Opiniao

Costa que se demita

O governo rasgou as posições conjuntas e a estabilidade política morreu. Ninguém dissolve a Assembleia?

Desculpem, mas Marques Mendes tem razão. Chumbar a descida da TSU com o Bloco de Esquerda é um erro porque se vivessemos num país a sério alguém dizia o óbvio: que a esquerda chumbar o acordo de concertação social significa que as posições conjuntas caíram, a estabilidade política que serve de razão-de-ser deste governo morreu e a Assembleia da República tem que ser dissolvida.

Sem as esquerdas, o governo de Costa é tão minoritário quanto seria o governo de Passos, com a pequena grande diferença de não ter ganho eleições e ter menos representação parlamentar.
 
Mais: no acordo que o atual governo assinou com Os Verdes – um dos membros da ‘geringonça’ – estava prometido: “Não constará do Programa de Governo qualquer redução da TSU das entidades empregadoras”. No acordo com o Bloco firmara-se também: "Não constará do programa de governo qualquer redução da Taxa Social Única das entidades empregadoras". 

Costa violou então as posições conjuntas, a esquerda ajudará a chumbar a concertação social e o governo minoritário do PS perde toda a sua legitimidade.  

Marques Mendes tem razão porque se fossemos a eleições hoje, depois do chumbo do acordo, António Costa permaneceria primeiro-ministro e o PSD só se prejudicaria a si mesmo.
 
Claro que nada disto interessa porque não vivemos num país a sério e ninguém quer dissolver nada antes das autárquicas.
 
A direita sabe que só recentemente Costa começou a ver alguma popularidade reduzir-se e que precisa de aguardar que os índices de aprovação do primeiro-ministro estejam menores para valer a pena ir às urnas. Neste momento, aliás, o CDS-PP nem tem candidato a primeiro-ministro, pois Assunção Cristas está dedicadíssima à sua candidatura para Lisboa. 

O PS começa a compreender que a aprovação popular, “a paz social” e a ausência de desventuras económicas não são eternas e talvez nem volte a estar em circunstâncias tão simpáticas como as contemporâneas, mas Marcelo Rebelo de Sousa definiu as eleições autárquicas como meta e não convém aos socialistas perderem sintonia com a presidência.

O chumbo do acordo em concertação social e o modo como o PS se obrigou a negociar ignorando o que prometera à esquerda comprovam a vulnerabilidade das posições conjuntas. Estavam condenadas ao desacordo desde o início. 

António Costa ainda é primeiro-ministro em nome de quê? É que eleições, não ganhou. E o acordo que fez depois delas, não cumpriu.