Opiniao

Os limites da irresponsabilidade

Há muito que a SIC ocupa as primeiras horas da sua programação diária com um espaço de leitura de cartas de tarot, “A Vida nas Cartas -O Dilema”. O espaço é, aliás, bastante popular, tal como a sua protagonista, Maria Helena Martins. Pelo que sei, não houve nenhuma substituição na condutora do programa, mas esta partilha agora o espaço com Carla Duarte, especialista naquilo que apelida de “Tarot de Marselha”.

 

No passado dia 2, uma das pessoas que ligou para o tal 760 que promete dar todas as respostas, foi uma mulher de 64 anos, que procurava ajuda para ultrapassar o seu problema. O seu problema é ser vítima de violência doméstica num casamento de dura há já 40 anos. Ora, a ‘especialista’ Carla Duarte começa por explicar que o marido desta senhora procura uma mãe e não uma mulher e que portanto ela deve ser essa mãe e nutrir o seu marido.

Não deve discutir nem deve procurar conflitos. E que se escolheu este homem é com ele que vai ficar porque as cartas não mostram nenhuma separação. Até porque “quando damos amor recebemos amor, mesmo que seja em menor quantidade”.

Esta ‘especialista’ tem um tempo de antena na televisão nacional. Mais, é mulher (não que fosse necessário ser mulher para ser responsável). Vive num país onde o número de vítimas de violência doméstica não tem diminuído, bem pelo contrário, e onde regularmente sabemos de notícias de mulheres mortas - aliás, assassinadas - às mãos dos companheiros.

E, ainda assim, em nenhum momento lhe ocorre dizer que, quando se é vítima de violência doméstica há 40 anos, não há carta de tarot que possa ajudar. Há, isso sim, plataformas como a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, com uma linha gratuita (ao contrário da linha do tarot), o 116006. Enquanto continuarmos a insistir, todos e todas, neste discurso irresponsável e paternalista, de fechar os olhos e assobiar para o lado, vão continuar a morrer mulheres. Pelo simples erro de um dia se terem apaixonado pelo homem errado.