Sociedade

Sócrates pagou a professor para ‘ajudar’ na tese e no livro

Carlos Santos Silva, ex-administrador do grupo Lena e amigo de José Sócrates, confessou que o plano para adquirir em massa exemplares do livro A Confiança do Mundo - Tortura em Democracia partiu do próprio ex-primeiro-ministro, soube o SOL junto de fontes próximas dos autos.

Ao mesmo tempo, Domingos Farinho assumiu ao SOL ter recebido uma avença, paga por uma empresa de Carlos Santos Silva, para ajudar Sócrates na escrita da tese que esteve na base do livro. Mas, para o Ministério Público (MP), este professor catedrático e antigo assessor para a economia de Sócrates é o verdadeiro autor da obra.

Numa busca desencadeada a várias empresas do universo de Santos Silva, o MP descobriu um print de um email de Dezembro de 2012, trocado entre Farinho e Rui Mão de Ferro - administrador da Proengel 2, uma das sociedades de Santos Silva, e arguido neste processo -, relativo à preparação do contrato e à realização dos pagamentos.

Em declarações ao SOL, Domingos Farinho admitiu ter recebido esses valores, mas argumentou que o seu trabalho se ficou pela revisão da tese e que o livro não tem o seu dedo. Quanto ao montante, que recebeu de forma regular durante um ano, foi acertado entre ele e Sócrates “e não é do foro público”.

No entanto, esclarece que quem lhe pagava não era o beneficiário do seu trabalho: “Não me lembro do nome da empresa, mas tratei de tudo sempre com Rui Mão de Ferro”.

‘Qual é o crime?’

Em anteriores declarações ao SOL, Farinho garantira nada ter que ver com a autoria de A Confiança no Mundo, até por não pertencer à sua área académica, “a não ser no interesse da filosofia do direito e da política”, acrescentando que apenas deu “ajuda na tese” a Sócrates, “discutindo e trocando alguns livros”. Acontece que Sócrates sempre se referiu ao livro não como uma obra original mas como a versão traduzida do francês da sua tese de mestrado.

Para além disso, Domingos Farinho entendia que a questão da autoria da obra não é da esfera dos autos criminais em curso: “Que é que isto tem que ver com o processo?”.

A mesma pergunta foi curiosamente feita por Sócrates no primeiro interrogatório a que foi submetido pelo juiz Carlos Alexandre, mas respeitante à compra de livros em massa. Interrogado sobre se a ordem para comprar o maior número possível de livros para atingir os tops nas livrarias teria partido da sua cabeça, Sócrates negou mas retorquiu: “Mas qual é o crime disso?”.

No entanto, para a equipa do DCIAP (Departamento Central de Investigação e Ação Penal) e da Inspeção Tributária que lidera a investigação, este caso é uma das várias provas de que o dinheiro envolvido na intensa campanha de compras do livro - em que foram gastos pelo menos 170 mil euros (correspondentes ao açambarcamento de cerca de metade da tiragem) - é proveniente de uma conta do BES titulada por Santos Silva e que pertence, afinal, a José Sócrates.

Tática engendrada a meses de distância

O enredo que levou o MP a esta conclusão remonta a Setembro de 2013, quando Sócrates, após o seu interregno estudantil em Paris, regressou a Portugal imbuído da ideia de lançar um livro de sucesso - para, após a derrota nas legislativas anteriores, ensaiar o lançamento do seu futuro político. Por essa altura, porém, já estava a ser investigado e sob escuta na Operação Marquês. O lançamento do livro, com a chancela da editora Babel, estava agendado para 23 de outubro, e os dias que se sucederam deixaram o autor sem fôlego.

Nesta data, já Sócrates teria desenhado uma engenhosa tática que, para o comum dos cidadãos, pode roçar o paradoxo. Quase um mês antes, com o apoio de terceiros, propunha-se comprar o maior número possível dos seus próprios livros, de modo a chegar ao top de vendas antes da própria cerimónia de lançamento da obra.

Nos primeiros dias de outubro, mal o livro entrou em pré-venda nos sites das livrarias, já ele tinha a operação no terreno. Para executar o plano de ataque, precisava de um fôlego monetário que não tinha disponível na sua conta bancária - e Carlos Santos Silva foi o ‘banqueiro’ do empreendimento.

Pequenas células por todo o país

Apesar de não ter passado político na clandestinidade, o empresário agiu como tal. Para camuflar o plano, criou pequenas células com pessoas de sua confiança que tinham como função comprar a obra por todo o país.

