Politica

A semana mais difícil de Marcelo e Costa?

A semana não foi fácil entre Belém e São Bento. Marcelo pediu várias vezes publicamente "entendimentos" em torno dos contratos de associação e esbarrou na defesa que António Costa fez da política do ministro. Pelo meio, recebeu do Parlamento a dor de cabeça de decidir se promulga ou não a lei das barrigas de aluguer, que já mereceu o repúdio da Igreja, e acabou a descrever o feitio do primeiro-ministro como o de "um otimismo crónico e ligeiramente irritante".

Numa cerimónia de inauguração do instituto de ciências da saúde, o Presidente da República aproveitou o facto de ter o primeiro-ministro na plateia para, em tom bem humorado, se referir a este "otimismo crónico e ligeiramente irritante" e pedir-lhe que tivesse "os pés assentes no chão".

Marcelo Rebelo de Sousa acha que há um país que quando acorda olha para o lado bom da realidade, mesmo sabendo que há um lado mau da realidade. “Escusa é de o fazer de forma excessiva Sr. primeiro-ministro. Mas pode fazê-lo com os pés assentes no chão. Apesar de tudo há otimismos minimamente racionais”, avisou na semana em que Costa optou por desvalorizar os comentários de Bruxelas sobre a necessidade de consolidar as medidas orçamentais deste ano para cumprir as metas do Pacto de Estabilidade.

Costa preferiu olhar para o lado positivo, lembrando que as previsões da Comissão Europeia se têm vindo a aproximar das do Governo português e que os dados da execução orçamental dão-lhe razões para acreditar que não será preciso um plano B.

Marcelo, que a meio da semana, até veio desdramatizar as alterações que possam vir a sofrer as previsões económicas, fruto da conjuntura, veio agora dar um sinal de que Costa pode estar a ser demasiado otimista. Na quarta-feira, o Presidente defendia que as correções nas previsões económicas devem ser feitas "sem alarmismos, mas com lucidez". Ontem, o tom parecia um pouco mais duro para o Governo.

Costa e Marcelo não querem estragar boas relações

Apesar de tudo, nem Costa nem Marcelo querem mudar as boas relações entre Belém e São Bento. Na semana passada, em reação às tomadas de posição do Presidente sobre os contratos de associação, o primeiro-ministro frisou mesmo que Marcelo "não é a rainha" e que o Governo não só acha natural que tenha opiniões como convive bem com isso.

O problema é que a forma como Rebelo de Sousa se foi mostrando "esperançado" em torno de um entendimento na Educação e o facto de terem saído notícias - nunca desmentidas - sobre o trabalho de mediação que estaria a fazer sobre este dossiê nos bastidores fazem com que a posição do Presidente saia fragilizada quando o Governo não dá mostras de querer recuar.

Para já, isso não parece alterar as relações ou causar tensões entre Belém e São Bento, mas a nota de ontem de Marcelo sobre o "otimismo irritante" de Costa não passa despercebida nem à esquerda nem à direita e mostra que o Presidente, mesmo querendo manter as boas relações com o Governo, não se inibe de fazer comentários que nem sempre serão agradáveis ao primeiro-ministro.

Marcelo sabe que a esmagadora popularidade de que goza e que tem vindo amealhar neste meses na Presidência, lhe dão margem para isso, pelo que este recado - mesmo não mudando a relação com Costa - não deverá ser o último reparo de um Presidente que já mostrou não abdicar de ser um ator político ativo e com intervenções diárias sobre os principais temas da governação.

Uma decisão difícil em cima da mesa

Outro dado importante é o facto de esta semana, na mudança de nome do aeroporto de Lisboa, Marcelo ter sublinhado o facto de estar a ser ele "um Presidente de centro-direita" a concretizar a homenagem ao General Humberto Delgado.

Rebelo de Sousa tinha passado a campanha a afirmar-se como "da esquerda da direita" e não será inocente este relembrar da área política que ocupa numa altura em que o tema das barrigas de aluguel lhe chegou à mesa para promulgação.

Esse será sempre um dossiê difícil para Marcelo. A lei da maternidade de substituição foi aprovada por mais do que a maioria absoluta de deputados em efetividade de funções - incluindo 26 deputados do PSD, um deles o líder -, pelo que poderá ser reconfirmada pelo Parlamento em caso de veto político.

Mas a verdade é que há movimentos da sociedade civil que reclamam do facto de ter havido pouco debate em torno do tema e o próprio Marcelo tinha expressado dúvidas sobre a matéria ainda durante a campanha eleitoral.