Cultura

Mundo de aventuras da 'pulp fiction' portuguesa

Sabia que milhares de revistas como a Ás de Espadas, a Falcão Lusitano ou a Tenebras repousam na Torre do Tombo há 50 anos? Todas elas publicaram histórias fantásticas, de que são exemplo O Inconsciente, A Expedição dos Mortos ou O Sentinela e o Caveira de Sangue, dos mais variados autores da chamada pulp fiction portuguesa.

se sabia que o mais importante arquivo nacional esconde estas pérolas, quais tesouros por descobrir de naufrágios literários causados pela censura salazarista, é o único.

na realidade, aquelas revistas não existiram e as histórias só agora foram escritas e publicadas. isto porque luís filipe silva – um dos nomes principais da ficção científica portuguesa – e luís corte real, editor e designer da saída de emergência, tiveram a ideia de reunir contos e inventar os anos de ouro da pulp fiction portuguesa – os melhores contos do século xx.

tudo começou com a ideia de mais uma antologia organizada pela editora. para trás ficaram a badalada as sombras sobre lisboa (contos inspirados em h. p. lovecraft) ou almanaque do dr. thackery t. lambshead de doenças excêntricas e extraordinárias (sobre doenças inventadas).

desta vez, porém, a ideia de criar uma pulp portuguesa cresceu a partir dos contos recebidos na saída de emergência a propósito de um concurso organizado há quatro anos. escolhidos os contos, corte real e silva pensaram que o material que tinham em mãos dava para mais: «propus ao luís filipe silva algo arriscado mas que ele abraçou de imediato», recorda corte real, «inventar a história de uma pulp portuguesa que nunca existiu».

o autor de ficção científica ficou então com o encargo habitual de organizar uma obra, acrescido de duas originalidades: dar-lhe um prefácio em que conta como foi esse 'passado glorioso' de um género que existiu muito insipidamente em portugal e inventar as biografias dos autores como se eles tivessem vivido em meados do século xx.

de ficção em ficção, a mistura deu origem a uma brincadeira que chegou a ser levada a sério por muitos leitores, extasiados por pérolas literárias retiradas do pó dos arquivos. alguns factos aconteceram realmente. «houve por exemplo uma lei que retirava o subsídio ao papel de imprensa e há revistas que se mencionam no livro que realmente existiram», explica luís filipe silva. a partir daí foi uma questão de ir «encaixando invenções na realidade», o que silva designa por «jogo literário».

o fascínio pelo livro resume-se em poucas palavras e de forma directa, como era a ficção deste género: aí conhecemos as histórias de valerian beowulf, que vive aventuras em terras encantadas ao estilo de conan, o bárbaro, ou de uma base nazi instalada em pleno alentejo na ii guerra mundial, observada ao longe por um certo jaguar cabala, herói insólito. ou ainda o terror de alguém que se percebe como um homúnculo, que viveu nas catacumbas de um mosteiro alimentado pelos monges a carne fria e crua, e que depois se revolta, em o inconsciente.

os escritores, firmados ou iniciantes, alguns com nome próprio – como outro autor de ficção científica, joão barreiros – outros com pseudónimos (o próprio corte real confessa ter escrito dois contos, não revela quais), foram enviando as suas histórias, umas mais de época, outras mais actuais, mas foram desafiados a situá-las no contexto da ii guerra ou do período pós-conflito. «alguns chegavam a perguntar se se usava determinada expressão naquela época». os próprios autores, continua silva, entraram no jogo de aceitarem ‘envelhecer’ as suas histórias e darem corpo a biografias que não eram as suas. «são, digamos, autores-actores».

junta-se à imaginação sem freio dos contos e deste jogo o grafismo do livro, que imita a qualidade do papel que deu nome ao género. ser pulp significava ter uma história popular e de aventuras no conteúdo e um papel barato, de fraca gramagem, na forma.

o trabalho de luís corte real também foi meticuloso. «foram a paginação e o design mais complicados que alguma vez tivemos na editora». ou seja, «um verdadeiro prejuízo se compararmos as horas de trabalho com as expectativas de vendas».

a dupla não esqueceu a homenagem à pulp portuguesa que existiu na realidade, e dedica o livro a autores como reinaldo ferreira (o célebre repórter x), ross pynn, dinis machado, entre muitos outros esquecidos deste género que se faz de vários géneros. sem esquecer, ainda, revistas que existiram efectivamente, como a mundo de aventuras ou a mosquito. a antologia é, em poucas palavras, escreve silva, dedicada «à ficção popular, a mais efémera das literaturas». e a uma história «da história que devia ter sido» da pulp portuguesa.

ricardo.nabais@sol.pt