Cultura

Livros. A loucura engana-se com a dispersão

Há Sempre Tempo Para Mais Nada, segundo romance de Filipe Homem Fonseca, chega às livrarias esta semana. Mas antes do seu lançamento, o escritor, humorista, músico, realizador e tantas outras coisas dá hoje, em Lisboa, um concerto com a sua banda de rock e, no próximo fim-de-semana, participa no Festival Silêncio. Além disso, prepara uma nova série de ficção para televisão e, imagine, está a escrever um jogo de computador     
 

Filipe Homem Fonseca tem uma certeza: não vai escrever mais nenhum romance até 2070. Mais do que uma convicção, o escritor admite que a sentença é um desabafo, próprio do período de rescaldo de Há Sempre Tempo Para Mais Nada, história de 300 páginas sobre a perda, que acabou de escrever no mês passado. Mas o cansaço é de tal ordem que, a uma semana da chegada do volume aos escaparates das livrarias, Homem Fonseca nem sequer concebe a ideia de se imaginar a levar outra 'carga de porrada' como a que sentiu durante a criação deste seu segundo romance. Conhecendo-se como ninguém, o autor antecipa que, daqui a poucos meses, desrespeitará o veredicto que se auto-impôs, até porque, se há algo que odeia fazer é «deixar apodrecer ideias», cuja escassez nunca lhe acontece. 

É por isso com naturalidade que lista a agenda de compromissos para as próximas semanas: hoje à noite estará no RCA Club, em Alvalade, em concerto com os Lâmina, banda de rock que lidera; na próxima semana apresenta uma sessão de poetry slam no Festival Silêncio (decorre entre quinta e 5 de Julho), onde irá discutir ainda a relação entre o silêncio e a escrita. A uma semana do debate, ainda tem pouco a dizer sobre o tema, mas o tom é peremptório: «Da mesma maneira que não conseguimos estar em silêncio em lado nenhum porque há música sempre a tocar, também acho que há livros a mais. De auto-ajuda, esoterismo barato, coaching... São livros escusados, a não ser no Inverno quando há lareiras para serem alimentadas».

O discurso, caracterizado pelo próprio de «arrogante», mistura-se com a sátira particular de quem vive há anos da comédia. Começou a escrever nesse registo em 1997, escolhido por Nuno Artur Silva para a equipa das Produções Fictícias que criava Herman Enciclopédia. A comédia tornou-se o género onde tem mais experiência, mas revela que gosta de escrever com regularidade «coisas não humorísticas para relaxar». Paradoxal? Talvez. Mas Homem Fonseca parece não se enquadrar em nenhum estereótipo. Aos 'papéis' de argumentista, humorista e músico, acumula ainda trabalhos como realizador, dramaturgo e actor, e é nessa dispersão que se sente produtivo. «Se não fosse assim dava em louco», admite, soando mais uma vez contraditório. 

É ao falar da infância - quando aprendeu a ler de forma precoce porque queria perceber o que diziam os quadradinhos das bandas desenhadas - que comenta que «era hiperactivo», mas desconfiamos que o verbo ainda faz sentido no presente. O autor - chapéu que gosta de usar para resumir tudo o que faz - evita diagnosticar-se, mas concorda que, tal como em criança, hoje ainda precisa de estar sempre ocupado. Até com actividades impróprias para homens de 40 anos, como os jogos de computador. Mas Homem Fonseca gosta tanto deles, que até está a escrever um. «Convidaram-me para fazer a sequela do Crime no Hotel Lisboa e claro que aceitei». 

A par disso, revela, prepara uma série de ficção para televisão (ainda sem data de estreia), escrita que alternará com a leitura de vários livros. Para já anda interessado nos poemas da norte-americana Patricia Smith, até para se esquecer da «coisa horrível» que acabou de ler de Stephen King. 

alexandra.ho@sol.pt