Sociedade

No Banco Alimentar desde o início

Cerca de 42 mil voluntários em todo o país trabalham este fim-de-semana em mais uma campanha de recolha de alimentos para o Banco Alimentar (BA). O SOL passou o primeiro dia (ontem sábado) com alguns voluntários que se empenham no projecto desde o início, há 24 anos. No final do dia, a organização da zona de Lisboa estimava que tinha contado com 6000 voluntários no supermercado e 2000 no armazém, tendo sido recolhidas 217 toneladas de alimentos na capital e 930 no resto do país.

Sara Matos
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As bases daquele que viria a ser o primeiro Banco Alimentar Contra a Fome (BA) do país, em Lisboa, foram lançadas em Janeiro de 1991. A sede era uma pequena sala no Centro António Padre Vieira CUPAV e ninguém imaginava então a dimensão que o projecto alcançaria.

Na altura, Portugal era um país diferente do que é hoje, de tal forma que Cavaco Silva, então primeiro-ministro, falava de um ‘oásis’, de um país sem problemas. Mas havia fome. O número de instituições e pessoas ajudadas pelo BA não parou entretanto de aumentar. A primeira campanha de recolha do BA aconteceu em Junho de 1992 em cinco supermercados na área de Lisboa – hoje, são mais de 2000 áreas comerciais em todo o país.

Armazéns em Alcântara: uma confusão organizada

Nos passeios ao lado do armazém do BA na Avenida de Ceuta, em Lisboa, os carros apertam-se ao sol para que caibam mais. Quem passa os portões, depara-se com uma confusão organizada: lá dentro, famílias, engenheiros, jornalistas, estudantes, escuteiros, andam apressadamente, mas com as tarefas bem divididas. Até ao primeiro turno de Sábado, que terminava às 15h, foram recolhidas aqui neste armazém 64 toneladas de alimentos.

Está muito calor. Ali se mistura gente de todas as idades e muitos dos voluntários são também beneficiários do BA. Helena André, que há 24 anos faz parte do BA, vai falando por cima do barulho, o que não é fácil: além das pessoas e carrinhas a chegar e a partir, caixas e alimentos a circular num tapete à espera de ser divididos, a emissão de rádio dinamizada pela Universidade Autónoma passa músicas ritmadas que põem os voluntários a dançar e cantar enquanto trabalham. Helena recorda: “Houve uma vez uma senhora que enfiou, sem querer, a carteira dentro de um saco. Vasculhámos tudo até que por fim encontrámos”.

Há 24 anos, Helena André tinha 26 anos de idade. Desde então que é uma peça importante no Banco Alimentar. Trabalhou com o entusiasmo de quem começa algo novo e é, desde há 11 anos, responsável pelos transportes, onde coopera com uma equipa de cinco pessoas que gerem toda a logística associada às toneladas de alimentos recolhidas durante a campanha. Coordena ‘190 carros e 360 motoristas’. No início, “era completamente diferente: no primeiro ano, eram cinco lojas e hoje são 2.000”. Toda a gente a conhece. Passa uma jovem que lhe pede indicações, outro voluntário chama-a e ela conta: “Aquele rapaz vem todos os anos, temos sempre conversas muito engraçadas”.
Formada em História, a área da acção social falou mais alto para Helena. “A vida é curiosa. O BA acabou por desenhar, de certa forma, o meu caminho”.

‘Cheguei transportar alimentos em carrinhas de mudanças’

Filipa Albuquerque, actualmente desempregada, é cara já conhecida no Continente do Cascais Shopping. “Um dia, o meu tio ligou-me e disse: ‘Tens que arranjar uma equipa para este projecto’. E eu arranjei, saltei imediatamente para dentro do barco”. Esta chefe de equipa com 56 anos conta que o primeiro ano foi o mais duro: “O ano de 1992 foi o que deu mais trabalho e em que conseguimos neste supermercado menos alimentos, só chegámos às duas toneladas”. Se actualmente o BA é uma marca reconhecida, na altura discutia-se até a necessidade da sua existência. Com o avançar dos anos, “fazer com que as pessoas ajudassem tornou-se mais simples, por vezes nem é preciso explicar para o que é”.

