Politica

Biografia de Marcelo Rebelo de Sousa – Chegava a escrever notícias sobre si próprio

Em 1972 Balsemão chama-o para uma entrevista para o jornal que está a criar. O advogado André Gonçalves Pereira, em cujo escritório Balsemão ocupa uma sala tinha-lhe falado no jovem jurista de 23 anos, com quem já se tinha cruzado na Assembleia Nacional no tempo da ala liberal.

Biografia de Marcelo Rebelo de Sousa – Chegava a escrever notícias sobre si próprio

José António Saraiva descreve o momento no livro “Confissões de um Diretor”, explicando que Marcelo encenou o seu enforcamento com a correia do estore de uma janela, numa brincadeira para divertir a secretária de Balsemão, Paula Calisto.

Rebelo de Sousa dizia que se não fosse admitido se enforcava. Quando entrou na sala, o futuro diretor do Expresso ainda apanhou Marcelo com a corda ao pescoço e a língua de fora. Achou-o louco, mas convidou-o para administrador-delegado. Só que a vocação de Marcelo não era a gestão e rapidamente passou para a redação.

Os anos do Expresso são acelerados. Marcelo dorme cada vez menos e deixa Ana Cristina, que entretanto engravida, cada vez mais sozinha. Irreverente, viola frequentemente as regras da censura e quase arruína o jornal. O semanário passa a ser sujeito a prova de página, o que implica uma censura prévia que atrasa a impressão e a distribuição. Balsemão, que só se apercebe do que se estava a passar quando regressa de uma viagem a Espanha, apanha um susto. Mas Marcello Caetano é quem fica furioso com o ‘afilhado’.

Marcelo escreve várias cartas a tentar a aproximação, prometendo até renegar à atividade política e dedicar-se em exclusivo ao doutoramento em Direito Administrativo. Mas Marcello nunca mais recebeu Marcelo Nuno, nem sequer para conhecer o seu filho Nuno que, entretanto, tinha nascido em agosto de 1973.

Nesta altura o jornalista passa a ditar vários artigos em simultâneo a duas secretárias, ao mesmo tempo que atende telefonemas. Tudo sem nunca se enganar. O relato parece inverosímil, mas são muitos os que asseguram ter assistido à proeza.

Marcelo é frenético e diz-se que muitas vezes não confirmava sequer a informação antes de a escrever. Vicente Jorge Silva, citado por Vitor Matos, diz que Rebelo de Sousa “era capaz de construir uma notícia a partir de um sururu qualquer”, mas que “havia sempre alguma verdade nessas notícias porque ele arranjava as coisas de maneira que a informação fosse sustentada”.

O Expresso era muitas vezes uma arma política. Marcelo chegava a escrever notícias sobre si mesmo. Começa também a escrever para o jornal do partido, o Povo Livre, ao mesmo tempo que é deputado na Assembleia Constituinte. Marcelo nunca desliga. É viciado em informação e fica conhecido por andar com um rádio a pilhas colado ao ouvido para ir sabendo tudo o que se passa.

A irreverência que faz dele o jornalista mais valioso do Expresso é também o que acaba por marcar negativamente a sua relação com o dono do jornal.

Em 1978, era Balsemão primeiro-ministro, Marcelo é desafiado pela amiga Margarida Salema, irmã de Helena Roseta, a provar a independência do jornal atacando o também proprietário do semanário. O desafio foi irresistível. No meio de um texto da Gente (a secção humorística criada por Marcelo) apareceu publicada uma frase desconexa: “O Balsemão é lélé da cuca”.

A brincadeira custou-lhe a amizade de Balsemão, que não o despediu do Expresso, mas nunca mais lhe perdoou, apesar de mais tarde o convidar para fazer parte do seu Governo.

Os seus artigos no semanário serviram também para azedar a sua relação com Sá Carneiro, quando este chegou a primeiro-ministro. O líder do PSD não gosta do que lê e queixa-se a Balsemão.

No Expresso, Marcelo inova na forma como se faz jornalismo em Portugal. É ele que quem pela primeira vez começa a publicar sondagens de forma regular e que custam uma fortuna ao jornal. É ele quem no Verão de 1979 põe jornalistas a percorrer praias e festas em busca de intrigas sociais. E é também ele cria os almoços do Pabe, entrevistas políticas feitas em ambiente informal.

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