Cultura

António Carlos Cortez: ‘Encontro noutros poetas respostas que eu gostaria de ter dado’

Poeta, crítico e professor, António Carlos Cortez escreveu o primeiro poema quando andava na 2.ª classe. Hoje tem oito livros publicados. Animais Feridos (D. Quixote) é o mais recente.

Este livro está dividido em três secções. De que trata cada uma delas?

A primeira intitula-se ‘Oblivion’, e é sobre o esquecimento. A segunda, ‘Palimpsesto’, são 20 poemas sobre arte poética; e a terceira secção tem o título ‘Estige’, um dos rios do Inferno.

Como estipula qual é a sequência dos poemas no livro?

Todos os meus livros – à exceção do primeiro, que considero um pouco prematuro – são uma espécie de puzzle que se pode construir. Baudelaire foi um dos primeiros a conceber o livro como um edifício, com câmaras e antecâmaras, e neste livro há essa ideia. Sou frio na conceção do livro e mesmo nos textos. A linguagem tem de ter uma emoção e uma vibração, mas não acredito na poesia sentimental.

Falou do primeiro livro. Gostaria de recuar ainda mais, ao primeiro poema que escreveu.

Meu Deus! [sorri]

Recorda-se das circunstâncias?

Tinha sete ou oito anos quando li, maravilhado, um poema do David Mourão-Ferreira, ‘Maria Lisboa’. E fui para casa fazer umas quadras muito toscas para responder àquele poema que ainda hoje sei de cor: ‘É varina, usa chinela,/ tem movimentos de gata/ Na canastra, a caravela,/ No coração, a fragata’. Depois dessa primeira tentativa abandonei.

E na adolescência?

Por volta dos meus 14, 15 anos chegou-me às mãos uma edição d’As Flores do Mal, de Baudelaire, e depois tive o contacto com a poesia do Leonard Cohen. Durante cinco anos ouvi muito Leonard Cohen, Doors, Nick Cave. Havia uma violência no Nick Cave e uma melancolia no Leonard Cohen que, associadas à visão de Baudelaire, me fizeram começar a escrever poesia. Além disso, beneficiei de ter um grande professor no secundário, José de Almeida Moura.

Na faculdade também teve professores que o ‘encaminharam’?

Houve alguns que me marcaram: o Artur Anselmo, o Abel Barros Baptista, o Rui Zink e um professor extraordinário de História, Luís Krus. E fora da faculdade beneficiei de ser amigo do Gastão Cruz, que é meu mestre.

Seria mais difícil fazer um caminho na poesia sem ter um mestre ou ‘padrinho’?

Quando digo mestre é no sentido em que o considero o maior poeta português vivo. Ele, o Ruy Belo, Camões e T.S. Eliot são os meus mestres. Dá-se o caso de o Gastão Cruz estar vivo, ser meu amigo há 20 anos e meu interlocutor privilegiado. De resto, ele é bastante crítico em relação aos meus textos.

O que lhe diz ele?

Diz que é preciso limar a linguagem. E tem muita razão. Num tempo um pouco pobre, é importante ouvir essas pessoas que sabem muito, que viveram muito e que são honestas.

O que o impele a escrever?

Um dos poemas deste livro tenta explicar isso. Há a irrupção de uma imagem, de uma cor, de um quadro. E os livros nascem também de situações de crise.

Crise pessoal?

Sim, de crise pessoal. Neste livro há uma secção que tive de escrever por causa da experiência da separação.

Na poesia é importante estar a par do que os outros vão fazendo?

Faço crítica de poesia no Jornal de Letras e em revistas da especialidade há 15, 16 anos. Por isso tenho de estar a par daquilo que os meus colegas fazem. Para já, dá-me a dimensão de que aquilo que escrevo pode não ser nada de extraordinário. Por outro lado faz-te pensar o que pode a poesia dizer. E encontro nos meus colegas respostas que eu gostaria de ter dado.

E que papel pode ter a poesia hoje? Um papel decorativo ou mais do que isso?

Percebo a provocação, mas não é decorativo. É um papel reservado a poucos, feito às ocultas. 

Reservado a um punhado de eleitos?

Não, não acredito nisso. Assim como não acredito na ideia do poeta maldito. A melhor definição de poesia, para mim, é a do Alberto Caeiro: ‘A poesia não é uma ambição minha, é a minha maneira de estar sozinho’.

É professor no Colégio Moderno. As suas aulas são diferentes das dos seus colegas?

É bom que cada professor tenha a sua linguagem própria.

Mas é daqueles professores que mandam rasgar os livros?

Tipo Clube dos Poetas Mortos? Não, não. Sou extremamente conservador.

Sabendo que escreve poesia, os alunos pedem-lhe conselhos?

Alguns mostram-me os poemas. Acho que é preciso ter muito respeito por aquilo que eles escrevem.

Existe algum conselho que possa dar a um jovem poeta que nos esteja a ler?

Leia as Cartas a um Jovem Poeta, do Rainer Maria Rilke. Acho que esse é um bom conselho.