Opiniao

Os esquecidos de camarate

Teresa acreditava que, mais cedo ou mais tarde, a inteligência do irmão iria marcar o país. A providência tinha outros planos

escrevo antes de tempo – as eleições definiram já o futuro, mas no preciso instante destas palavras, ao contrário de si, nada sei sobre vencedores e vencidos. é um pouco a mesma sensação de medeiros ferreira quando, exilado político na suíça, esperou que maria emília lhe telefonasse a contar como fora a reacção ao discurso que escrevera para o congresso de aveiro. no momento em que a sua mulher subiu ao palanque e anunciou a revolucionária política dos três d – desenvolver, democratizar, descolonizar –, josé possivelmente terá estado mais inquieto do que o costume. pelo menos tão inquieto como eu quando percebi, ao contar-lhe esta história esquecida, que afinal medeiros ferreira não esteve presente em aveiro. em 1973, tal seria impossível: estava proibido pelo regime de regressar a portugal. por isso, foi maria emília e não ele próprio quem falou à oposição que restava dentro de portas.

adiante. pensei que, nestas circunstâncias, talvez o melhor fosse recordar algum episódio ou personagem que em mim seja um exemplo de mistério. quando não chego a nenhuma resposta sento-me num sofá virado para uma parede branca e aguardo no silêncio – regra geral acabam por surgir as ideias ou memórias e o mesmo aconteceu agora: teresa patrício gouveia não me sai da cabeça há uns trinta minutos. não que dela seja amigo ou sequer conhecido – contam-se por metade dos dedos de uma mão as ocasiões em que nos cruzámos. mas em todas abandonei as conversas como se estas não tivessem acontecido, uma sensação estranha que não senti com mais ninguém – nem sequer percebo se é uma coisa boa ou má.

talvez a conversa mais longa tenha acontecido, há já vários anos, na assembleia da república. teresa já fora secretária de estado da cultura e ministra do ambiente e dos negócios estrangeiros. na altura creio que era deputada de um psd que, com uma intermitência ou outra, se preparava para uma longa travessia do deserto. procurei saber-lhe coisas, admito que com poucos resultados – ainda assim os suficientes para partilhar um pouco do que sei.

não nos foi possível avançar no que eu desejava. compreendi isso e aumentei a consideração por teresa. apenas falámos o estritamente necessário de antónio patrício gouveia, irmão que estava no avião de sá carneiro e amaro da costa na tragédia de camarate. muito antes de a conhecer senti vontade de perceber as cores do destino dos esquecidos daquele avião. todos os olhares postos nos dois líderes, mais tarde snu abecassis a surgir no primeiro palco mediático, mas dos outros, assessores e pilotos, poucas ou nenhumas palavras ficaram. ditas ou por dizer.

pois bem, antónio morreu em camarate e teresa amava-o não só por ser o seu irmão mais velho. era um dos colaboradores mais directos do presidente do psd e foi bastante activo no nascimento da sedes. teresa acreditava que pudesse cumprir-se e marcar o país, acreditava que a inteligência do irmão tornar-se-ia uma evidência mais tarde ou mais cedo. a providência tinha outros planos.

afonso e maria madalena, pais de antónio e teresa, viveram então o inominável. só que o tempo continuou. continua sempre. ela não mo disse, mas aposto que a sua inscrição no psd foi feita pelo que nela fermentou após camarate. fê-lo com toda a convicção apenas uns meses depois – tornar-se militante do psd talvez fosse o mínimo que podia fazer. ela e o irmão mais novo foram então à sede do partido fundado por sá carneiro e pinto balsemão, e deixaram lá um pouco de si.

disse-me mais ou menos com estas palavras: «o fim do outro muda muita coisa em nós. a nossa forma de olhar a vida é logo a primeira a ser abalada. o sentimento em relação ao desaparecimento de pessoas próximas é uma mistura entre morrermos um pouco e apenas já não vermos quem morreu».

afonso patrício gouveia, seu pai, era um homem de fino humor. no dia 25 de abril do ano da queda do estado novo abriu a sua garrafeira especial não fosse dar-se o caso de algumas garrafas se partirem com o ímpeto revolucionário. não que a família de teresa estivesse comprometida com o regime, digamos que também era bastante descomprometida com as oposições.

o sentido de humor de afonso não foi suficiente para digerir a notícia de que a sua filha tencionava casar-se com alexandre o’neill. vinte e dois anos mais velho do que teresa, poeta, surrealista, publicitário, libertário e libertino. não eram palavras que colassem com a filha, pródiga como todas as filhas, mas ela fascinou-se com as palavras e a poesia – sem dúvida uma das mais extraordinárias obras do século xx português. o que lhe queria dizer sobre isto? pouca coisa. que quem os apresentou foi alçada baptista, que teresa conhecera através de josé galvão teles, amigo da família. estava em veneza com uma amiga e surgiram--lhe galvão teles e alçada baptista. não há grande coisa a fazer contra o acaso ou destino, uma pessoa é um passaporte para outra e nessas passagens podemos ficar suspensos ou continuar para o próximo acaso. desse casamento breve com o’neill nasceu um filho que teresa fez questão que se chamasse afonso. como o avô. as pazes ficaram saldadas.

«amamos com mais intensidade os que não enganam na fuga às suas imperfeições», deixou escapar a propósito. sim, concordei. não há pessoas perfeitas e se as há devem ser particularmente entediantes. o que mais recordo? algo sem importância… o médico que a assistiu no nascimento foi, vinte anos depois, seu professor de arqueologia na faculdade de letras. de médico para arqueólogo o que, cá para nós, vai dar ao mesmo: um e o outro trazem à luz o que escondido estava.

é isto que recordo. teresa patrício gouveia mantém-se como administradora na fundação calouste gulbenkian, apesar de não esconder que gosta de telenovelas – pelo menos naquele tempo não perdia algumas. lembra-se, teresa? quando conversámos estava entusiasmada com os últimos episódios do rei do gado, gravava-os e via quando chegava a casa. imperdoável não preferir o roque santeiro.