Cultura

Sinatra Jr. (1944-2016): a voz, o rapto e uma carreira na sombra do pai

Tinha uma voz incrivelmente parecida com a do pai e, de certa forma, nunca conseguiu despegar-se da sombra do grande ator e cantor. Frank Sinatra, que usava o sufixo Jr. (embora este não fizesse parte do seu nome) para se distinguir do progenitor, brilhou também como cantor e participou em várias séries de televisão, entre as quais Os Sopranos. Na quarta-feira, dia 16 de março, foi encontrado sem vida no seu quarto de hotel em Daytona Beach, no estado da Florida, momentos antes da hora prevista de subir ao palco para mais um espetáculo. A causa de morte apontada foi paragem cardíaca. Tinha 72 anos.

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«Penso que na minha geração, quando apareci no princípio dos anos 60, o tipo de música que estava em voga na sociedade desses dias tinha evoluído para outro género», disse numa entrevista. E rematou com uma metáfora: «Andava a tentar vender antiguidades numa loja de aparelhos modernos».

Filho de Nancy Barbato Sinatra e do cantor Frank Sinatra, Francis Wayne Sinatra nasceu a 10 de janeiro de 1944 em Nova Jérsia. Durante a infância, pouco contacto teve com o pai, que estava permanentemente envolvido na rodagem de filmes, na gravação de discos e a dar espetáculos pelo país.

Desde cedo que Francis quis ser pianista e cantor. Aos 19 anos atuava como vocalista de uma banda, mas o arranque da sua carreira ficou sobretudo marcado por um episódio bizarro. A 8 de dezembro de 1963, poucos dias depois do assassínio de J. F. Kennedy, dois criminosos amadores que andavam a segui-lo há semanas bateram à porta do seu quarto de hotel alegando ter uma encomenda para lhe entregar. Entrando, puseram-lhe uma venda e levaram-no para um carro.

A 10 de dezembro, um terceiro envolvido pediu um resgate de 240 mil dólares. Segundo a página online do FBI, «Sinatra Sr. juntou o dinheiro e deu-o ao FBI, que o deixou segundo as instruções entre dois autocarros escolares em Sepulveda, Califórnia, nas primeiras horas da manhã de 11 de Dezembro». Libertado, Sinatra Jr. acabaria por ser recolhido em Bel Air, após caminhar vários quilómetros, por um guarda que o levou para casa da sua mãe, Nancy, na bagageira do carro para escapar aos olhares indiscretos dos jornalistas.

Apanhados pelas autoridades, os raptores alegaram que tudo não passaria de um esquema montado por Sinatra (pai) para lançar a carreira do filho. Uma suspeita da qual o jovem cantor nunca se conseguiria libertar.

Tal com o seu pai, além de cantar Sinatra Jr. também participou em filmes e programas de televisão. Não teve nunca, no entanto, um sucesso tão fulgurante. Em 1988 interrompeu a carreira individual para, a pedido do pai, o acompanhar nos seus espetáculos, como diretor musical e maestro.

Após a morte de Sinatra Sr., em 1998, retomou a carreira de cantor. A 22 de Julho de 2001 atuou no grande auditório do CCB, em Lisboa, depois de o concerto do dia anterior, em Santa Maria da Feira, ter sido adiado devido a uma greve da TAP que fez com que os instrumentos da banda não chegassem a tempo.

Quando lhe perguntaram, numa entrevista, “O que lhe ensinou o seu pai sobre o palco?”, respondeu: "Ele não era um homem de muitas palavras. Disse-me apenas: ‘Sê pragmático’”.

Sinatra Jr. participou num episódio d’Os Sopranos em que fazia dele próprio e reconhecia as ligações do pai à máfia (recorde-se que Tony Soprano, o protagonista da série, era justamente o chefe de uma organização criminosa de Nova Jérsia, onde Sinatra nasceu). Apareceu também na série de animação Family Guy.

Embora se lhe apontem três descendentes fora do casamento, tudo leva a crer que Michael, o seu filho legítimo, será o único herdeiro da sua fortuna de 50 milhões de dólares.