Politica

Mariana Mortágua: Uma estrela da rede

Há quem a queira ter como primeira-ministra, os que acreditam que irá salvar o Bloco de Esquerda (BE) de uma série de derrotas eleitorais - que parecia infindável até às últimas eleições na Madeira - e quem a preferisse ver noutro partido. Mariana Mortágua, 28 anos, economista, saltou para a Assembleia da República (AR) em 2013, para substituir Ana Drago. Dois anos depois, não há quem não fale da mais jovem deputada do Parlamento: nos cafés, à mesa dos restaurantes, nos jornais mas sobretudo nas redes sociais, onde soma seguidores e vê ampliado o seu mediatismo fora da AR. Num artigo dedicado à deputada, a Bloomberg sintetizou: Mortágua é uma “estrela portuguesa”, escreveu a agência de notícias financeiras sediada em Nova Iorque.

E não é difícil perceber porquê. As intervenções na comissão parlamentar de inquérito ao colapso do BES e do GES quase fizeram parar o país de orgulho da deputada que pôs em causa a competência de Zeinal Bava, o ex-homem-forte da PT, ou que recebeu um rasgado elogio de Ricardo Salgado, o antigo 'Dono Disto Tudo' que liderou o BES. As audiências do Canal Parlamento subiram 45% nos primeiros dois meses de comissão e a deputada do BE não é alheia ao interesse repentino dos portugueses no canal transmitido a partir de São Bento. 

“A Mariana tem características que são decisivas para se tornar uma política competente e popular: assertividade e preparação técnica”, nota Pedro Adão e Silva. O professor universitário e politólogo não evita, aliás, recordar os primeiros anos de Francisco Louçã na frente de combate da esquerda: “Quando Francisco Louçã apareceu como deputado [em 1999] também teve esta popularidade”. Com uma diferença: Louçã não teve o palco das redes sociais, onde hoje está presente. 

Louçã e a 'escola do soundbite' 

Mariana Mortágua e o co-fundador e ex-coordenador do Bloco partilham mais do que a militância no partido. Os dois são críticos acérrimos da austeridade imposta aos países do Sul da Europa, a mesma que consideram contrária ao crescimento de economias como a de Portugal ou da Grécia. Em 2012, os dois economistas, separados por duas gerações, assinaram um livro (A Dívidadura, Bertrand Editora), onde alertavam para os perigos da submissão das democracias, neste caso a portuguesa, às dívidas soberanas e os seus efeitos (negativos) nas decisões estritamente políticas. 

Um ano depois, em jeito de banda desenhada, 'contaram' a história da dívida portuguesa em Isto é um Assalto (Bertrand Editora). Tudo isto mais uma licenciatura em Economia e um doutoramento em fase de construção na School of Oriental and African Studies, em Londres, precisamente sobre a crise das dívidas, dão-lhe traquejo quanto baste para ser acolhida e respeitada nos meios académico e político. 

Nos últimos meses, foram poucos os editores e directores de jornais que resistiram a escrever umas linhas nos seus espaços de opinião sobre a nova estrela do BE ou a assinar curtas notícias (nas edições online) sobre Mariana. Todos eles elogiaram a competência da deputada e a preparação com que agarrou o inquérito ao colapso do maior banco privado português. Nenhum se atreveu a interromper o unanimismo que girava (e gira) em torno da bloquista, evitando criticar a defesa da reestruturação da dívida, posição que tantas vezes serve para apontar o dedo a outros protagonistas da mesma área política... 

Adão e Silva sublinha que para compreender o fenómeno Mariana Mortágua é preciso que se “reconheça que há uma margem de assertividade que não era possível noutro partido, como no PS ou no PSD, e isso faz a diferença”. Rodrigo Moita de Deus, consultor de comunicação e militante do PSD, completa: “Se olharmos para um político profissional, o discurso é oco e artificial. A Mariana insere-se na tradição da escola do BE, através do uso do soundbite que se reflecte na naturalidade com que ela responde e reage”. Quem não se lembra do “O Dono Disto Tudo passou a Vítima Disto  Tudo” com que se dirigiu a Salgado em pleno Parlamento ou a desarmante reacção à falta de memória de Bava: “É um bocadinho amadorismo para quem ganhou tantos prémios”. O vídeo tornou-se viral nas redes sociais. “Desculpem mas é preciso tê-los no sítio!!!”, escreveu o humorista Nilton ao partilhar o vídeo no Facebook. 

'Nova, gira e desempoeirada'

Para Moita de Deus, a deputada do BE tem três características essenciais para que um jovem deputado seja popular. Além da preparação técnica, Mariana Mortágua “é nova, gira e desempoeirada”, aponta o especialista em comunicação política. “Se compararmos com a Maria de Belém ou até com a líder do seu partido, Catarina Martins, ela é desempoeirada”, acrescenta. Pode parecer pouco mas faz (quase) toda a diferença na relação que os deputados estabelecem com os seus eleitores, efectivos ou potenciais, nas redes sociais, onde Mortágua comunica diariamente com quem a segue, seja partilhando notícias sobre o BE ou para comentar os assuntos que vão marcando as agendas mediática e política. 

