Sociedade

Estão a ser ouvidas na PJ no Porto as vítimas de maus tratos das 'freiras' em Famalicão

As alegadas vítimas de maus tratos, escravidão e cárcere num colégio de “freiras” em Famalicão estão já a ser ouvidas, na Polícia Judiciária do Porto, constatou o SOL na PJ.

As várias mulheres chegaram ao princípio da tarde à Diretoria do norte da PJ, onde se encontram ainda a dar conta das situações que vivenciaram, aos inspetores da Secção Regional de Combate ao Banditismo, que tratam de crimes de sequestro e alta violência.

Tal como o SOL adiantou quarta-feira, anteontem de manhã a Polícia Judiciária realizou buscas na Fraternidade Missionária Cristo Jovem, em Requião, concelho de Famalicão, estando a ser investigados os alegados maus tratos, como a morte de uma “freira”, de 55 anos, Maria Amélia, que ocorreu em circunstâncias estranhas, há onze anos. A morte, ocorrida em agosto de 2004, ficou a dever-se a afogamento, tendo sido então reportadas versões de um eventual “suicídio”, mas tudo indica que agora o cadáver será exumado, para novas perícias médico-legais a fim de serem confrontadas com a autópsia de então.

Entretanto, a Confederação Nacional dos Institutos Religiosos anunciou que as suspeitas não são freiras e as vítimas não são noviças, porque a Fraternidade Missionária Cristo Jovem não se trata de uma congregação, mas sim uma simples associação de fiéis que depende da Arquidiocese de Braga e do seu arcebispo D. Jorge Ortiga. Por isso, as suas instalações não são nenhum convento, mas pura e simplesmente instalações particulares.

A opção da Diretoria do norte da Polícia Judiciária, de não ter detido os suspeitos esta semana, terá permitido, segundo revelaram hoje ao SOL fontes da PJ, duas vantagens. A partir do fator surpresa das buscas foi possível apreender todo o material probatório, entre os quais chicotes e outro material de tortura. E entretanto, até segunda-feira, data em que serão ouvidos os suspeitos pelo Tribunal de Famalicão permitirá recolher todos os depoimentos das vítimas ainda a tempo de os suspeitos serem confrontados logo no primeiro dia de interrogatórios, com a versão das testemunhas já hoje recolhida pela PJ.

Por outro lado, alegadas “razões humanitárias” terão a Polícia Judiciária e o Ministério Público a não deterem os suspeitos, já que pelo menos dois estão debilitados. Uma das “freiras” está a realizar quimioterapia e o padre Joaquim Milheiro Valente, de 84 anos, encontrar-se-á supostamente acamado, na sequência da queda na qual partiu uma perna.

Aquele sacerdote católico e três “freiras” serão interrogados na próxima segunda-feira, ao longo de todo o dia, no Palácio da Justiça de Famalicão, segundo confirmou ao SOL o advogado desta instituição, Ernesto Salgado, que está a defender os quatro suspeitos.