Politica

'Não há razão de princípio para que o PS não se possa entender com o PSD'

Sérgio Sousa Pinto, secretário nacional do PS, mantém a esperança na maioria absoluta mas não afasta um Bloco Central com outra direcção no PSD. Quanto a Sampaio da Nóvoa, que criticou duramente, admite agora, em entrevista ao SOL, vir a apoiá-lo.


Como lida com as críticas às suas palavras, que são por vezes duras?

Há matérias em que considero indispensável dar uma opinião desalinhada e isso tem-me valido alguns dissabores ao longo dos anos. Um partido não deve comportar uma limitação à liberdade que nos obrigue a transformarmo-nos em algo diferente daquilo que somos e a violentarmo-nos. Há uma frase, que acho que é do Nietzsche, 'Não te arrependas de nada, torna-te naquilo que és'. Aos 40 anos devemos fazer as pazes com aquilo que somos.

Como se combate a ideia de que António Costa é um regresso a Sócrates?

A direita tem um discurso construído em duas ideias falsas. A primeira é a de que foi o PS que levou o país à crise, o que é falso como resulta evidente de realidades tão díspares como Espanha, Grécia e Irlanda terem sofrido a mesma pressão dos mercados. E a segunda, de que este Governo resolveu os problemas do país. Este Governo não fez nenhuma reforma estrutural, houve sim um corte tresloucado de pensões e salários, um aumento brutal de impostos. A resolução dos problemas ficou adiada, não se cumpriu a profecia de um grande arranque económico.

O PS quer baixar impostos e aumentar rendimentos. Não é um regresso a uma política despesista?

O problema da economia portuguesa é, como se demonstrou nos últimos anos, acreditar que os desequilíbrios podiam ser corrigidos através de políticas austeritárias. Hoje sabemos que só pode ser resolvido num quadro de crescimento. O resto são fantasias testadas e falhadas.

A descida da TSU teve críticas internas, nomeadamente suas. Já está convencido?

Tenho esperança de que os cortes na TSU tenham um impacto individual mínimo, residual nas pensões no futuro, mas que o efeito conjugado agora possa ter um impacto macro-económico positivo.

Não teme que esses cortes sejam mais agressivos no futuro?

Não. De acordo com as contas que foram feitas pelos economistas do PS estamos a falar de cortes insignificantes, mínimos, que serão amplamente compensados pelo crescimento da economia que estimamos que venha a acontecer.

O PS não tem descolado nas sondagens. O que falta?

O PS andará nos 38% o que é uma belíssima votação que, a ter progressão até às legislativas, mantém aberta a perspectiva de uma maioria absoluta. Temos de ter consciência de que a direita unida está nos 30 e tal por cento, o que é muito pouco.

Na Convenção Nacional, Costa não pediu uma maioria absoluta. O PS já não acredita que a consegue?

É muito mais difícil para o PS ter uma maioria absoluta do que para a direita porque não existe nada à direita desta coligação e o PS tem um conjunto de partidos que disputam o seu espaço eleitoral. O PS tem que ter uma vitória próxima dos 45% para alcançar a maioria absoluta e a direita consegue-a com meros 43%. Por isso, tem de ter recursos para lidar com situações em que não tenha essa maioria, mas evidentemente que é por ela que deve bater-se.

Por que a maioria absoluta saiu do discurso do líder do PS?

Não acho que tenha saído. António Costa tem sempre insistido que o PS se bate para ter condições ideais de governação: dispor de maioria na Assembleia que o liberte de compromissos, desde logo com a direita que, enquanto se mantiver nesta ortodoxia austeritária, não pode colaborar na aplicação de um programa político que é radicalmente diverso do seu. E com os partidos de esquerda que pretendem sair ora da União Europeia, ora do euro, ora renegociar a dívida.

Se não houver maioria absoluta, o PS deve coligar-se à direita ou à esquerda?

O problema terá que ser resolvido em função dos actores que na altura estiverem à frente dos diferentes partidos e de acordo com a expressão eleitoral de cada um deles.

Portanto não exclui uma coligação à direita com outros protagonistas?

Não excluo nenhum cenário compatível com a aplicação do programa político do PS.

Novos protagonistas à direita podem conciliar-se com o PS?

Há um PSD com uma componente social-democrata que foi desbaratado e desapareceu nos últimos anos da esfera do poder. É natural, como no passado, que o PS possa encontrar no PSD uma equipa que possa convergir de forma solidária na aplicação de um programa político radicalmente diferente do que tem sido nos últimos anos. A única coisa evidente é que com este PSD, com esta direcção, com esta política, não há possibilidade de compromisso possível.

Um PSD com Rui Rio?

Não posso fazer avaliações sobre pessoas. A única coisa que posso dizer é que não há nenhuma razão de princípio para que o PS não se possa entender com um partido que partilhe consigo meia dúzia de convicções fundamentais sobre as causas dos problemas nacionais e as soluções para esses problemas.

 

'O PS não pode ficar  refém de grupúsculos' 

 

Combater a abstenção é o principal objectivo para a campanha?

A classe média foi submetida durante quatro anos a uma dura prova e está aterrorizada com o futuro. Se não formos capazes de ir buscar à abstenção muitas pessoas que deixaram de considerar que existe na política a possibilidade de alternativas para as suas vidas e não uma mera rotatividade sem significado será uma desgraça para o PS.

O PS não é nem Syriza, nem PASOK, disse Manuel Alegre. Concorda?

Concordo. O PS tem uma estratégia para lidar com os problemas nacionais que não é manifestamente a que foi seguida pelo Syriza. Mas tem alguma compreensão e solidariedade para com aqueles que no PASOK fizeram o melhor que souberam para servir o seu país.

Como se faz a 'leitura inteligente' do Tratado Orçamental?

