Cluj. Húngaros, ferroviários, o Drácula e o rapaz de Benavente

O novo campeão da Roménia teve as suas raízes no Império Austro-Húngaro. Agora tem um capitão português: Camora, que já tem mais de 200 jogos pelo clube

Cluj-Napoca é geralmente reduzida apenas a Cluj. Cidade interessante que nos últimos anos se tornou um centro estudantil de grande importância no leste de uma Europa renovada. Para os que gostam de coisas mais mórbidas, é igualmente capital da Transilvânia, e a Transilvânia tem sido ao longo dos séculos a região dos vampiros que povoam as páginas de livros, as cenas de filmes mais ou menos macabros e os pesadelos de uma ou outra alma mais sensível.

Há um fundo de verdade no mito dos adoradores de sangue. Não bem em Cluj, mas em Mores, um dos 16 condados da região que confina com os montes Cárpatos, terra de Vlad Tepes, ou Vlad iii, um dos grandes combatentes das investidas otomanas, que tinha um prazer especial em empalar os adversários capturados com vida, atravessando-os com uma estaca que lhes entrava pelo ânus e saía pela boca, não se coibindo de lhes beber o sangue, não pelo método de chupar carótidas, nada disso, mas mais pela banalidade de o sorver de malgas.

Deixemos em paz o bom do Vlad, o Empalador, e o seu pai, Vlad ii, membro de uma sociedade cristã romana conhecida por Ordem do Dragão. Ora, dragão em romeno, a mais solitária das línguas latinas, diz-se dracul. Depois, claro, transformou-se em Drácula.

Campeão da Roménia este ano, o Cluj formou-se como Kolosvári Vasutas Sport Club em 1907. Fazia então parte do Império Austro-Húngaro e foi fundado por húngaros, algo que lhe deu sempre uma aura de certa forma particular. Hoje em dia tem o nome completo de Caile Ferate Române 1907 Cluj, ou seja, o Clube dos Caminhos-de-Ferro Romenos, e tem acolhido vários jogadores e técnicos portugueses, sendo o atual capitão de equipa Mário Jorge Malico Paulino, mais famoso pela alcunha de Camora, defesa esquerdo, nascido em Benavente, em setembro de 1986, e que já conta com mais de 200 jogos efetuados pelo clube romeno. Nunca teve grande presença no futebol nacional, com passagens breves pelo Beira-Mar e outra, não tão breve, pela Naval 1º de Maio, estando em Cluj desde 2011.

Tardios

Este é o quarto título de campeão conquistado pelo Cluj e há que dizer que, neste aspeto, é um clube serôdio. Só a partir do início dos anos 2000 é que se instalou de forma segura na i Divisão romena e os campeonatos conquistados são todos recentes: 2007-08, 2009-10, 2011-12 e 2017-18. Esta época, o troféu era especialmente apetitoso, se assim podemos dizer, porque coincidia com a 100.a edição da i Liga da Roménia. A equipa comandada por Dan Petrescu, antigo jogador do grande Steaua de Bucareste do final dos anos 80, deixando a uma distância razoável o campeão anterior, o Vitorul Constanta, treinado por Gheorghe Hagi, tido por muitos como o melhor jogador romeno de todos os tempos, e que não foi além do quarto lugar.

A nova vida do Cluj começou com a entrada de um grande investidor, a Ecomax, sociedade desportiva pertencente ao milionário húngaro Árpád Pászkáni. Primeiro, a evolução vertical repentina. Depois, os escândalos.

Em 2003, Pászkáni foi acusado de vários casos de corrupção a árbitros. As acusações acabariam por cair como um castelo de cartas e, pouco tempo depois, os ferroviários de Cluj estavam de volta à divisão principal, da qual estavam afastados desde a época de 1975-76.

Com jogadores como Adrian Anca. Sorín Oncica ou Dorinel Monteanu, participou pela primeira vez numa competição europeia, a sempre meio estranha Intertoto, tendo chegado mesmo à final, eliminando alguns fidalgos como o Athletic Bilbao e o Saint-Étienne, para perder a taça para o Lens. Viriam anos mais brilhantes a caminho.

A época de 2007-08 foi extraordinária. Pela primeira vez em 20 anos, uma equipa de fora de Bucareste tornava-se campeã da Roménia. Só isso demonstrava que Cluj fazia agora parte do grande futebol do país e tal ideia reforçou-se com a conquista da Taça e completando a dobradinha.

Veio a Liga dos Campeões!

A maioria dos adeptos do ferroviário da Transilvânia nunca tinham imaginado ser possível verem o seu clube enfrentar adversários como o Chelsea ou a Roma. Muito menos adivinhar que na fase de grupos iriam ser capazes da proeza de bater os romanos na sua própria casa por 2-1. Era o auge!

Mais portugueses ficaram nos registos do clube. Jorge Costa, como treinador, por exemplo; ou o guarda-redes internacional Beto.

O dinheiro não dura para sempre, como costuma dizer o povoléu.

Uma crise financeira abalou as estruturas do Cluj em 2014. Vários jogadores queixaram-se de ordenados em atraso e rescindiram contratos. A federação chegou mesmo a obrigar a equipa a entrar no campeonato com 24 pontos a menos, decisão depois anulada por um tribunal arbitral. Finalmente, o empresário romeno Marian Bagacean comprou 62% do clube e recuperou a sua imagem. Que surge agora com o brilho inusitado de um campeão surpreendente.