Cultura

Kamasi Washington: um terramoto chamado saxofone

       

Há gente que não precisa de responder muitas vezes à pergunta ‘O que é que queres ser quando fores grande?’. Gente afortunada, gente que até pode ter querido ser médico ou futebolista mas apenas porque essas foram das primeiras palavras que aprendeu a dizer. Kamasi Washington ainda nem sabia falar e já sabia o que queria ser, culpa do pai, músico de jazz que desde cedo trocou a mobília por instrumentos musicais.

O seu primeiro instrumento - sim, o californiano toca o que lhe pedirem, basicamente - foi o piano. Seguiu-se o clarinete, quando Kamasi Washington ia pelos seus já virtuosos 12 anos. Altura em que o seu sistema foi abalado por um terramoto chamado saxofone, e desta vez o principal acusado deste julgamento é  Wayne Shorter e o tema ‘Sleeping Dancer Sleep On’. Mais uma vez, o seu pai teve culpas no cartório: “Era a minha música preferida. Nessa altura ainda nem tocava saxofone, andava a tocar clarinete, houve um dia que numa pausa de um ensaio lá em casa o meu pai deixou o saxofone em cima da mesa e eu, sozinho, não sei explicar bem como toquei aquilo à primeira no saxofone. O meu pai ficou ‘wow, fixe, fixe’. E foi aí que comecei a tocar saxofone”, conta, via telefone.

Daí até The Epic, disco que em 2015 foi considerado pela crítica uma obra-prima, quase três horas de jazz que não parece vir de Chicago nem dos clubes onde mais estilo nenhum podia passar, Kamasi Washington acumulou histórias por contar, músicas por tocar. Parte dessa epopeia que é a vida do artista vai poder ser ouvida hoje na Casa da Música, no Porto, e amanhã, terça-feira, no Tivoli BBVA, em Lisboa.

Um músico do mundo 

Se o jazz cabe nessa abordagem que é a world music, nessa vontade de vaguear por heranças de geografias distintas, Kamasi Washington nem tanto. Ou, por outra, cabe porque é Kamasi, não por ser porta-estandarte de um movimento de jazz que se escuta de pé descalço e lenço na cabeça. O norte-americano é um músico do mundo, profundo conhecedor da música de todo o mundo, formado em Etnomusicologia na UCLA. A sua sede de conhecimento é, ainda hoje, inesgotável. “Senti que havia tanta música no mundo, e quando saí do secundário percebi que não sabia nada sobre isso, achei que seria interessante perceber as diferenças nas linguagens e na forma de ver, tocar e consumir música. A música é tão vasta... Quanto mais souber, melhor me sinto”, confessa.

No segundo ano de universidade foi à boleia do rapper Snoop Dog por uma digressão americana que o atirou pela primeira vez para palcos enormes e audiências a perder de vista. Essa foi a primeira aproximação a sonoridades como o hip-hop, o r&b ou a soul, algo que tem sido uma constante na sua carreira, acumulando colaborações com artistas como Kendrick Lamar, Thundercat ou mesmo Flying Lotus. Aliás, foi através da editora deste último, a Brainfeeder, que editou The Epic. Mais uma prova de Kamasi Washington vai a todos quantas conseguir: “A música tem muitos rostos,  essas linguagens permitiram-me expandir o meu conhecimento da música em geral, porque a música não pode ser considerada como um conjunto de pequenas caixas, é um todo, é como um bolo”.

Jazz do novo milénio

O estranho, digamos antes curioso, em torno do disco deste génio é o facto de ter rompido circuitos, de não ter ficado guardado na estante do jazz, essa que todos tendem a colocar à parte de tudo o resto. Subitamente começou-se a ouvir jazz nos leitores de mp3, desatou-se a juntar jazz e pop na mesma frase, algo que Kamasi Washington confessa entender: “Sim, sinto que a minha música vem de hoje, é de agora, a minha abordagem é tentar expressar quem sou, e quem eu sou é uma pessoa que vive o dia-a-dia, só que também estou consciente do que já conquistei e portanto quero estar à frente do que já fui”.

Da mesma forma que se assume como saxofonista contemporâneo, influenciado por essas vestes 2.0. que escondem o frio a este universo, parece acreditar que o preconceito que empurrava o jazz para algo pouco comercializável chegou ao fim. “Os músicos de jazz sempre tiveram essa imagem, sempre estiveram na sombra, como ovelhas escondidas no rebanho. Só que isso não é verdade, simplesmente durante bastante tempo era-nos difícil ser outra coisa, acredito que esse preconceito faz parte do passado, há cada vez mais jovens a querer tocar jazz e mais público para os ouvir”. Bom, pelos outros não podemos falar, fiquemos pela certeza de que perder o seu concerto não é uma opção.