Cultura

Afonso Cruz: O Oriente aqui tão próximo

Em Para Onde Vão Os Guarda-Chuvas, Afonso Cruz aventura-se num território quase proibido: a dor da perda de um filho e as tensões entre muçulmanos e norte-americanos.

quando afonso cruz decidiu ter aulas de hebraico não imaginava até onde poderia chegar a imaginação de uma professora israelita perdida na tradução. o escritor tinha curiosidade pela língua, assente numa curiosidade ainda maior pelo oriente.

depois de várias aulas individuais (tinha duas por semana), o aluno alto, de barba negra comprida, cabelo rapado e tez morena, disse à professora: “para a semana não venho, tenho um bilhete reservado para o paquistão”. há muito que este país lhe povoava o pensamento, mas desistiu da viagem porque não conseguiu marcar lugar num voo de regresso. não quis arriscar ficar retido no país asiático e acabou por ir até à europa de leste.

quando regressou a portugal desistiu das aulas de hebraico e nunca mais viu a professora. até que um dia conheceu outra pessoa que tinha aulas com ela e lhe contou que a senhora viveu tempos de agonia. “tinha passado os dias todos em pânico, durante as aulas a que eu fui antes de ir viajar, porque julgava que eu era paquistanês e que ia lá para a matar e ia deixar lá uma bomba. todos os dias ficava imenso tempo a rezar com medo de que eu a matasse. mas continuava-me a receber e tratava-me impecavelmente”. afonso cruz nunca desfez o engano.

inspirado numa história de gandhi

agora, com a publicação de para onde vão os guarda chuvas, talvez a professora perceba que tudo não passou de um erro. o romance, cuja acção decorre num país oriental nunca nomeado mas que poderá ser o paquistão – que afonso, que já viajou pelo médio oriente, conhecendo países como a turquia, síria, egipto, jordânia, líbano, não quis nomear por nunca lá ter ido –, debruça-se sobre fazal elahi, vendedor de tapetes, a quem o exército americano mata um filho. e que, numa impossível tentativa de consolação, acaba por adoptar uma criança norte-americana.

a ideia surgiu através de uma história sobre gandhi. “não sei se é mito urbano, se é história verdadeira. mas é muito bonita. um hindu chega ao pé de gandhi com um filho morto nos braços. diz que foram os muçulmanos que fizeram aquilo, perguntando-lhe o que deve fazer. e gandhi responde-lhe: ‘agora, adoptas uma criança muçulmana’. portanto, não só perdoa o que os outros fizeram como vai além disso. começa-se assim a quebrar um ciclo de ódio, resolvendo-se um problema social. peguei nessa história e coloquei-a noutro contexto: num país muçulmano, uns soldados americanos matam um filho de um muçulmano. e, à boa maneira oriental, ele decide colar cartazes a dar a sua fortuna a quem mitigar a sua dor. ao que aparece um hindu, com a mesma ideia do gandhi: o que tens de fazer é adoptar uma criança americana. essa é a linha condutora do livro”.

a perda de um filho

foi com este mote que o romance foi crescendo. começou por ser pouco mais que uma novela, não tendo sequer 200 páginas. mas uma publicação sucessivamente adiada por vários motivos editoriais (desde a falência de uma distribuidora à mudança de chancela do autor da quetzal para a objectiva, à publicação de jesus cristo bebia cerveja) fez com que afonso cruz retornasse ao manuscrito, uma e outra vez. a cada volta, escrevia novos capítulos, novas histórias que se foram sucedendo até que o que começou com pouco menos de 200 páginas transformou-se num romance de 600, sobre um dos mais difíceis temas de tratar em literatura: a dor da perda de um filho.

pai de dois filhos, afonso cruz não se esquivou a esta reflexão. “a vontade de o escrever é porque tenho esse medo. quando o meu primeiro filho estava a dormir no berço, ia lá imensas vezes ver se ele estava a respirar, se estava tudo bem. passamos imenso tempo em pânico. e isso não nos passa, continua quando forem adolescente, adultos. é um medo recorrente para quem é pai. por isso, e por ser uma das perdas mais violentas, é que quis escrever sobre o tema. e acho bonito que seja através dessa, que é a maior perda de todas, e a que nos justifica melhor o ódio, se consiga superar e acabar com o ciclo do ódio”.

mas o livro não se limita à comovente história de fazal elahi. a abrir, em jeito de prólogo, há um pequeno conto ilustrado pelo escritor (que é também ilustrador): história de natal – para crianças que já não acreditam no pai natal. se de início não se entende muito bem por que ali está, à medida que se avança no romance percebe-se a relação.

no final, como apêndice, encontram-se os fragmentos persas, livro com um conjunto de parábolas ao jeito oriental que uma das personagens vai profusamente citando ao longo do romance. como, por exemplo: “15. faremos com que exista apenas uma coisa absolutamente errada: a verdade absoluta”. ou ainda: “54. encheremos o mundo de coisas preciosas. serão tantas que os homens passarão por elas julgando-as banais”).

um homem dos sete ofícios

pelo meio, e em paralelo com o a história deste pai que perde o filho, está um oriente mágico, feito de tapetes e dervixes, ecos dos muezzins a chamar para a oração, palmeiras, cachimbos de água e rota das sedas, e o dos jornais, feito de trabalho infantil, crianças mortas e meninos de rua, homens que se explodem e pessoas explodidas, soldados, jornalistas ocidentais desiludidos e violência exacerbada.

são mundos que co-existem, como as histórias, em paralelo. tal como as várias artes co-existem na vida de afonso cruz. músico, ilustrador, realizador de filmes de animação, escritor, aos 42 anos este é um homem dos sete ofícios – se bem que o ofício da escrita, que começou há apenas cinco anos, com a publicação de a carne de deus, tem vindo a assumir preponderância. desde então, já editou 11 livros, cinco deles este ano, assinalando os cinco anos de vida literária: o livro do ano, enciclopédia da estória universal – arquivos de dresner, o cultivo de flores de plástico (teatro), assim, mas sem ser assim – considerações de um misantropo (para os mais novos) e este para onde vão os guarda-chuvas. e venceu o prémio da união europeia de literatura 2012 por a boneca de kokoschka.

e porque a escrita consome, efectivamente, a maior parte do seu tempo, os the soaked lamb têm tocado menos, as ilustrações que faz são sobretudo as que figuram nos seus próprios livros e o cinema de animação ficou para trás. nada que o preocupe. foi uma evolução natural e está satisfeito: “o esforço despendido na escrita é muito maior. por isso, o resultado também é mais gratificante. o escritor tomou um bocado conta da minha vida”.

rita.s.freire@sol.pt