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Confraria Sabores da abóbora

Constituída há certa de quatro anos, a Confraria Sabores da Abóbora define-se no feminino, reunindo um extraordinário conjunto de mulheres trabalhadoras e convictas na missão que juraram desempenhar: valorizar a abóbora na dieta local e nacional. Na verdade, foi a tradição das papas de abóbora, oferecidas por ocasião dos festejos em honra de São Sebastião, que levou a que se reunisse em torno deste legume um conjunto de confrades. No fim-de-semana imediatamente a seguir ao dia de São Sebastião, dia 20 de Janeiro, há a tradição de se receber, usualmente, em Soza as papas (levando cada um dos devotos uma taça e uma colher para o efeito) no encerramento da novena dedicada ao Santo Mártir. Em pleno Inverno e após nove dias de oração, é altura de 'forrar o estômago' e aquecer o corpo com as papas de abóbora servidas quentes. 


De tal modo esta prática se tornou um ritual que, diz quem sabe, a receita se aprimorou surpreendendo os visitantes que saboreiam as papas. A verdade é que, nos últimos anos, a abóbora foi sendo alvo de uma desvalorização progressiva, sendo quase só utilizada por altura do Natal e na alimentação dos animais. Por isso, quem vai a Soza é surpreendido pelas papas e deixa-se convencer pela excelência desta tradição tão popular e tão usual nas mesas das famílias locais. 

Conscientes da depreciação a que a abóbora era sujeita, por um lado, e por outro, convictas de que poderia ser potenciado o consumo deste legume nas receitas tradicionais, como as papas e em novas utilizações como a manteiga ou bombons, as confrades da Confraria Sabores da Abóbora procuraram estabelecer as parcerias necessárias para a valorização deste legume tão versátil na forma e no sabor. 

Além de um incansável trabalho de representação, levando os sabores da abóbora a todo o Portugal na visita a outras confrarias, pensaram, em primeiro lugar, numa forma de valorizar a sua produção. Por isso, nos primeiros tempos, estas confrades decidiram ser as responsáveis pelo cultivo e produção de exemplares de vários tipos de abóbora, em dois terrenos que lhes foram cedidos para o efeito. São as abóboras que resultam dessa produção que, mais tarde, são utilizadas no receituário desenvolvido também pelas confrades. Recentemente, e por via de um protocolo com a CALCOB (Cooperativa Agrícola de Oliveira do Bairro e Vagos), os agricultores locais conseguem agora maior informação e apoio na produção e escoamento daquele legume. Já se vê que o trabalho desta confraria já dá frutos suculentos na dinamização das práticas agrícolas e no desenvolvimento local. Sendo uma zona de tradição agrícola, a prática do cultivo da abóbora está a ser utilizada como actividade principal ou complementar, com óbvios proveitos para a população local. É uma forma de, segundo a Chanceler-Mor Fátima Rito, promover a utilização dos imensos terrenos agrícolas e dar forma a uma natural vocação agrícola dos residentes da freguesia de Soza. Particularmente sensível a esta questão, é com orgulho que fala desta parceria, pois percebe que será uma mais-valia para a população e para a freguesia. 

Em Soza, a abóbora tem muitas utilizações além das papas e da compota. A abóbora guisada, a cristalizada, em licor, em tarte, em pudim, em bolo, juntam-se à lista mais convencional. No entanto, as suas receitas mais surpreendentes são a manteiga de abóbora e os deliciosos bombons de abóbora, que esgotam sempre que são dados a provar aos convivas. 

Incansáveis no seu trabalho e na vontade de dinamizar o produto, as confrades da Confraria Sabores da Abóbora destacam-se por terem conseguido recuperar a abóbora para a mesa, valorizando as suas utilizações e resgatando este legume ao esquecimento. Excelente alimento pelo registo nutricional que sugere, a abóbora viu a sua dignificação acontecer com o trabalho desta Confraria. Anteriormente uma terra entre as demais, Soza é hoje conhecida por todos, é uma referência no movimento das Confrarias e, queremos acreditar, que no mapa de Portugal sobressaia o tom laranja da abóbora-menina que tanta motivação dá às confrades desta Confraria. Basta ver o monumento à abóbora, um registo simples mas que mostra que a alimentação importa na identidade dos povos, na identidade de Portugal. 

*Presidente das Confrarias Gastronómicas Portuguesas

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