Em tantos anos, já aconteceu de tudo a esta voluntária. “Até cheguei a fazer o transporte dos alimentos doados em carrinhas de mudanças com a minha cunhada”. Mas o episódio que Filipa recorda com mais intensidade, e um dos que lhe dão ainda mais certezas da necessidade deste trabalho, foi quando estendeu um saco a uma senhora e esta disse-lhe, emocionada, “que tinha todo o gosto em ajudar quem já a tinha ajudado quando precisou”. Mas nem todos os comentários são simpáticos. Quando ouve um não ou uma apreciação mais desagradável, desvaloriza: “No início ficava chateada, depois fui aprendendo. As pessoas estão no direito de não querer ajudar, e é isso que tento transmitir aos meus voluntários: aceitar com um sorriso na cara.”

Para esta chefe de equipa, arranjar voluntários nem sempre é fácil, mas neste sábado contava com a ajuda das Guias de Portugal que, do alto da sua tenra idade, vestiram a camisola.

‘Ensinar aos jovens a importância de se darem ao outro’

Para Nuno Martins, bancário e escuteiro de 44 anos e chefe de equipa noutra superfície comercial em São Domingos de Rana, a tarefa de arranjar voluntários está mais facilitada. Como escuteiro, participa todos os anos com as suas equipas, tarefa que faz parte do calendário anual do Corpo Nacional de Escutas (CNE).

Nuno fez a sua primeira campanha no Verão de 1994, num centro comercial na Portela, em Lisboa, levado então pelo irmão gémeo, que é hoje padre Jesuíta no Porto e participa no BA desde a primeira hora.

Uma das particularidades que Nuno recorda dos primeiros tempos era “a ideia de que em Portugal não havia fome, por isso só se faziam campanhas para a comida ir para fora”.

Recordações, boas e más, não faltam. “Uma das mais negativas foi o de uma recolha que fizemos num grande espaço de retalho aberto apenas a comerciantes, ou seja, pessoas que por norma compravam muita quantidade - mas que, na maioria das vezes, não davam nem sequer uma unidade”. Por oposição, enaltece as pessoas anónimas que vão, todos os anos, encher um carrinho propositadamente para entregar. “Obviamente fazem porque podem, mas não tinham obrigação nenhuma de o fazer”.

Nuno Martins tenta transmitir aos seus escuteiros a ideia de que “não nos cabe julgar a quantidade que as pessoas dão ou deixam de dar: o mais importante é o objectivo final, o de lutar contra a fome”.  E refere uma mais-valia do BA, construída ao longo destes anos: “O voluntariado no BA tem servido para sensibilizar a nossa juventude sobre a importância de dar ao próximo – cada vez há mais voluntários mais novos, no caso dos escuteiros começam com sete anos, e isso é fantástico para os jovens perceberem desde cedo que não são o centro do mundo e que há problemas reais muito maiores do que os deles próprios”.

‘O BA trouxe os princípios da gestão para a solidariedade’

Miguel Ribeiro Ferreira, empresário de 44 anos, sentiu de forma mais próxima essa vontade de ajudar ainda muito jovem. “Tinha 19 anos e era estudante quando fiz o primeiro BA, que tinha acabado de começar”. O seu primeiro trabalho consistia em “fazer entregas de alimentos em instituições, durante o ano inteiro”. Além de participar também nas campanhas de recolha nos supermercados, continua a participar regularmente no armazém, organizando a recepção e o stock de alimentos.

Na sua opinião, a grande força do BA e o que o diferenciou das outras instituições de solidariedade social foi o facto de ‘desmistificar a solidariedade em Portugal’. “O voluntariado andava muito à volta da ideia de ajudar o coitadinho, e o BA foi a primeira organização que vi que combateu esta premissa e que mudou, efectivamente, o paradigma”.

Miguel Ribeiro Ferreira diz ter aprendido muito com Mardel Correia, engenheiro e um dos fundadores do BA. “Foi ele quem trouxe os procedimentos de controlo e gestão ao mais alto nível para o trabalho de ajudar o próximo”. O empresário trouxe essas aprendizagens para a sua vida profissional. Conhecido actualmente por ser um dos investidores do programa Shark Thank, transmitido na SIC, Miguel Ribeiro Ferreira assume: “O que o BA me deu, a nível de ensinamentos, foi essencial nas minhas escolhas empresariais”. Ensinamentos que faz questão de agora retransmitir: os seus três filhos já são voluntários do BA.

Tal como Helena, Filipa, Nuno e André, Miguel partilha do mesmo desejo: fazer voluntariado até que a vida e as forças lho permitam.