foi ontem palco de uma conferência de partidos de extrema-direita, na sua maioria europeus, onde se ouviram demonstrações de afecto pela política externa do antigo líder da FSB (agência sucessora do KGB).

“Não apoiamos as sanções económicas à Rússia relacionadas com o conflito ucraniano”, declarou no local o eurodeputado alemão Udo Voigt, eleito nas fileiras do neonazi Partido Nacional Democrático. “É incrível a paciência da Rússia e do Presidente Putin face às políticas agressivas da NATO”, acrescentou o homem que em tempos falou de Hitler como “um verdadeiro estadista”. Segundo o Wall Street Journal, Voigt “foi muito aplaudido com os apelos à oposição da hegemonia norte-americana e com denúncias à homossexualidade”.

Também presente esteve o ex-líder do Partido Nacional Britânico, Nick Griffin, que defendeu o encontro como “prova de que a Rússia é mais livre do que o Ocidente”. O britânico lembra que “se alguém tentasse organizar uma conferência destas nos Estados Unidos ou no Reino Unido não seria autorizado”.

Embora as declarações de Griffin mostrem consciência que ali se defendiam ideologias proibidas na Europa, outras participantes do Fórum Conservador Internacional da Rússia tentaram separar os extremismos: “Não considero uma difamação que me chamem de fascista”, disse no seu discurso o italiano Roberto Fiore, líder da Força Nova. “Mas considero difamatório ser apelidado de nazi”, acrescentou.

O encontro, que contou também com líderes separatistas ucranianos e políticos da extrema-direita russa que apelaram à anexação do Leste da Ucrânia, teve a participação do norte-americano Jared Taylor, que está na Rússia a promover o seu livro – Identidade Branca – o último de uma série onde o jornalista explora as tuas teses racistas.

Outro notável participante foi o grego Georgios Epitidios, membro do partido neonazi Aurora Dourada, que nas últimas eleições se tornou o terceiro mais representado no Parlamento de Atenas. O Partido da Liberdade da Áustria (FPO), o Partido dos Suecos do SVP, os búlgaros do Ataka e o Democracia Nacional (de Espanha) foram outros doa partidos da extrema-direita europeia presentes em São Petersburgo.

Ausência notada foi a da Frente Nacional de Marine Le Pen, que ontem somou importantes vitórias na primeira volta das eleições departamentais de França. A data ajuda a explicar a ausência, que também terá como explicação a tímida moderação do discurso de uma líder que vê cada vez mais possível a chegada ao poder no seu país. Ainda assim, a Frente Nacional tem uma próxima relação com a Rússia, como prova o empréstimo de 40 milhões de euros que o partido recebeu em 2014 de um banco com ligações ao Kremlin.

Os participantes tinham previsto a divulgação de uma declaração conjunta no final do encontro, mas uma ameaça de bomba provocou um fim antecipado já que obrigou à saída do hotel onde estava a decorrer a reunião. Os organizadores do evento, do partido Rodina, culparam os manifestantes que se concentraram junto ao hotel pela ameaça de bomba.

nuno.e.lima@sol.pt

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