Politica

Álvaro Beleza: ‘Não há drama num governo PS com sociais-democratas’

Escolheu uma das mais recentes esplanadas de Lisboa para uma bebida ao fim da tarde com o SOL. Os Terraços do Carmo, com vista sobre o Rossio e o Castelo de São Jorge, lembram-lhe um episódio histórico. Foi daqui, do varandim do Convento, que Nuno Álvares Pereira terá atirado uma lança que atravessou o Rossio. “Em África a poderei meter, se tanto for mister!”, lançou o Condestável em desafio, a quem o considerava velho para a expedição que iria acudir a Ceuta. Álvaro Beleza faz um sorriso atrevido contando que referiu o episódio a António Costa, ali, na inauguração do novo miradouro sobre a cidade de Lisboa, uma obra da câmara liderada até há pouco pelo secretário-geral do PS e candidato a primeiro-ministro. Mas o sorriso desvanece-se quando a pergunta é se está ele, Álvaro Beleza, a pensar meter uma lança em África no PS, caso o partido não chegue ao poder.

Há um plano B no PS para o dia seguinte às legislativas? “Não. O que há é um plano A, o de derrotar este Governo de direita e que António Costa conseguirá executar”. A expressão plano B refere-se a uma manchete na semana passada do jornal i , dando notícia de movimentações de bastidores no PS. Fala-se de Francisco Assis, um amigo próximo de Beleza, como um dos pretendentes ao lugar de secretário-geral. “O que eu digo nesta altura é que ninguém pode faltar à chamada, todos têm de participar na campanha. É isso que importa”. Ele próprio tem-no feito. Na quinta-feira, discursou no comício de Leiria, fez campanha em Lisboa e também incursões no distrito de Seguro. “Não tenho falado com ele”, responde à pergunta, óbvia, sobre a relação atual com o ex-secretário geral e amigo.

Depois de ter sido um dos elementos do núcleo de Seguro, na direção do PS, este médico assumiu a negociação de lugares da minoria segurista, na transição para a nova liderança. A operação podia ter corrido melhor e Beleza achou por bem auto-excluir-se de um lugar de deputado em Lisboa, para o qual foi convidado por Costa.

Com “mais tempo livre, para a família”, desde que deixou de ir diariamente ao Largo do Rago, o ex-secretário nacional do PS não deixa de pensar a política. Tem ideias definidas sobre como superar um resultado eleitoral que não será, tudo leva a crer, a desejada maioria absoluta do PS.

Um governo estávela todo o custo

Mas o Bloco Central foi rejeitado por António Costa e por Passos Coelho, o governo de esquerda parece uma utopia a quem olha para as linhas vermelhas do PCP e BE sobre política orçamental e europeia. Beleza abana a cabeça para contrariar o pessimismo de quem só vê à frente cenários de instabilidade.

“Se não tivermos maioria absoluta temos de partilhar o poder. Devemos fazer tudo o que está ao nosso alcance para construir um governo estável, para bem do país”, defende. Sem excluir o PSD e CDS? “Sim. Devemos procurar soluções ao centro. E devemos sobretudo aceitar a decisão dos portugueses”.

A expressão bloco central nunca sairá da boca do socialista que há mais de 20 anos foi candidato a secretário-geral, contra Jorge Sampaio. Mas é  para o centro que se vira este liberal na organização do poder político, e ao mesmo tempo acérrimo defensor do Estado Social, em particular do Sistema Nacional de Saúde.  E diz por que não está preocupado com a necessidade de António Costa e Passos Coelho se entenderem, se os socialistas se virem vetados pelo BE e PCP.

“Quem perde eleições não fica, não faz sentido que fique”, explica. “Se o PS ganhar como eu espero, julgo que teremos um PSD com outra liderança, social-democrata a sério, como já foi”. Nestas condições, “não há drama nenhum que o PS chefie um governo que tenha sociais-democratas”.

Mas Beleza não pede a António Costa que mude o discurso antes das eleições, depois de ter reduzido o cenário de Bloco Central à eventualidade de uma invasão de marcianos. “Quem sou eu para dar conselhos a António Costa. Ele sabe o que é ganhar eleições. E sabe bem como fazer acordos de governação, veja-se o que conseguiu em Lisboa”, responde, enquanto espraia o olhar sobre a colina do Castelo. “Isto é mesmo bonito!”, exclama, mudando de assunto.

Conversas do sótão

Mas voltemos à actividade politica de Beleza. O próprio não faz segredo dos encontros regulares de ex-seguristas e outros socialistas que partilham uma certa visão da política. Uma visão que não é isenta de críticas para a actual liderança. “Há muitos anos que reúno tertúlias de amigos. Um dos meus amigos mais antigos é Francisco Assis, entrámos na mesma altura para o PS”. Recusa-se porém a falar de uma espécie de ‘sótão’ belezista a funcionar no primeiro andar do Mercado da Ribeira, revelado nalgumas notícias. “Por acaso até temos um novo restaurante”, desconversa, com um sorriso afável.

Quanto à suas ambições num governo socialista, a resposta sai imediata, com uma negativa - “Não quero ser ministro da saúde”.  A conversa desvia-se de novo para a paisagem, agora com implicações políticas. “Esta obra da envolvente ao Convento do Carmo ficou óptima”. Mérito de António Costa, um “grande presidente de câmara em Lisboa. E se tudo correr como espero, um melhor primeiro-ministro”.

manuel.a.magalhaes@sol.pt