É preciso que certas despesas não sejam contabilizadas. O Tratado Orçamental é o mais pequeno dos nossos problemas. É um dos poucos que temos em comum com os países europeus. Ninguém sabe como vai poder cumprir as suas exigências algo irrealistas.

Como é que não se contabilizam despesas?

O Tratado é menos rígido do que se pensa. Faz uma distinção relativamente ao défice estrutural e admite um tipo de défice virtuoso. A camisa de forças a que estamos sujeitos não é tão apertada como se poderia pensar.

Deve haver uma frente de países do Sul na UE?

A lógica frentista não me parece útil, nem viável. Os países do Sul têm-se empenhado em mostrar que não têm nada em comum com o país imediatamente ao lado. Os países com espírito europeu e desejo de uma Europa integrada - e que têm connosco circunstâncias históricas e económicas comuns - têm que ter um caderno de encargos sobre as transformações no quadro comunitário. E nisso têm um aliado importante, a Comissão Europeia. É do interesse do país fortalecê-la. Quanto mais fraca for, mais capacidade têm os países mais fortes de impor  a sua agenda.

Como tem visto as derrotas dos partidos socialistas na Europa?

Os partidos socialistas viram-se numa situação complicadíssima. Por um lado, estavam submetidos  a uma doutrina segregada pelas instituições europeias de aplicação de políticas draconianas de austeridade sobre as quais não tinham capacidade de se opor. E, por outro, não é sua função na vida política insurgir-se contra a União Europeia ao estilo de partidos como o Syriza. Os partidos socialistas, subitamente, nem eram partidos à direita que acham que as políticas tomadas são as únicas possíveis, nem aqueles partidos  que têm um discurso fantasioso porque não querem a responsabilidade de exercer o poder.

É semelhante ao que se passa cá?

A maior parte da esquerda não quer ser poder ao lado do PS porque quer gerir os seus microespaços políticos, os seus cinco ou dez por cento, sem nunca partilhar o fardo de governar, com as decisões difíceis que as realidades ditam. Entre a esquerda proclamatória, que contesta mas não tem alternativas, e a direita que diz que só nos resta sofrer, os partidos socialistas ficaram numa situação difícil. Felizmente em Espanha o PSOE permanece o segundo maior partido. É preciso dar tempo para que o eleitorado se aperceba da pobreza do Podemos, do beco sem saída que representa.

A pulverização de partidos à esquerda é um problema para o PS?

Acho que sim. Esses partidos são um problema para o PS e para uma alternativa de Governo de esquerda em Portugal.  

Porquê?

Os partidos pequenos exploram um nicho político e vivem para essa quinta eleitoral. A perspectiva muito concentrada em causas próprias prejudica o interesse nacional e a possibilidade de construir uma plataforma de governo. O PS é um grande partido de governo em Portugal. Não pode ficar estrategicamente refém de grupúsculos acantonados em duas ou três causas particulares. Não pode ficar refém dos pequenos partidos.

Compara o Syriza e o Podemos ao Tempo de Avançar e Agir?

Falou-me de duas coisas que nem sei o que são... Há muita gente na esquerda que só aceita fazer parte do partido ideal e o partido ideal geralmente é o que só tem um militante e tem o partido rigorosamente de acordo com os seus desejos mais íntimos e profundos. Assisto com uma certa melancolia a essa atomização da esquerda: cada cabeça, um partido. 

 

‘É preciso distinguir as peripécias judiciais [de Sócrates] do legado como governante’

 

Ainda acha que José Sócrates é uma referência para os socialistas?

Acho. É preciso distinguir as peripécias judiciais do seu legado como governante. O legado como governante de José Sócrates foi positivo para o nosso país.

Sócrates será um elemento perturbador na campanha?

Não me quero pronunciar sobre uma matéria que não é estritamente política. É preciso respeitar a avaliação que as pessoas fazem com a sua inteligência e serenidade sobre as opções que têm diante delas, decisivas para o seu futuro e para o futuro colectivo.

Costa faz questão de separar a política da justiça, Mário Soares falou em caso político. Com qual concorda?

Cada um obedece àquilo que considera serem os seus imperativos de consciência na certeza de que, neste momento, cada um tem o seu próprio nível de responsabilidades. Pessoalmente acho que política e justiça devem ser, tanto quanto possível, dissociadas.

Costa deve incluir nas listas de deputados a oposição interna?

Com o devido respeito, não estou nada preocupado com isso. As listas de deputados é matéria que não me fascina. Espero que o PS faça o que lhe compete, que é escolher os melhores, independentemente das suas orientações políticas particulares.

Já tem candidato presidencial?

Como calcula, sobre essa matéria não tenho nada a dizer.

Ainda há espaço para surgir mais alguém à esquerda?

Neste momento, em face do quadro que se desenha nas eleições presidenciais, alongar-me sobre essa matéria seria diminuir e condicionar o PS em termos que me parecem irrazoáveis. Portanto não o vou fazer.

Comparou Sampaio da Nóvoa a Mujica. Criticou-lhe a demagogia e a virgindade política. Mantém as críticas?

Tenho orgulho nas realizações desta Segunda República. Com as suas deficiências, com as instituições imperfeitas, com políticas imperfeitas, com políticos imperfeitos, com um povo também imperfeito. Nós colectivamente conseguimos coisas extraordinárias. Desejo que futuramente o Presidente se sinta confortável dentro do casaco da Segunda República e não sinta que ele é curto nas mangas ou o aperta nos ombros.

Vai apoiá-lo como candidato do PS?

Eu apoiarei seguramente o candidato presidencial do PS.

Mesmo sendo Sampaio da Nóvoa?

Apoiarei o candidato presidencial do PS.

sonia.cerdeira@sol.pt

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