Carlos do Carmo Martins, atual vice-presidente da Câmara da Covilhã, tratado pelo grupo como ‘O Serrano’ - que no mandato de Sócrates foi para São Bento -, ficou com a responsabilidade do seu distrito. O coordenador da célula beirã, à moda siciliana, socorreu-se dos mais íntimos: a família. Estendeu a rede ao irmão, ao cunhado e ao sobrinho, que se movimentaram durante a missão mesmo para fora da sua área, até Coimbra.

No Porto, como responsável da estrutura estava Renato Sampaio, deputado socialista pelo círculo, que foi fazendo o relatório a Santos Silva.

Este pôs no terreno alguns dos seus empregados, como o advogado Gonçalo Ferreira, Rui Mão de Ferro e Romeu Branco Simões, sócio da Proengel e que mais tarde haveria de confessar que todos os livros foram comprados com dinheiro entregue por Santos Silva. Mas, mal a Operação Marquês veio a público, Simões desfez-se dos livros que guardava em casa.

Carlos Santos Silva e a mulher, Inês do Rosário, para além da entrada do dinheiro, tornam-se verdadeiros operacionais. Também ela, que no total adquiriu pelo menos 821 exemplares (equivalentes a quase 14 mil euros), seria constituída arguida dois anos depois por fraude fiscal e branqueamento de capitais, dando uma explicação do foro psicológico para o plano de Sócrates: uma questão de ego do “engenheiro”.

Sócrates: ‘Sou muito vaidoso’

José Sócrates, segundo informações a que o SOL teve acesso, quando confrontado pela equipa do DCIAP e por Carlos Alexandre começou por afirmar que a ideia do açambarcamento dos livros não partira dele, invetivando o homem do MP, Rosário Teixeira: “Porquê, senhor procurador? Acha que fiz isso por vaidade? Sou muito vaidoso, como todos os políticos. Agora, eu fazer uma operação destas, de compras de 170 mil euros para receber 8 por cento [de direitos de autor]?”

A verdade é que Sócrates, no posto de comando, socorreu-se até do seu motorista, João Perna, que espalhou entre os amigos acerca do patrão: “Escreveu tanto o livro como eu”. No início de outubro, mal Sócrates arrancou a informação da editora - que ia mantendo sob permanente pressão - de que os livros já se encontravam à venda online, deu indicação a Santos Silva para o arranque das operações.

O livro chegava via web com 10 por cento de desconto, e a tarefa passava então apenas por encomendas pela internet. Santos Silva, que nunca desobedeceu a uma ordem de Sócrates - como se este fosse seu superior -, colocou na mesma hora a máquina a rolar e convocou os dois pontos de apoio do norte para uma reunião com vista a receberem a maquia que sustentasse o ataque.

Mas o nível de confiança em Carlos Martins estava em baixa. Sócrates mantinha-o de rédea apertada e exigia recibos das compras, uma vez que o homem da Covilhã parecia capaz de afirmar que comprara cem tendo-se ficado por metade.

Outro papel na estrutura tinha André Figueiredo, que fora secretário nacional adjunto do PS durante a liderança de José Sócrates. Enquanto os outros grupos se desdobravam na demanda de esgotar os livros, revezando-se para não deixar rasto pelas várias livrarias do país, Figueiredo acompanhava o amigo nas reuniões com a editora, reforçando as exigências do suposto autor.

Os dois exigiam mais do que a Babel tinha para dar. Para além dos meios de promoção próprios da editora, Sócrates exigia a contratação de uma agência de comunicação, a Gravity (que no seu site apresenta como clientes, entre outros, a EDP e o Governo), proposta rejeitada pela Babel, dado o orçamento apresentado. Este encargo acabaria por sair do bolso do próprio Sócrates.

Dobro dos convites enviados

André Figueiredo tornava-se na peça maior de outra vertente da estratégia. Empenhou-se em ter casa cheia no dia do lançamento do livro, no Museu da Eletricidade, em Lisboa. Com a ajuda de Maria João Santos, secretária de Sócrates, conhecendo a lotação da sala, enviou o dobro de convites para políticos e intelectuais, de forma a provocar uma enchente, o que veio a verificar-se.

Entretanto, a 18 de Dezembro, A Confiança no Mundo chegava às livrarias, e todos os atores com intervenção no plano passaram a viver a um ritmo insano.

O objetivo, como se disse, era que o livro atingisse o primeiro lugar dos top de vendas. Uma vez que os números das livrarias são recolhidos de quinta-feira a domingo, vigiava ao minuto o trabalho das equipas espalhadas por todo o país, com o objetivo de adquirirem mil exemplares nesse fim de semana. E a palavra de ordem para todos os operacionais foi clara: “Agora, fogo à peça!”.

