Internacional

Paris como alvo preferido do Estado Islâmico

Pela dimensão, coordenação, poder de fogo e, principalmente, pela crueldade demonstrada, são muitos os detalhes que apontam para um envolvimento do Estado Islâmico nos ataques de Paris.


Depois dos ataques à liberdade de expressão, no Charlie Hebdo, e à diversidade religiosa, num supermercado judaico da capital francesa, chegou a vez de semear o pânico entre os milhões de habitantes e turistas que todos os dias dão vida à Cidade Luz.

Restaurantes e teatros – repletos numa sexta-feira à noite – e as imediações de um estádio onde duas das maiores potências europeias se enfrentavam num jogo de futebol, na presença do Presidente da República de França. Alvos que representam um ataque a um modo de vida, locais potencialmente frequentados por todos os que se dedicam a apreciar o que a cidade tem para oferecer. É fácil imaginar que entre as mais de cem mortes anunciadas se encontrarão pessoas de todas as origens, raças, crenças ou qualquer outra divisão que se queira fazer.

Para um grupo que se dedica a impor uma visão retorcida e radical da sua religião, a multiculturalidade das vítimas será vista como uma mais-valia. Num momento em que viu aumentar a pressão na Síria – com o novo envolvimento da Rússia e os recentes sucessos obtidos pelas forças curdas (em Sinjar) e pela coligação liderada pelos EUA (com a morte anunciada do jiadista John) – o grupo poderá querer dizer ao inimigo que também não está seguro no seu território. Apesar das várias células detetadas em toda a Europa, o Daesh mostra que continua bem capaz de atacar o Ocidente.

E aí talvez a cidade de Paris se perfile, entre os grandes símbolos da Europa, como alvo mais frágil, tanto pelo historial deste ano negro de 2015 como pelo potencial de recrutamento que o EI encontra na sua área metropolitana. Foi de lá que saíram os irmãos Kouachi, autores do massacre no jornal satírico, e Amedy Coulibaly, que matou quatro dos reféns que fizera no supermercado kosher de Port de Vincennes, nos arredores de Paris. Tinham em comum a delinquência juvenil, que os levou a conhecer na prisão quem os levasse a radicalizar, em nome da religião, a forma de olhar para o país onde nasceram e cresceram.

Não é difícil antecipar que outras histórias semelhantes se possam vir a conhecer nas próximas horas e dias, por mais que isso venha alargar o já extenso rol de críticas às forças de segurança gaulesas. E também não espantará ninguém se essas histórias acabarem por revelar um apoio do Estado Islâmico. Mas se nos anteriores pareceu que o Daesh só deu apoio logístico (leia-se armamento militar) à execução de um plano de determinados ‘soldados’ já radicalizados, aqui adivinha-se um planeamento de outra dimensão, que implica o envolvimento de um número muito maior de pessoas e exige uma coordenação que roça o nível de uma força militar.

Prevendo-se que o selo do EI passe de hipotético a comprovado, resta saber qual será a reação da França e da Europa. Para já, François Hollande encerrou as fronteiras do país, medida que já tinha previsto para os dias da Cimeira do Clima. Mas também prometeu responsabilizar todos os autores da carnificina. Será também necessário mostrar ação para impedir a repetição deste tipo de ataques. Para que a cidade, o país e o modo de vida ocidental não acabem como os terroristas querem: marcados pelo medo.

nuno.e.lima@sol.pt

 

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