Opiniao

Como a Intolerância dos Democratas ajudou Trump a conquistar a Casa Branca

Um dos maiores paradoxos que caracterizam as sociedades modernas é o facto de se auto-intitularem livres e democráticas, ao mesmo tempo que erguem dogmas incontestáveis, com o intuito de sonegar e infantilmente adjectivar todos aqueles que se atrevem a questioná-los. Todavia, nem sempre esta estratégia beneficia quem a adopta.

A surpresa e a perplexidade gerada em torno das eleições presidenciais americanas ficaram muito a dever-se ao número de sondagens que previram um desfecho bem diferente daquele que acabou por se verificar.

Senão vejamos: entre as onze principais sondagens, apenas duas, da autoria do Investor's Business Daily e do LA Times/USC, anteciparam uma vitória de Trump. Com efeito, horas antes de as urnas abrirem, ao serem publicadas as últimas sondagens, Hillary Clinton surgia como favorita, com uma vantagem de 2,8% em relação ao seu oponente no agregado das intenções de voto. Para este resultado contribuíram os maiores canais de TV americanos, de que são exemplo a NBC, CBS, CNN, Fox, Bloomberg e a ABC. Mas como em várias outras ocasiões na vida, ‘quality trumps quantity’ – a qualidade supera a quantidade. De facto, as empresas de sondagens que indicavam uma vitória de Trump foram as mesmas que tinham sido mais certeiras em 2012, quando Obama bateu Romney, legitimando assim o seu segundo mandato, e que regressaram em 2016 para as últimas presidenciais.

Todavia, esta reflexão não termina (nem se centra) numa lógica de qualidade-quantidade, mas antes em algo mais revelador sobre o período de ‘liberdade de expressão’ que atravessamos.

Assumidamente, estas eleições tiveram como pano de fundo um discurso polarizador de ambas as partes da contenda. Meses antes do dia de todas as decisões, a candidata democrata à Casa Branca não se coibiu de apelidar «metade dos apoiantes de Trump» como «um bando de deploráveis». Não satisfeita com um único rótulo, brindou-os com um vasto leque de adjectivos: racistas, sexistas, homofóbicos, xenófobos, islamofóbicos, etc. E ao longo de ano e meio de disputa eleitoral não foram poucos os meios de comunicação e os opinion makers americanos que fizeram eco dos ataques de Hillary. O Huffington Post deu-lhe razão, enquanto o New York Daily News reforçou a classificação, estendendo-a a «quase todos os trumpistas».

Ora, sabendo que a chamada telefónica constitui a metodologia utilizada pela maioria das empresas de sondagens, muitos dos ‘deploráveis’ não se sentiram confortáveis para divulgar a sua intenção de voto ao telefone, em especial quando alguém do outro lado da linha, para além do seu número pessoal, poderia ter acesso à sua morada e a outros dados pessoais.

E é precisamente este o ponto-chave: a inibição dos apoiantes em expressar o seu apoio em público e a partilhá-lo com agentes alheios (um estigma documentado por alguns operadores de sondagens e por agentes de ambos os partidos) precipitou um falso sentido de confiança dentro do quartel-general de Hillary. Ainda o mês de Agosto não tinha chegado e já surgiam notícias de que «as sondagens dão uma vantagem tão clara» à candidata, que esta «já não se preocupa com Donald Trump», estando próxima de «dizimar» este seu opositor na arena política.

As manobras da campanha democrata com base em sondagens externas e internas evidenciam o quanto esta percepção de vantagem pode ter sido fatal para as pretensões da democrata: o Wisconsin, um dos territórios mais disputados e decisivos desta eleição, não foi visitado por Hillary uma única vez. Donald Trump, por seu turno, foi lá cinco vezes, a última das quais a sete dias das eleições. Note-se que as sondagens davam uma vantagem de 6.5% a Clinton nas vésperas eleitorais, mas acabou por ser conquistado pelos republicanos por uma margem de 0.7% (cerca de 22 mil votos de diferença). Em sentido inverso, quando faltavam oito semanas para a campanha terminar, Hillary canalizou recursos e atenção para o estado da Georgia, que viria a perder de forma clara por 5.1% (mais de 200 mil votos).

Não deixa de ser curioso que, numa era de relativismo moral – em que tudo o que não é transacionável não tem valor –, esta disputa política tenha sido marcada por uma superioridade moral que tendia a classificar qualquer apoiante de Trump não como um eleitor com vontade, com pensamento e com uma posição política fundamentada e própria, mas como um simples «preconceituoso intratável». Por demasiadas vezes, a discussão foi transportada para uma dicotomia pueril entre a equipa dos ‘bons/tolerantes’ e a equipa dos ‘maus/cheios de ódio’. 

Esta estratégia de demonizar a contraparte acabou por prejudicar o lado que alegadamente representava a ‘tolerância’.

Após a tomada de posse de Donald J. Trump como o 45º Presidente dos EUA será oportuno os democratas (de todas as democracias ocidentais) fazerem uma reflexão.