À boleia da comissão de inquérito viu disparar o número de seguidores no Facebook (atingiu o máximo de 'amigos' permitido em cada perfil, cinco mil); tem uma página de fãs e uma outra 'Mariana Mortágua para Primeira-Ministra'. Durante semanas alimentou o blogue 'Disto Tudo', do qual é autora, onde descodificou a terminologia do mundo financeiro, assinando artigos que muitas vezes rivalizavam com os textos assinados pelos especialistas, tal era o nível de descodificação e de explicação da matéria. Deu ainda a cara num vídeo que contava a história da queda de um império: o BES de Ricardo Salgado. A anatomia do desmoronamento do banco valeu-lhe uns quantos seguidores e horas sem dormir. “Costumava ficar acordada até às 3 ou 4 horas da manhã para juntar as peças do puzzle”, disse à TVI. 

Além do trabalho parlamentar, juntou-lhe um artigo por semana no Expresso Online e mais recentemente uma colaboração também semanal com o Jornal de Notícias, um caso sério de sucesso na internet como prova o último artigo no qual crítica o elogio de Passos Coelho a Dias Loureiro, ex-administrador do BPN. “Grande jovem/mulher! É um orgulho ouvi-la a defender os interesses do povo mas de uma forma tão assertiva e tão inteligente”, escreveu uma seguidora no perfil da deputada. “Mariana! Faça como eu, emigre!! Portugal não tem remédio”, escreveu outra no perfil da deputada. 

António Costa Pinto, à Bloomberg, explicou o sucesso de Mariana Mortágua. “Ela consegue expressar a frustração que as pessoas sentem em relação a uma pequena elite, que costumava liderar o sistema financeiro do país durante décadas”, disse, destacando o seu estilo de colocar questões “curtas e duras, num país onde as pessoas são normalmente subtis”. 

All Star e pena Mont Blanc

Longe dos holofotes que se acenderam sem aviso, Mortágua mantém a subtileza de quem nasceu e cresceu no Alvito, no Alentejo, até vir estudar para Lisboa, no ISCTE. Nas entrevistas que deu recentemente, a propósito da comissão de inquérito, fez questão de passar a imagem de uma rapariga normal, apesar de ser hoje uma das figuras mais mediáticas da política portuguesa: gosta de jogar futebol (mas falta tempo), de estar com as amigas a beber uma cerveja ao final de tarde e tudo aquilo que é próprio de alguém que tem 28 anos. 

A consciência política - não partidária - adquiriu-a em casa e talvez isso explique a adesão ao BE só em 2009, onde a irmã gémea, Joana, dirigente e assessora parlamentar do partido, já militava desde 2004. O apelido Mortágua havia de lhe abrir portas para o trato particularmente atencioso com que os deputados das outras bancadas, sobretudo os mais velhos, se lhe dirigiam mal acabara de por os pés no Parlamento. Afinal, Mariana Mortágua é filha de Camilo Mortágua, antifascista que participou no assalto ao Santa Maria, no desvio de um avião da TAP, no assalto ao Banco de Portugal da Figueira da Foz e que liderou a ocupação da herdade da Torre Bela. 

O respeito e a admiração dos deputados, da direita às esquerda, chegaram com as intervenções nas comissões e no hemiciclo, onde um raro silêncio invadia as salas a cada vez que era dada a palavra à jovem deputada. Mas nada disso alterou hábitos e aparências: Mortágua manteve-se fiel aos longos cabelos pretos, à roupa de tons escuros, às calças de ganga, às sapatilhas All Star (que se tornaram na sua imagem de marca) e à caneta de pena Mont Blanc. 

Dentro do BE, o fenómeno Mortágua tem servido para unir o partido, que saiu dividido da última Convenção, em Novembro do ano passado. Também o grupo de militantes que discordou da renúncia forçada de nove candidatos a deputados para que Mariana Mortágua pudesse ir para o Parlamento está calado. Depois do boom mediático, Mortágua ainda não foi a votos. Será nas legislativas deste ano. Rodrigo Moita de Deus não arrisca quantificar ou qualificar o peso eleitoral da deputada eleita pelo círculo de Lisboa, mas sublinha que “os partidos valem pelo seu símbolo e pelo seu eleitorado tradicional”. E deixa a reflexão: “Tenho dúvidas de que o próprio BE queira que a Mariana vá mais longe, se não começa a fazer sombra à direcção do próprio partido”. O futuro de Mariana é uma incógnita. A 25 de Abril do ano passado, na sessão solene dos 40 anos da Revolução dos Cravos, afirmava que “um futuro feito de inevitabilidades é uma fraude”. Nem todos, convenhamos.

ricardo.rego@sol.pt