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Pauliana Valente Pimentel. Fotografar o silêncio

Com tempo para tudo. Sem stress. Fugir à cidade e ao seu bulício rotineiro. Deixar que o campo tomasse conta, que o silêncio se revelasse. E criar.

Pauliana Valente Pimentel DR
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Foi com esta sensação de longe de tudo que Pauliana Valente Pimentel preparou as peças que constituem a exposição “The Behaviour of Being”, que arrancou no sábado na Galeria das Salgadeiras, em Lisboa.

Foi depois de vencer, no ano passado, o prémio da Sociedade Portuguesa de Autores para o melhor trabalho fotográfico do ano com “The Passenger”, que a fotógrafa de 40 anos aceitou o convite para participar em The Beekeepers, a primeira residência artística em Castro Marim, no Algarve, criada pelos artistas britânicos Tom Leamon e Jennifer MT White e pelo português Pedro Leitão, com o apoio da Cob Gallery, em Londres.

No total foram convidados 13 artistas, a maioria dos quais vindos de Londres, ainda que com diferentes nacionalidades e diferentes práticas artísticas - da pintura à escrita, da performance à fotografia, como é o caso de Pauliana. “A ideia era quebrar com a rotina da grande cidade e de criar nessas condições de stress e sem tempo para nada, e estarmos completamente focados durante dez dias, no campo, onde éramos livres de produzir ao nosso ritmo e da maneira que quiséssemos - tínhamos total liberdade”, explica a fotógrafa.

Nessa liberdade, Pauliana permitiu que os dias fluíssem naturalmente, sem com eles disputar tempo, aproveitando para fotografar mas também para descobrir os outros participantes desta residência, enquanto artistas mas também enquanto pessoas. “Como sabia que iria ter tempo e que ia sobretudo dialogar comigo própria, para além do digital, fotografei em película médio formato, o meu suporte preferido. Acordava cedo, e deambulava pelos meus locais favoritos, a minha única preocupação era estética”.

As fotos que resultam desta experiência mostram um Algarve diferente do Algarve dos turistas e dos grandes hotéis. Um Algarve do “silêncio e da contemplação.” Uma experiência que acabou por servir de autodescoberta, de uma fotógrafa que precisa de tempo para refletir, para ver, para pensar, sem no entanto com isso descurar o fator humano e as relações com as pessoas. “O meu trabalho artístico e pessoal vive muito das relações que crio, do grau de intimidade que consigo com as pessoas que fotografo... Não consigo usar um zoom ou fotografar e ir-me embora - preciso de proximidade e tempo. Mesmo nos trabalhos em países distantes, preciso desse grau de intimidade, e tento sempre ficar em casa de locais e não andar a correr. Procuro viver cada momento intensamente, e com respeito pelo próximo. Ainda assim este trabalho é, muitas vezes, solitário”.

Foi entre a família que Pauliana Valente Pimentel se estreou na fotografia. Com os pais como modelos, em aniversários e passeios foi fazendo o gosto ao dedo disparador. Percebeu que “gostava de fazer retratos e construir álbuns. Sempre achei fascinante ver os álbuns de família dos meus pais. Achava fascinante olhar para eles mais novos - ver a maneira como se vestiam, as poses, com quem estavam e onde”. Mais tarde passou a registar as viagens que fazia, no mínimo uma desde os 18 anos, começando pelo Nepal e Tibete. No regresso queria poder trazer esse presente para os amigos e família.

Com 24 anos, começou finalmente a trabalhar como fotógrafa freelancer, inicialmente ao nível da fotorreportagem, colaborando com publicações portuguesas e estrangeiras. Cerca de dez anos mais tarde, participou no curso de fotografia do Programa Gulbenkian Criatividade e Criação Artística. Pertenceu ao coletivo [Kameraphoto] desde 2006 até à sua extinção em 2014, mas nunca se deixou tomar de assalto pela velocidade das redações e conciliou sempre a agenda jornalística com as exposições, individuais e coletivas - em Portugal, Espanha, Itália, Inglaterra, Alemanha, Grécia, EUA, China, Marrocos, Cabo Verde e Turquia - e com a realização de filmes, como “Diz-se que Portugal é um bom país para se viver”, (2011) e “Jovens de Atenas / Youth of Athens” (2012). Em comum, sempre, a contemplação do silêncio.