Sociedade

À segunda-feira a carne não entra

Desde que Maria Carlota Clara descobriu a campanha Segundas Sem Carne que baniu por completo os animais e seus derivados, como os iogurtes, leite ou ovos, da lista de ingredientes a usar neste dia da semana. "Para mim, esse dia é absolutamente livre de crueldade", conta ao SOL, explicando que também já cortou no vestuário e no calçado fabricado com pele natural.

A jovem de 25 anos, que sempre se considerou sensível à ética animal, conheceu o movimento Segundas Sem Carne através da página do Facebook de um grupo de voluntários de defesa de animais chamada ‘Gatos à solta’. Desde então que não tem parado de sensibilizar os amigos e familiares. "Sinto que tem sido mais benéfico para os outros do que para mim porque, de forma geral, tem-me ajudado a transmitir aos outros a importância de reduzir o consumo dos animais, e sobretudo, que não é nada difícil de o fazer. Noto que os meus amigos começam a questionar porque é que o movimento existe e gera debate", garante a empregada de mesa de um restaurante em Lisboa, que graças a ela até já serve pratos vegetarianos.

A razão que levou Gonçalo Jóia, um dos amigos que Carlota já conseguiu convencer, a aderir ao movimento, foi diferente, mas não menos importante: "Simplesmente tento fazer uma alimentação mais saudável, e noto que veio colmatar deficiências de alguns nutrientes e do consumo de vegetais, uma vez que nesse dia é a única coisa que como", refere o estudante de Engenharia de Telecomunicações, de 23 anos.

Desde que se apercebeu que o seu cozinheiro preferido, Jamie Oliver, também já tinha aderido às Segundas Sem Carne, Gonçalo decidiu pôr as suas receitas em prova: "O que mais gosto é a diversidade dos alimentos que permitem a substituição da carne e também dos temperos".

Na verdade, o famoso cozinheiro britânico não é a única cara conhecida a aderir ao movimento. Esta campanha teve início em 2003 nos EUA e já está representada em mais de 30 países e conta com o apoio de inúmeras figuras públicas e de líderes internacionais, como Oprah Winfrey, Al gore, Sir Richard Branson, Gwyneth Paltrow, Emma Thompson e o ex-Beatle Paul McCartney, introdutor do movimento em Inglaterra.

Em Portugal, onde chegou em 2011, são cada vez mais as pessoas que aderem à campanha e que partilham as suas refeições vegetarianas no Facebook e nos seus blogs. É o caso de Joana Roque, autora da página As Minhas Receitas. Há dois anos que reserva pelo menos um dia da semana unicamente à confeção de ementas vegetarianas.

"Têm uma ótima receção. Recebo cada vez mais e-mails dos leitores a dizer que gostam muito da ideia e motivam-me para publicar mais", relata ao SOL. Para esta mãe é um bom exercício para fazer uma melhor utilização dos produtos hortícolas que colhe da sua horta comunitária biológica e uma forma eficaz de proporcionar à família uma "alimentação mais diversificada".

Até agora, apresentar estes pratos mais alternativos ao filho de 2 anos "tem sido uma aventura": "Até fico espantada porque ele gosta mais de legumes do que de carne. Tento educar-lhe o paladar nesta fase em que está a crescer".


Porquê à segunda-feira?

O conceito tem inspiração nas campanhas feitas nos EUA durante a I Guerra Mundial , momento em que as famílias foram incentivadas a reduzirem o consumo de alguns alimentos essenciais: o trigo, à quarta-feira, e a carne à segunda. Nessa altura, 13 milhões de famílias aderiram ao apelo.

Em Portugal, a campanha chegou através do Pessoas-Animais-Natureza (PAN), partido que ganhou atenção mediática nas últimas semanas por ter elegido um deputado para a Assembleia da República. "Este tipo de campanha, que informa e sensibiliza para uma das grandes questões atuais – o consumo excessivo de carne e os problemas que daí advêm, é uma forma de despertar as consciências e de propor a mudança dos padrões de consumo»", explicou ao SOL fonte oficial do PAN.

Não existe estimativa oficial de quantas pessoas já aderiram às Segundas Sem Carne, sendo certo, porém, que a página portuguesa do movimento já conta com oito mil seguidores.


Benefícios para todos

Ao SOL, Estela Cameijo, licenciada em Ciências da Nutrição, destacou que uma dieta vegetariana permite a "redução de doenças cardiovasculares e cancro", as principais causas de morte em Portugal segundo a Direção-geral da Saúde (DGS).

"Ao optar por pratos vegetarianos, aumenta-se a ingestão de fibra alimentar que está presente na fruta, vegetais, cereais, leguminosas, sementes e oleaginosas", diz a especialista, acrescentando: "É benéfico porque está relacionada com a diminuição de alguns tipos de cancro, redução do desenvolvimento de diabetes, aumento do colesterol HDL, o chamado bom colesterol que mantém as nossas artérias ‘limpas’ e saudáveis, e redução do peso".

Para além de tudo isto, a nutricionista defende que a alimentação mais vegetariana contribui também para a redução de problemas renais e articulares. "A carne e o peixe são ricos em purina, uma proteína que sobrecarrega os rins. Ao ser processada pelo organismo a purina converte-se em ácido úrico que origina dores nas articulações e as conhecidas ‘pedras nos rins’", disse referindo que vários estudos provam também a redução da prevalência de Alzheimer em vegetarianos.

Maria Carlota Clara não tem dúvidas de que, desde que introduziu refeições vegetarianas no seu dia a dia, se sentiu "muito mais saudável", mas não destaca apenas essa mais-valia. "Tornei-me muito mais sensível a outros problemas, como a questão dos animais e do planeta. Por exemplo, adotei a reciclagem, que era algo que não fazia por preguiça".

simoneta.vicente@sol.pt