Cultura

Gonçalo Cadilhe: "Gosto muito de regressar aos sítios onde fui feliz"

O viajante profissional acaba de lançar um novo livro com 99 destinos e experiências de viagens. O autor confessa que se sente apaixonado pelo seu modo de vida, mas admite que as viagens foram hoje em dia banalizadas.

Lançou agora o livro O Esplendor do Mundo onde destaca 99 destinos. Por que não cem?

É para dar ideia de um trabalho incompleto e de uma quantidade que não chegou ao limite. O número 99 é a minha pequena provocação e também de deixar bem claro que esta não é uma lista definitiva, mas é uma lista óbvia dos percursos que tenho feito até hoje. 

Vai então haver continuidade?

Não sei se a vida vai continuar a ser tão intensa como a que tenho tido até hoje para que seja possível, daqui a uns anos, acrescentar um segundo volume. Mas certamente que estes 25 anos deram material suficiente para ter «autoridade» de avançar com este livro. São 99 lugares que acho que são bastante representativos do esplendor do mundo, independentemente do meu gosto, ou seja, dentro destas 99 propostas várias foram consensuais e outras foram resultado de uma experiência pessoal muito sui generis que é a de ser viajante profissional o que me levou, por isso, a lugares que um viajante normal não iria. Acho que deu uma lista bastante composta e variada.

Daí os destinos irem de viagens mais tradicionais a outras que não estão nos roteiros turísticos…

Sim. Claro que houve decisões óbvias, porque não se podia comparar paisagens com cidades ou monumentos com itinerários. Essas divisões estão bem definidas no livro por capítulos. Uns dedicados às cidades, outros aos itinerários. O livro conta ao todo com seis capítulos, onde dois são dedicados à minha sensibilidade própria, ao meu percurso de vida e a lugares que podem não ser uma boa sugestão para as outras pessoas irem, mas que teriam de fazer parte da minha lista pessoal porque fazem parte da minha vida.

Quais foram os critérios de decisão?

Foi um bocadinho andar em círculos até chegar a uma lista. Não foi reunir 99 destinos e deitar os outros fora, foi um bocado por tentativa e erro até perceber como queria dividir e organizar o mundo – porque é disso que se trata. Cheguei a algumas divisões óbvias, como as cidades, os monumentos e as paisagens, porque são capítulos canónicos dos destinos típicos de uma viagem de um turista. Os outros dois capítulos são muito pessoais: a um, que está relacionado com a minha sensibilidade e com a minha maneira de entender os lugares, chamei atmosferas rarefeitas; ao outro chamei-lhe épico pessoal por que está relacionado com coisas que fiz ao longo destes anos e que já nem eu vou fazer nem o leitor, provavelmente, terá oportunidade de passar por elas.
 
Porque a realidade mudou?

Sim. Há, por exemplo, países onde havia paz e agora estão em guerra. Além disso, o tempo faz com que essas experiências e esses destinos tenham adquirido um certo tom épico.

Desses 99 destinos consegue destacar algum?

Não é fácil destacar nem é fácil escolher uma cidade e excluir um itinerário. Se o livro fosse só de cidades ou só de itinerários, seria mais fácil fazer essa escolha. Em relação aos projetos que fiz ao longo da minha vida. talvez destaque aquela viagem que tenho quase a certeza de que nunca mais farei na vida e que continua a ser tão difícil ou ainda mais difícil de fazer do que quando a fiz. Falo da viagem que descrevi no livro África acima, onde vou do Cabo da Boa Esperança até Gibraltar por terra. Uma viagem sem aviões, que durou 10 meses e que foi muito dura a todos os níveis. Dura a nível físico e dura na capacidade emocional de lidar com questões como a humilhação, o racismo, as burocracias inventadas para sacar dinheiro. Acho que de todas as viagens que fiz esta é a que é mais irrepetível no bom e no mau sentido. E irrepetível por tudo o que me ofereceu em termos literários, de memórias e também por ser muito difícil para um viajante independente atravessar por conta própria o continente africano por terra. 

