Politica

Zita Seabra: ‘Nunca Cunhal aceitaria apoiar um governo sem o PCP ter lugar nele’

Quarenta anos depois do 25 de Novembro, a mais célebre dissidente do PCP diz que os dias históricos que a esquerda hoje vive podem ter um final infeliz para António Costa. A actual militante do PSD acredita que Passos Coelho, que admira, volte a governar em breve.

Fazemos esta entrevista na Versailles. Curiosamente quando a expulsaram do PCP foi acusada de comprar roupa em boutiques e tomar chá na Versailles.

Foi quase há trinta anos e já tenho mais anos fora do PCP do que no partido e as pessoas ainda me associam ao PCP. Acusaram-me disso e de fazer ginástica no Ginásio Clube Português… era o aburguesamento. Continuo a vir à Versailles, diariamente. Fica no meu caminho e gosto de cá vir.

Agora é militante do PSD, foi até deputada social-democrata. Ainda tem amigos no PCP?

Claro que tenho. Mas quando sai do PCP em 1987, 1988, como é normal no PCP não se falava com uma pessoa que saía. Por isso quando eu passava no Chiado por algum PC que me virava a cara eu pensava ‘ainda é PC’. Passado três meses se essa mesma pessoas me cumprimentava com um ‘Olá, Zita, estás boa?’ eu pensava ‘já saiu do PC’.   

Quarenta anos depois do 25 de Novembro de 1975, esta é uma nova data histórica para a esquerda?

Não é uma data histórica, é um arremedo histórico, porque o PCP e o BE não entram para o Governo. Esta é uma solução de três minorias que tentam sobreviver. Para haver uma maioria de esquerda, os três partidos estariam no governo. Nunca Cunhal aceitaria apoiar um governo se o PCP não estivesse no Governo.

Este PCP transformou-se?

O PCP transformou-se de partido ideológico em partido sindical. Está a jogar a sua sobrevivência, como a esquerda na Europa também está, sem saber muito bem para onde ir. Veja-se o caso de Hollande, que se transformou agora num improvável ‘falcão’.

As reivindicações sindicais vão ser um problema para António Costa?

A nacionalização dos transportes vai ser o primeiro grande problema que Costa vai ter. Não há dinheiro para isso. Eram empresas que gastavam imenso dinheiro aos portugueses e fizeram imensas greves, vão voltar a gastar dinheiro? Parece-me difícil. A primeira greve que foi marcada é também uma greve emblemática: os estivadores. Passos Coelho enfrentou uma greve de estivadores que durou cinco meses, foi brutal. E no sistema de ensino, vamos passar um mau bocado.

Porquê?

O esforço que houve – quanto a mim demasiado tíbio – de impor rigor, disciplina, regras, exames – corre riscos. Podemos ter o caos, e precisamos de ter quadros qualificados capazes de enfrentar a dureza no mundo laboral. Se não olharmos para o interesse dos alunos e só dos professores estaremos mal. António Costa anunciou o fim dos exames do primeiro ciclo, parece que os meninos ficam muito nervosos com os exames… isto favorece um sistema elitista, em que o ensino público fica para trás, pois no particular vai continuar a haver exames.

Esta mudança de ciclo político é necessariamente negativa?

Não é uma mudança de ciclo é uma curva, e de curto prazo. Não vai durar muito porque a situação é difícil, não está para reembolsos, não há capital. Tomáramos nós que houvesse algum capital contra o qual se pudesse marchar. Não há! E se a troika tiver de voltar será terrível, os portugueses não merecem.

A não devolução da sobretaxa de IRS, contrariando a promessa eleitoral da direita, tira capital de confiança a Passos Coelho?

Não faço juízos de valor, não digo que seja um caso de seriedade. A imagem de Passos Coelho sai muito bem destes quatro anos de Governo. Ele teve momentos muito difíceis, não só durante a crise de 2013, mas também porque apanhou o país num estado calamitoso. Não era possível fazer tudo e ele pelo menos criou uma dinâmica, convenceu as pessoas que é preciso rigor, que isto não é fácil. E valorizou a ideia de trabalho, que cada vez se desvalorizou mais na Europa e em Portugal: o grande sonho da vida é não trabalhar. Nestes quatro anos voltou a perceber-se que é mesmo preciso trabalhar.

Vê Passos Coelho a ter condições para voltar ao poder?

Claro que sim, ele é uma importante reserva do país. Eu apoiei-o desde o primeiro momento, tenho uma grande admiração, até pessoal por ele e pela mulher, porque ele teve uma vida dura. Gosto de falar com ele quando as coisas correm bem e quando correm mal.

O PSD faz bem em não dar a mão ao Governo? Mesmo nas questões europeias?

Passos é um estadista e traçou a fronteira onde deve ser traçada. A colocarem-se questões de segurança na Europa, e sendo o PSD um partido europeísta, tem de estar presente. O futuro de Portugal está na Europa. Agora, o PSD não tem de ser uma bengala da governação do PS. Na economia e finanças, António Costa optou com quem se quer aliar, e aí o Governo que responda. Se não seria estranho que para as medidas difíceis estava o PSD, para a demagogia e os sindicatos estava a esquerda. Assim também eu governo!

Considera-se hoje uma pessoa de direita?

Se esquerda for uma esquerda estritamente sindical, não tenho nada a ver com isso. A esquerda com a queda do muro de Berlim perdeu as suas bandeiras e não se soube adaptar. Amigos dos pobrezinhos somos todos, a única coisa que a esquerda conseguiu no governo foi distribuir o que não tínhamos, prometer obras faraónicas. Isso é a esquerda? Não é. Isso é justiça social? Não é. É uma sociedade onde impera a corrupção e as desigualdades aumentam e onde uns trabalham muito mais que os outros. Os jovens quadros trabalham 12-14 horas por dia no privado, no setor público exige-se um máximo de 35 horas semanais. É injusto.

Esteve contra esta despenalização do aborto. Preocupa-a a nova agenda da esquerda nos costumes?

Não me preocupa nada, as pessoas são livres de fazer o que querem com a sua vida. Preocupa-me é assistir à diluição das nossas raízes culturais, da nossa matriz judaico-cristã na Europa. Sou muito sensível aos direitos das mulheres e é um horror o que a sociedade muçulmana faz às mulheres. À porta do Harrods, em Londres, já se vêm quatro mulheres a caminhar atrás do marido. Isso não é aceitável. E para mim é um espanto que no dia em que a Europa está a discutir gravíssimos problemas de segurança, o nosso Parlamento está a discutir 7,50 euros de não pagamento de uma mulher que praticou um aborto. Num país que tem disponíveis todos os meios de contraceção.

Concorda com o casamento gay? E com a adoção gay?

Mas não tenho nada contra o casamento e tenho grandes amigos homossexuais. Não concordo com a adoção, porque a criança tem direito a ter um pai e uma mãe, não é um objeto de direitos.

É dona de uma editora. A edição de livros vive tempos difíceis?

Sim, porque sofremos de dois lados. Com a crise, as pessoas põem logo a cultura de lado. E sofremos com o avanço tecnológico. Não tenho nada contra os livros eletrónicos, mas o tablet também serve para ir à net e as pessoas não têm tempo para tudo.

O livro de política vende?

Há muitos e atropelam-se uns aos outros. Mas é muito difícil esse tipo de livros entrarem nos tops. O primeiro lugar é o Asterix e depois vem o Rodrigues dos Santos.

manuel.a.magalhaes@sol.pt