Cultura

Hélder Moutinho: 'A música serve como arma'

1987 marca o regresso do fadista Hélder Moutinho aos discos. Dividido em quatro histórias, cada uma delas escrita por um autor diferente, o disco aborda temas como a liberdade, o amor e a Mouraria.

este álbum chama-se 1987. o que tem este ano de tão especial?

todos nós temos um período da nossa vida que nos marca mais. a época mais importante da minha vida, e que definiu a minha personalidade, foi esta, quando fiz 18 anos. esta reflexão surgiu quando comecei a pensar neste trabalho e, como faço sempre discos conceptuais, decidi que a história que queria contar tinha a ver com essa época em que vivi os meus dias da liberdade, no final da minha adolescência e início de ser adulto.

o disco está dividido em quatro histórias, com quatro poemas cada. a sua intitula-se os dias da liberdade. porquê?

porque, no fundo, é uma autobiografia e quando comecei a escrever o primeiro tema do disco, percebi que era dedicado ao tempo de onde venho, os anos 80, em que aconteceram coisas fantásticas e o país atravessou um momento de liberdade fantástico. depois, passado este tempo todo, dei comigo a ver notícias sobre a crise, problemas económicos e sociais, valores a perderem-se e uma grande falta de solidariedade entre humanos. como demoro normalmente cinco anos para fazer um disco, tenho sempre de sentir que eles aparecem no momento certo.

a liberdade hoje é um bem escasso?

é, porque a liberdade não diz respeito só à liberdade de expressão. para se ser livre também é preciso não ter intolerância, egoísmo, mentira, incompreensão... esse é um dilema dos dias que vivemos ou da idade adulta?

é uma mistura, mas a maior ameaça à liberdade é causada pelos dias de hoje, pela maneira em que todos vivemos. as pessoas começam a esquecer-se de serem solidárias umas com as outras. é preciso haver mais tolerância.

como fadista é inevitável cantar temas que o perturbam?

sim, acho que a nossa música, seja ela qual for, serve como arma. pelo menos para mim, a música não é, de forma nenhuma, um processo de exibição. é um processo de expressão. é a ferramenta para exprimir aquilo que acreditamos. acho que também temos o dever de fazer as pessoas sentirem, à flor da pele, uma série de coisas que estão lá dentro e que é preciso despertar.

convidou três poetas – joão monge, josé fialho gouveia e pedro campos – para participar no disco. não quis escrever tudo sozinho?

tenho um sonho antigo que é escrever um livro de poesia e quando comecei a preparar este trabalho passou-me pela cabeça reunir essas coisas que fui escrevendo ao longo dos anos e lançar um livro/disco conjunto. mas acho que ainda não tenho repertório suficiente para escrever um livro de 300 páginas, como a mensagem [de fernando pessoa]. depois de pôr essa ideia de lado, pensei em contar uma história num disco, mas dei por mim a pensar que não tenho uma história em 12 temas. lembrei-me, então, de contar quatro histórias, escritas por quatro poetas diferentes, do meu tempo. isto também tem a ver com a minha mania de achar que as pessoas têm de estar unidas.

os poetas tiveram liberdade para contar as histórias que quiseram?

o joão monge e o josé fialho sim, foram eles que escolheram as suas histórias. e é engraçado que, apesar de terem sido escritas separadamente, elas acabam por se entrelaçar uma na outra. já o pedro campos preferiu escolher o tema comigo e eu sugerir duas histórias da mouraria – a da maria cruz (uma fadista que vive numa aldeia e vem viver para a mouraria porque tem um desgosto de amor) e a da rosa maria (uma mulher da vida). este meu interesse pela mouraria surgiu porque, como além de fadista também sou manager, comecei a redescobrir o bairro por causa da gisela joão. ela veio do porto para lisboa sozinha e veio viver para a mouraria. comecei a redescobrir a mouraria por causa dela, a sentir uma série de coisas interessantes e, como sou fascinado por bairros populares, achei que era um bom tema para o pedro campos explorar.

esse fascínio vem de onde?

há uma coisa fantástica nos bairros populares que são, para mim, os condomínios privados do povo. mas têm uma grande vantagem: ao contrário dos condomínios de luxo, nestes bairros populares toda a gente se conhece. se a senhora de 80 anos não pode ir à rua comprar legumes para fazer a sopa, a vizinha vai comprar por ela. se não tem nada em casa para comer, a vizinha diz logo: ‘fiz agora uma sopinha, quer um bocadinho?’. ninguém passa fome nos bairros populares, as pessoas ajudam-se muito umas às outras e essa solidariedade é importantíssima.

gravou 1987 no palácio marquês de tancos, precisamente na mouraria. não quis ir para um estúdio tradicional?

não gosto da claustrofobia do estúdio e quando o frederico pereira, o produtor, me sugeriu gravar o disco num espaço acusticamente mais interessante, adorei logo a ideia. mas andamos por lisboa inteira à procura de um espaço, cheguei a ver sites de aluguer de casas antigas e não encontrávamos nada, além de ser tudo caríssimo. até que um dia, em conversa com um amigo, ele falou-me neste palácio da egeac e, como trabalho com eles há anos, consegui ficar lá um mês, praticamente a viver. a gravação durou cerca de 15 dias, comigo numa sala, com chão de madeiras corridas, e os músicos noutra, com chão de pedra e azulejos. o disco ficou com uma sonoridade interessantíssima, com aquelas imperfeições todas, no bom sentido, que não são artificiais. ?

alexandra.ho@sol.pt