É viajante profissional há mais de duas décadas. Foi difícil começar?

Hoje é mais difícil ser viajante profissional através da escrita porque uma das grandes fontes de rendimento, os meios de comunicação, estão numa crise muito grande. Comecei por financiar o meu modo de vida através da publicação de reportagens numa altura em que não havia internet e, por isso, esse tipo de informação era encontrada em jornais e revistas. Obviamente, havia mais portas abertas para publicar essas viagens e ser pago por isso. Quando fiz a grande viagem de volta ao mundo sem aviões – que começou em 2002 e terminou em 2004 – a ideia era completamente revolucionária, porque escrevia para publicar no Expresso uma semana depois. Na época isso era quase considerado tempo real. Depois, apareceram outros jornais, como o Público e o Correio da Manhã a fazerem uma coisa parecida. Hoje em dia acredito que essas portas estejam quase todas fechadas e, mesmo que essas viagens sejam publicadas, não serão pagas da mesma maneira que eram antigamente. Por outro lado, hoje também é mais fácil e mais barato viajar com os voos low-cost e com as informações que estão disponíveis no Google. Agora sabemos exatamente quanto é que vamos gastar num hotel mesmo que seja do outro lado do mundo e com um mês de antecedência. E como é mais fácil viajar já aparecem muitas viagens em blogues. Acabou por generalizar-se e banalizar-se uma página que era indispensável numa revista. 

Também é tudo mais imediato?

Mudou tudo, para o bem e para o mal. Tive a sorte de chegar no momento certo para viver o que tenho vivido até aos dias de hoje. 

Como são pagas as suas viagens?

Há várias atividades que faço neste universo de viajante que são a minha a fonte de rendimento. Os documentários para a televisão, os direitos de autor dos livros, o projeto de viagens de autor da agência Pinto Lopes – que começou este projeto há cinco anos ao convidar figuras públicas a organizarem viagens dentro do catálogo da agência.

25 anos depois tem uma visão menos romântica das viagens?

Tenho uma visão cada vez mais romântica do meu modo de vida, sinto-me privilegiado quando olho para o modo como vivo e como ganho dinheiro. Agora a viagem em si é romântica? Acho que não. Banalizou-se o ato de viajar, perdeu-se o romanticismo que há 25 anos existia e que se associava a um espírito aventureiro. Mesmo Portugal, que anda sempre uns anos atrasado em relação a esses movimentos e a essas modas, já acho difícil que se olhe para alguém que viaje com regularidade como se fosse um aventureiro, um sonhador, um rebelde.

Mas o modo de viajar mudou?

Ainda bem que assim o é. Andei de mochila às costas, existia um grande desconforto devido à falta de informação que existia. Hoje em dia saio de Portugal com as informações todas.

Há ainda algum destino que o surpreende?

Há destinos que me surpreendem pelo efeito que têm em mim e não pelo destino em si, porque já viajei muito e também porque a informação é muito maior. Hoje em dia só vai desinformado quem quer. Creio que continuo a surpreender-me com coisas que já me surpreendiam há 25 anos. Não sou muito de colecionar novos países, de pôr uma cruz na lista, gosto muito de regressar aos lugares onde fui feliz e onde me senti bem. 

Mas não perde o encanto da descoberta?

O encanto tem de estar no olhar e na forma como nos deixamos surpreender. Quem for com espírito aberto para os pormenores e para o inesperado continua sempre a sentir-se encantado.

Ainda falta algum país na lista?

Faltam imensos países na lista e provavelmente faltarão sempre porque não viajo com a liberdade de quem vai de férias. Não sou como as pessoas que trabalham e nas férias vão viajar, essas pessoas que invejo – e que elas invejam-me pela vida que levo – têm disponibilidade de irem onde querem. Como vou com projetos profissionais e com financiadores por trás nunca tenho essa liberdade. Não só não posso fazer o que me apetece lá, como também não posso ir onde desejo. Vou para onde o projeto profissional me faz ir.