Fontes, Duarte Pacheco e o progresso

Nunca sabemos se as coincidências o são mesmo. Estava a ler o livro de Maria Filomena Mónica sobre Fontes Pereira de Melo (Alêtheia, Lisboa, 3.ª ed, 2010) quando me chegou às mãos uma excelente publicação, julgo que da iniciativa do Instituto Superior Técnico, sobre Duarte Pacheco (Althum.com, Lisboa, 2011).

ambos fizeram muitas obras neste país e ambos sofreram muito por causa do que quiseram fazer.

imagine-se: fontes pereira de melo quis introduzir o caminho-de-ferro em portugal mas ouviu de tudo. oliveira martins chegou a escrever: «o caminho de ferro é um instrumento de uma energia incomparável, sem dúvida, mas é um instrumento apenas. aplicado a um organismo são e capaz de o suportar, revigora-o; aplicado, porém, a um organismo depauperado, extenua-o. pelos caminhos-de-ferro, esquecemos a terra, mãe omnípara de toda a riqueza». (o.m., fomento rural e emigração, lisboa, guimarães, 1956).

na página 129 do livro sobre duarte pacheco escreve-se que oitenta anos volvidos, e nas palavras do próprio, decretava-se o restabelecimento do «antigo ministério das obras públicas, para nele se promover a concentração de todas as obras de fomento que interessam à melhoria dos serviços do estado e das condições económicas da nação».

ora, nesse texto do livro escreve-se sobre duarte pacheco. «o antigo ministério das obras públicas ao qual duarte pacheco se referia era o ministério de fontes pereira de melo».

este antigo presidente do conselho deixou 6.500 km de estradas, 1.500 km. de caminhos-de-ferro e 6.000 km de linhas telegráficas. nem todas essas obras a ele se devem. mas a esmagadora maioria é de sua responsabilidade.

e note-se que, como escreve a citada autora, «as ideias de oliveira martins assumiram, durante décadas, o estatuto de verdade indiscutível». e logo acrescenta: «e, no entanto, não se vê como portugal se poderia ter desenvolvido sem uma rede de transportes».

hoje em dia, como se sabe, as populações clamam contra o encerramento de ramais ferroviários por entenderem que isso representa um grande golpe nas suas aspirações de combate à decadência e à desertificação.


‘o sonhador de grandes coisas’

quanto a duarte pacheco, sabem o que lhe devemos, entre outras obras?

por exemplo, o aeroporto de lisboa, o estádio nacional, a marginal lisboa-cascais, o instituto superior técnico, o instituto nacional de estaística, a fonte luminosa, as gares marítimas de alcântara e da rocha do conde de óbidos, o parque de monsanto, etc. isto, só na zona de lisboa. notável! por todo o país foram 500 km de estradas nacionais e municipais, obras profundas nos portos de leixões, viana do castelo e setúbal, e muitas de hidráulica agrícola. construiu vários bairros sociais. urbanizou as zonas envolventes dos palácios de queluz, da ajuda e dos jerónimos. a que se devem juntar hospitais e muitas, muitas escolas e liceus.

a sua política de solos foi revolucionária e as suas expropriações incomodaram muito. como se escreve nesse livro, depois do 25 de abril a ponte salazar mudou de nome mas o viaduto duarte pacheco, obra do notável ministro que foi também presidente da câmara municipal de lisboa, manteve a justa designação.

sobre o estadista escreve, nessa obra, na pág. 25, sandra vaz costa: «a vida de duarte pacheco foi curta: 43 anos, 7 meses e 7 dias. nesse mesmo espaço de tempo angariou admiradores e adversários. a sua presença não foi discreta e a sua forma de fazer política não foi consensual… a classe política estremecia à exposição das suas ideias e o governo oscilava entre o temor do embaraço e a certeza da obra feita». sobre ele, os seus opositores lançaram um dito: «a pior província do país é o algarve. a pior vila, loulé. a pior família, os pachecos. e o pior dos pachecos, o duarte». muitas vezes portugal é assim.

os seus admiradores chamaram-lhe ‘o edificador’. cottinelli telmo, outro grande criador, chamou-lhe o ‘sonhador de grandes coisas’.

em portugal ataca-se quem faz obra

esta semana escrevo sobre estes dois nomes grandes da história próxima de portugal por uma razão simples: para incentivar todos os que têm de tomar decisões difíceis em nome de portugal ou de uma região, ou de um concelho, ou de uma freguesia, a não esmorecerem.

esses dois homens tiveram de ouvir muito ataque. de duarte pacheco disseram, por exemplo, que o técnico era um horrível conjunto de caixotes. a fontes pereira de melo acompanhou-o sempre a fama de ‘perdulário’. foram nomeados, substituídos, afastados, nomeados de novo.

portugal passa muito tempo a discutir e a impedir que se decida. importa ouvir mas não ter medo de decidir. fontes pereira de melo fez o que entendia dever fazer e, hoje, o seu nome liga, na capital de portugal, o centro à praça do saldanha.

duarte pacheco agia mais depressa do que o som das palavras dos seus críticos e hoje, como disse, tem o seu nome no viaduto que liga a auto-estrada ao centro de lisboa. estão, aliás, essas vias na continuação uma da outra.

muito importante: na obra sobre o ministro mais famoso dos muitos que salazar teve, escreve-se na pág. 146: «duarte pacheco percebeu cedo que em política não se vive, apenas se sobrevive e ainda assim com uma equipa. e a sua maior força, a sua maior autoridade, advinha da equipa que formou».

portugal tem muitos exemplos da ‘gente’ que faz andar o país para diante. convém lê-los. felizmente, também temos quem estude, investigue e escreva muito bem. como os autores das obras aqui referenciadas.