Opiniao

O agora que passa a nunca

Entro na discoteca onde todos querem estar por volta das quatro da manhã. Acabei de realizar um evento importante e junto-me a dois amigos para poder relaxar um pouco, conversar sobre o que correu bem ou mal - sim, porque ter 14 anos disto não nos faz ficar indiferentes ou menos exigentes connosco próprios. À porta, a fila de sempre. Felizmente convidam-nos a evitar por sermos conhecidos da casa. Pelo caminho, duas caras conhecidas chamam por nós, encontram-se precisamente olhos nos olhos com o porteiro e o facto de conhecerem o meu amigo dá-lhes passaporte para a tão desejada porta da direita.

Lá dentro a azáfama de sempre. Boa música, o que para a maior parte das pessoas é irrelevante porque estar ali é mais importante que tudo. Muitas caras conhecidas vão-nos cumprimentando, à medida que atravessamos a pista em direcção ao bar do costume. Uns gostam de nós, outros fingem gostar, para pouco depois fazerem um comentário menos abonatório para com o colega do lado. Não sei se é inveja ou o triste fado de estarmos sempre a criticar qualquer coisa, mas eu já conheço os gestos e os olhares. Afinal de contas, tantos anos no meio deram-me a possibilidade de conhecer as pessoas como poucos.

Apercebo-me que andam por ali vários convidados do evento que acabei de realizar. Alguns nem conheço, mas são amigos de amigos ou, tão só, pessoas que achei por bem convidar. Sou abordado para me darem os parabéns pela produção ou para criticarem isto ou aquilo, mas também para me informarem que são fiéis leitores desta crónica. E agradeço a todos com simpatia. Decidimos descer ao piso de baixo para ver o ambiente, mas rapidamente voltamos a subir e encostamo-nos um pouco à varanda enquanto fumamos um cigarro.

Um habitué das minhas festas aproxima-se com a mesma conversa, já bebeu bem para lá da conta, facilmente se percebe, e o intuito é valorizar-se junto da miúda que traz consigo. O problema é que o seu discurso não convence ninguém e rapidamente o feitiço vira-se contra o feiticeiro: a miúda interessa-se pelas respostas que o amigo que me acompanha vai dando. O outro sente-se em perigo e agarra nela, afastando-se com a desculpa de que têm que terminar uma conversa importante.

Lá em baixo, por coincidência, voltamos a cruzar-nos com ela, mas já está sozinha. Percebemos que se vai posicionando mesmo à nossa frente, resistindo às investidas de outros, enquanto olha pelo canto do olho. Está claramente a marcar o meu amigo. Isto desenrola-se durante uma hora e a atitude dela é cada vez mais evidente. Mas ninguém toma a iniciativa e tudo fica por ali. Por vezes, existem momentos desses na nossa vida, em que duas pessoas estavam a fim uma da outra, mas o momento passa e o agora transforma-se em nunca.