Politica

‘É preciso uma geringonça para a Europa’

Porfírio Silva foi um dos defensores da ‘geringonça’ por cá e agora defende uma na Europa. Acredita que será a única forma de resolver problemas como o da dívida.

João Porfírio

Há condições para fazer a reforma da Segurança Social?

Não conheço em pormenor o que está a ser preparado nessa área. Mas o implícito na pergunta é que não foram feitas as reformas necessárias na Segurança Social…

Há essa ideia. Está errada?

Está. É uma área em que têm sido feitas reformas que respondem às necessidades e até quem tem feito as reformas têm sido governos do PS. Há reformas. O que certas pessoas fazem é só lhes chamar reformas quando são as que elas querem. É como a conversa das reformas estruturais: quando ouvimos certas pessoas falar em reformas estruturais, percebemos logo o que querem. É a privatização de setores essenciais, é despedimentos, é flexibilização das leis laborais… Isto não são reformas, são contra-reformas. São movimentos que só têm dado mau resultado para a economia e para as sociedades onde têm sido feitas.

A reforma da Segurança Social tem sido repetida nos alertas da Comissão Europeia e é expectável que haja pressão em relação a isso.

Enquanto a Comissão Europeia raciocinar da forma como raciocina, também vai continuar a dizer que nós precisamos de flexibilizar mais o mercado de trabalho, vai continuar a dizer que nós não podemos tomar conta dos bancos públicos, que temos de cortar nos serviços públicos… Há um conjunto de alertas que, enquanto um conjunto de instituições for dominado por uma certa ideologia, vamos continuar sempre a ouvir a mesma conversa.

Como é que isso se muda?

Nós precisamos de uma geringonça para a Europa.

E isso é possível?

Acho que é necessário. E até digo isso de certa forma em tom autocrítico, porque noutros tempos teríamos dito que precisamos de uma maioria socialista nas instituições europeias. Hoje, já nem é isso. Porque mesmo alguns dos nossos partidos irmãos socialistas e sociais-democratas dizem coisas que nós não esperávamos ouvir e fazem coisas que nós não esperávamos que fizessem. Quando nós vemos um ‘camarada’ a defender os aspetos menos inteligentes da ortodoxia económica, quando vemos um ‘camarada’ a defender que os muçulmanos não entrem no seu país, vemos que a Europa precisa, mais do que de mudar de bloco, precisa de uma aliança de forças muito diversas, algumas da esquerda, outras da direita, que queiram de facto prosseguir outra racionalidade no funcionamento da Europa.

Quando e em que termos deve Portugal tomar uma posição sobre a renegociação da dívida?

A dívida é o exemplo de um problema que toda a gente sabe que é um problema. Não podemos pensar que o caminho mais curto entre dois pontos é uma reta. Isso é na geometria. Em política,  muitas vezes o caminho mais curto para unir dois pontos é dar muitas curvas antes de lá chegar. Se há exemplo que a Grécia e o Syriza deram foi esse. A ideia de que basta ter vontade é realmente o caminho mais curto entre dois pontos, entre o desejo e o desastre. E nós precisamos de uma estratégia muito mais europeia, como aliás era tradição antes deste período de ajustamentos. Na Europa tudo se negociava. É preciso tempo.

E na dívida tem de ser assim?

No tema da renegociação da dívida, ninguém ganha nada em berrar muito alto e em saltar para cima da mesa. É um problema que tem de ser resolvido e será resolvido de forma adequada quando arranjarmos as condições no conjunto da Europa.

Haverá compreensão no BE e no PCP sobre essa necessidade de tempo?

É claro que em Portugal o PS é claramente a esquerda mais europeísta e que no PCP e no BE há perceções diferentes acerca da Europa. Também é verdade que ainda se está para ver se quem tem razão é a esquerda mais europeísta se a eurocética. A nossa determinação é prosseguir um trabalho continuado na Europa para mostrar que é a esquerda europeísta que está certa. Claro, podemos sempre ter derrotas.

Não está à espera de uma derrota em julho com sanções a Portugal?

A imposição de sanções seria completamente irracional e seria injusto. Já foram impostos muitos sacrifícios aos portugueses na fase anterior porque a Europa achou que esse era o programa correto. Agora, querem castigar os portugueses por causa das consequências nefastas do programa que nos impuseram? Agora mudámos de orientação, mudámos de Governo e de maioria e de abordagem à economia. E querem castigar-nos por uma política que é para corrigir os maus resultados da política anterior? É completamente irracional. Sanções pela primeira vez seria juntar crise às crises que a Europa atravessa. Seria um erro.

Quando é que acha que a receita do Governo para a economia pode começar a dar frutos?

Eu não acredito em milagres. Todos os processos sociais, incluindo os processos económicos, não dão resultado de um dia para o outro. Acredito que o triângulo de intervenção deste Governo começa a dar resultados. Digo triângulo porque não é só a reposição de direitos sociais. Sem dúvida que há um pilar que são os direitos sociais, mas há outros dois pilares:  o da economia privada e um que é modernizar o Estado. O Estado não pode nunca ser um peso, tem de ser um parceiro amigável da atividade económica.

Os efeitos não são, assim, para já...

É um processo que vai se calhar ser mais lento do que as pessoas estavam à espera. Não muda tudo imediatamente por causa de um Governo. As coisas vão avançando e acho que estão a avançar.

O que é que fica de melhor destes seis meses de Governo?

A História dirá sem dúvida que este foi um tempo de alargamento da democracia portuguesa. Foi um tempo em que os tabus que existiam e que se podem resumir na ideia do arco da governação foram quebrados. E que se demonstrou que todos os partidos democráticos podem e devem aspirar a fazer parte da solução e não serem só oposição. Independentemente do aumento do salário mínimo, ou das 35 horas, ou da contratação coletiva, que são tudo coisas importantes que estão a ser feitas, o que daqui a 30 ou 40 anos marcará este momento é o ter-se aberto um caminho na democracia que ainda estava por abrir desde a Revolução de 1974.

 Quais são os objetivos mais importantes até ao final da legislatura?

O Programa Nacional de Reformas é um bom sumário daquilo que é importante. A dinamização da economia, a qualificação das pessoas, a valorização do território, a recapitalização das empresas, a modernização do Estado e o reforço da coesão e da igualdade social. Nós não queremos ser todos pobres para sermos todos iguais, nem queremos que uns tenham tudo e os outros nada, nem achamos que o direito do trabalho se impõe ao crescimento económico nem o contrário. Achamos que é preciso que todos ganhem para que o país possa avançar.

Isso é de «um otimismo irritante»?

Nem otimismo, nem pessimismo. Determinação. Em política é isso que conta. O otimismo e o pessimismo são para analistas. A determinação é para quem faz política.