Ninguém morreu em Pedrógão Grande? António Costa diz que a «tragédia não se mede pela dimensão dos números», portanto, mais uma vida, menos uma vida, era indiferente? Entre duas e duzentas mortes não há diferença?
A prioridade do primeiro-ministro nunca foi aqueles que perderam a vida no incêndio. Foi fabricar a melhor narrativa sobre «os 64» que nunca foram só 64; e não precisamos de listas alternativas, ultimatos ou leis da rolha para o perceber. Foi o governo que se denunciou.
A partir da altura em que o ministério da Justiça admitiu que sabia «desde o primeiro momento» da morte de uma 65.ª vítima, por atropelamento, o Governo passou a tratar a lista dos primeiros 64 como mortes ‘diretas’. Até aqui, os critérios de divisão das vítimas não eram conhecidos ou sequer assumidos. Costa remeteu-os para as «autoridades técnicas», que neste caso são o Instituto de Medicina Legal, que é por sua vez titulado pelo ministério da Justiça, logo, pelo seu Governo.
Vários jornais, incluindo este, têm perguntado consecutivamente às várias pastas do Executivo acerca da existência de uma lista de vítimas ‘indiretas’, passíveis de serem ‘diretas’ quando o inquérito terminar. A resposta, se existem mais mortos conhecidos pelo Governo «desde o primeiro momento», não é dada.
Acreditar que alguém atropelado numa estrada em que não se via nada devido a fumo não é consequência direta de um incêndio ultrapassa a retórica: já é desumanidade.
É, nesse sentido, absurdo que os partidos políticos tenham passado os últimos dias a discutir os nomes da lista dos 64 mortos quando a verdadeira incógnita é o número de mortos a que o Governo não responde. E a direita também falhou por isso.
Hugo Soares, que alegadamente lidera a oposição parlamentar, teve uma primeira semana a roçar o brilhantismo.
É surreal que o mesmo deputado que está em vias de ser investigado pelo Ministério Público por proximidade à Olivedesportos - há inquérito-crime aberto à empresa - tenha andado a fazer de avaliador do Ministério Público. «O MP andou bem», considerou Hugo Soares após a procuradoria revelar os nomes das 64 vítimas de Pedrógão. Oxalá continue a andar.
Depois de ter pressionado o primeiro-ministro a levantar o segredo de Justiça de uma investigação do Ministério Público, com que legitimidade é que o PSD vai criticar o desrespeito de António Costa pelas instituições independentes? Com que legitimidade fica o PSD para defender a separação de poderes depois de gabar-se de ter sido a sua pressão a fazer o MP levantar o segredo de Justiça?
A resposta: nenhuma. O culpado: Hugo Soares.
Antes, era o PS que tinha um ex-líder, José Sócrates, em guerra aberta com a Justiça. Agora, é o PSD que tem um líder de bancada a utilizar a Procuradoria-Geral da República para fazer política. A ‘geringonça’ agradece.
No fim, emergindo de um raro silêncio, apareceu Marcelo Rebelo de Sousa.
Em quinze segundos, o Presidente da República meteu a turma em ordem: saudou a «comunicação social livre», que fora atacada por um porta-voz do Partido Socialista, a autonomia do Ministério Público, que fora colocada em causa pelo Partido Social Democrata, e lembrou que «em ditadura» é que se censura a verdade das tragédias.
Esses foram os melhores quinze segundos de Marcelo desde que chegou a Belém.