Simões, na Covilhã, dava o feedback a Santos Silva. Para esgotar o stock nos pontos de venda, lançara o irmão para Coimbra e o sobrinho para o Porto, enquanto o cunhado ficava com a grande zona de Lisboa. Entretanto, Sócrates, que naqueles dias andava numa inquietação obsessiva tentando controlar todas as frentes, ia sabendo através da editora onde estavam os livros a ser colocados ou repostos.

E, no afã de vazar as prateleiras, enviava aos sítios certos os seus expedicionários, que se iam revezando para não dar nas vistas. Nas livrarias, perante a fúria inédita da procura, pairava o pasmo entre os vendedores. Na Bertrand da Avenida de Roma, em Lisboa, uma senhora de memória fresca, ao reparar que Inês do Rosário comprara cinco exemplares de uma assentada, fez-lhe o reparo cívico: “Esqueceu-se de que foi Sócrates quem nos levou ao resgate?”.

“Também quer cinco?”

Rapidamente as faculdades humorísticas dos livreiros substituíram o pasmo. Os membros da organização, onde chegavam, nunca compravam menos de cinco livros. No mesmo dia faziam várias investidas ao mesmo local, e os funcionários, que começavam a fixar os rostos, recebiam-nos com sorrisinhos de cartomantes. Começaram a tomar o trigo pelo joio e, quando aparecia um cliente normal, adiantavam-se-lhe: “Também quer cinco?”.

Entretanto, à Babel chegava a desconfiança dos livreiros. A primeira edição, de 6000 exemplares, já esgotara e uma nova reedição estava em curso. José Araújo, o responsável comercial que Sócrates passava o tempo a bombardear para saber o ponto da situação, deparava com uma situação inédita.

Na categoria de ensaio, como era o caso, raramente se vendiam mais de 2000 exemplares, e o livro de Sócrates estava a bater o último de Mário Soares. Sem desconfiar da manobra, Araújo recebia as suspeitas dos livreiros, testemunhando mais tarde: “Desde o início houve livreiros que me referiam a existência de clientes a comprar vários exemplares e que a FNAC de Viseu, que é a loja que dentro do grupo regista a menor volume de vendas, vendeu os 50 exemplares fornecidos”.

Santos Silva começou a pesar os contratempos e avisou o amigo autor. Entre gente com imaginação, depressa se descobriu solução. Para camuflar a tática, passaram a recorrer às caixas automáticas como as da FNAC do Colombo, em Lisboa, onde o grupo se podia esgueirar aos olhares dos caixas e comprar a obra em catadupa. O empresário rapidamente passou a palavra aos restantes camaradas. Aproximava-se o lançamento e novo incentivo mobilizador circulou de boca em boca: “Boa caçada!”, era propagado entre os fiéis.

Santos Silva dá umas boas gargalhadas

O empresário, quando mais tarde teve de se explicar junto de Carlos Alexandre, confrontado com o esquema, não conseguiu deixar de dar umas boas gargalhadas. O homem que esteve disposto, segundo alegou, a oferecer a fortuna a Sócrates sempre que ao outro lhe aprouvesse, reviu o lado burlesco das ações humanas: “Foi a pedido de Sócrates mas também por minha vontade. Comprei muitos. Naturalmente o Sócrates queria manter o status, tinha a vontade de que o livro tivesse uma boa aceitação, e alavancou as vendas”.

No dia da sessão de lançamento, o Museu da Eletricidade estava à pinha com a mediática cerimónia de união entre a nata socialista, como Mário Soares, António Costa e Eduardo Ferro Rodrigues, e o mundo intelectual. Até ao final desse ano, com a máquina de operacionais sempre no terreno, foram vendidos 18 mil exemplares.

Farinho assessor de Costa

Com o sucesso, Sócrates desdobrou-se em entrevistas e as recensões literárias ao livro saíram em toda a comunicação social. Quem andava melindrado era Domingos Farinho, o suposto ‘verdadeiro autor’ e que, após a formação do Governo de António Costa, foi convidado para seu assessor. Num dos jornais, surgiu um comentário pouco favorável ao livro, levando o catedrático a reagir em conversa com Sócrates: “O gajo faz um comentário sobre aquele capítulo, aquele em que tivemos imenso cuidado, foi um dos pontos em que perdemos mais tempo a simplificar”.

