Cultura

Contos de clarice, 500 páginas de feitiço

Sai em simultâneo em Portugal e no Brasil a primeira reunião de todos os contos de Clarice Lispector. Cobre uma vida de criação, da adolescência às últimas linhas.

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Primeiro publicado nos Estados Unidos, onde o New York Times o destacou como uma das edições mais importantes de 2015, Todos os Contos sai agora pela Relógio d’Água e habilita-se a ser livro do ano também por cá. Organizada e prefaciada por Benjamin Moser, autor da biografia mais completa da escritora (Clarice Lispector: Uma Vida, Civilização), a coletânea reúne, por ordem cronológica, 85 histórias, escritas entre os 19 e os 57 anos (n. 1920, m. 1977), mostruário de quanto experimentou e atingiu no conto. Moser destaca neste percurso uma rara conjugação de glamour, gramática e feitiçaria, raiz do «amor magnético» que Clarice inspira em tantos leitores. Aqui, o feitiço estende-se por mais de 500 páginas.

Numa crónica de 1970, Clarice explicou: «O que escrevo não se refere ao passado de um pensamento: o que vem à tona já vem com suas palavras adequadas e insubstituíveis, ou não existe». O que a atrapalha ao escrever é ter de usar palavras. «É incômodo. É como se eu quisesse uma comunicação mais direta, uma compreensão muda, como acontece às vezes entre pessoas».

A escritora e jornalista de origem judaica, nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira, gostava de dizer que escrevia «muito simples» («Eu não enfeito»), mas comunicando «o mais secreto de [si] mesma». Estranha e estrangeira, habitante de um universo só dela (clariciano), conseguia olhar para o real e o quotidiano com o fascínio de uma criança muito pequena e a densidade de um velho filósofo. Nos contos, como nas novelas, poemas e nos nove romances, o uso não linear da linguagem e dos registos narrativos, o recurso ao pretérito imperfeito e à não-nomeação das personagens servem esse estranhamento inusitado. Clarice suscita as perguntas mais essenciais a partir das miudezas do quotidiano, atingindo uma simplicidade sincera, mas muito misteriosa, por vezes até opaca.

O mecanismo essencial é o da epifania, desencadeada na personagem por algo banal que, de repente, a impele para o espanto, a dúvida, um outro olhar sobre o mundo. É o que acontece em contos emblemáticos sobre o estatuto da mulher (sobretudo citadina, de meia idade, doméstica) como ‘Devaneio e Embriaguez duma Rapariga’, ‘Amor’ ou ‘A Imitação da Rosa’. Em todos eles, a rotina rígida das imposições sociais é quebrada por um momento de revelação, uma brecha no conformismo e impessoalidade com que é vivido o papel de mulher, mãe e esposa. A hora de questionar a vida irrompe na intimidade da personagem e é uma hora perigosa.

A técnica do ‘estranhamento’ levada ao limite

Clarice, que foi tão política sem o ser, leva por vezes ao extremo esta técnica de estranhamento, como no conto ‘Tentação’, em que uma menina ruiva («numa terra de morenos, ser ruiva era uma revolta involuntária») com soluços, sentada num degrau da porta da sua casa, troca olhares profundos com um basset ruivo e ambos reconhecem no outro a sua cara metade. Por fim, «ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos». No conto tardio ‘Ele Me Bebeu’, o reflexo ao espelho é tão insólito que Aurélia se esbofeteia com brutalidade. Em ‘Ruído de Passos’, também da fase final (em que as narrativas são menos formais, mais imediatas), dona Cândida, 81 anos, pergunta ao ginecologista quando lhe passará o desejo de prazer e acaba «satisfazendo-se», à noite, entre «mudos fogos de artifício». Em cada página de Todos os Contos, Clarice procura alcançar «o símbolo da coisa na própria coisa».

Na última entrevista televisiva (TV Cultura, 1977), com um olhar infinitamente triste porque não estava escrevendo e se sentia morta, indicou ‘O Ovo e a Galinha’ como «um conto que não compreend[ia] muito bem», mas aquele de que mais gostava. Nele estará, talvez, a raiz do olhar estranho, sábio mas inaugural, contido em cada um dos textos de Clarice Lispector: «Olho um ovo com um só olhar. Imediatamente percebo que não se pode estar vendo um ovo. Ver um ovo nunca se mantém no presente: mal vejo o ovo e já se torna ter visto um ovo há três milénios. […] Ver o ovo é a promessa de um dia chegar a ver o ovo. […] Eu te amo ovo».