Apesar do altruísmo do académico sobre o seu contributo para a obra, dizendo ao SOL que apenas teve intervenção “na parte formal”, nomeadamente “na revisão do livro e notas de rodapé”, a sua intervenção intelectual não ficou por aqui, o que levou Sócrates, para além da avença que lhe arranjou numa das empresas de Santos Silva, a presentear a sua mulher - deixando porém a oferta à escolha de Farinho, dado conhecer melhor os gostos da esposa.

Depois da estrondosa cerimónia de lançamento, o objetivo do ex-governante era bater o recorde de todos os ensaístas portugueses e atingir um número de vendas que o levasse a candidatar-se a um prémio para aquele género literário.

A máquina montada com Santos Silva mantinha-se no terreno com a ajuda de um novo elemento. Lígia Correia, antiga secretária de governantes socialistas, e uma das visitas mais assíduas do ex-líder socialista, entrava na campanha. Tinha como missão adquirir 400 exemplares (no valor de 8000 euros, sem contar com as despesas de hotéis, refeições, combustível e portagens), o que conseguiu em tempo recorde.

Apanhar Eduardo Lourenço à socapa

Simultaneamente, Sócrates preparava uma edição especial que acabaria por sair apenas em abril do ano seguinte. Com a sua singular forma de agir, queria estar bem acompanhado. Encarregou Araújo, o comercial da Babel, de agendar uma reunião com Eduardo Lourenço para o convencer a escrever o posfácio (o prefácio da primeira edição era assinado pelo ex-Presidente brasileiro Lula da Silva), e a capa ficaria a cargo do destacado pintor Júlio Pomar.

Mas, neste novo desafio, um encontro com Lourenço afigurou-se um bico-de-obra. Araújo esforçou-se, debalde, em contactos para a sua secretária. Sócrates não suporta um ‘não’, e Araújo prometeu-lhe fazer pressão e mesmo um choradinho. O homem da editora andava num sufoco para cumprir os desígnios do ex-primeiro-ministro e não arranjou outra alternativa do que tentar apanhar Lourenço à socapa na Fundação Calouste Gulbenkian, onde o professor é administrador não-executivo.

Sócrates conseguiu assim os seus intentos, envolvendo desse modo dois homens da melhor nata criativa do país no projeto. O seu cérebro não tinha descanso. Em 2014, decidiu estudar com mais afinco e transformar o mémoire feito em Paris em tese académica. Mais uma vez, socorreu-se da bondade intelectual de Domingos Farinho.

Luxuoso apartamento para escrever

Este foi lendo livros que Sócrates encomendava pela internet via Amazon. Entre a vasta lista bibliográfica que assim lhe chegou às mãos, Farinho especializou-se no tema da guerra contra o terror e na ideia de como a razão do Estado se pode transformar numa ameaça, matérias que foi sugerindo ao antigo líder socialista para a orientação do seu trabalho académico. E, no final do ano, Sócrates começou a pensar escrever um novo livro para o qual já tinha nome: Carisma.

Precisava de se retirar por uns tempos do bulício citadino e tinha a intenção de alugar um apartamento no luxuoso Pine Cliffs Residence, do grupo Sheraton, em Albufeira. A seguir ao lançamento da edição especial do livro, combinou com Farinho, que já deitara dedo ao texto e tinha cinco páginas escritas, tirarem uns meses para porem mãos à obra.

Imbuído agora no papel de ensaísta, Sócrates não escondia a sua pretensão. Em outubro, o jornalista José Manuel Portugal - à época diretor de Informação da RTP e que, após a prisão de Sócrates, acabaria por recusar a primeira entrevista dada pelo recluso, que acabaria por sair na TVI em dezembro de 2015 - desafiou-o para um debate na estação: “Ele tinha o programa dele aos domingos e Nuno Morais Sarmento às quintas. A minha ideia era juntá-los”.

Mas Sócrates descartou-se: “Eh pá, eu estou a pensar retirar-me uns três meses para escrever mais um livro, por favor não comente com ninguém”. Em reserva, para os seus planos megalómanos, contava mais uma vez com Eduardo Lourenço, com quem se queria emparceirar. Araújo, ainda nesse mês, avisou-o de que a ideia do livro com o professor, da forma como ele a desenhara, não seria possível. Tinha alternativas.

Já Lourenço parece estar a léguas destes projetos. O professor conhecia Sócrates da televisão e pouco mais: “Fiz o posfácio do primeiro livro, mas escrever com ele outro livro? Essa questão nunca se pôs entre nós! Claro que não estou na cabeça dele e não sei se ele pensou algum dia escrever um livro comigo. A partir do momento em que saiu a edição especial, não tive mais contactos com ele”.