Politica

Ligações explosivas entre Sócrates, Proença e Camões

José Sócrates tentou influenciar o presidente da administração da empresa proprietária do Diário de Notícias, Jornal de Notícias e TSF, o advogado Daniel Proença de Carvalho, na escolha de jornalistas da sua confiança para assumirem posições-chave no grupo, por forma a controlar editorialmente esses órgãos de informação – depreende-se das conclusões da investigação da Operação Marquês.

Datam de 2014 os movimentos do antigo primeiro-ministro para exercer o seu domínio no grupo Controlinveste (que entretanto mudou de nome para Global Notícias), então nas mãos de Joaquim Oliveira e em processo de aquisição por parte do angolano António Mosquito e do empresário Luís Montez.

Camões à frente dos dois jornais

No início desse ano, oito meses antes de o processo de restruturação da Controlinveste estar concluído, o plano de Sócrates passava por colocar o então presidente do conselho de administração da Lusa, Afonso Camões, à frente dos dois maiores órgãos de informação do grupo, o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias.

Este jornalista, por sua vez, estava disposto a exercer qualquer função no novo contexto, chegando, segundo informações a que o SOL teve acesso, a comentar com Sócrates que o ideal seria que os novos acionistas fizessem o seguinte raciocínio: «Era bom que eles percebessem que eu sou joker em qualquer posição para mandar. E que também sei que um general prussiano não se amotina».

Mas o plano inicial deu muitas voltas, e Camões acabou por ficar à frente apenas da joia do grupo no Porto, o JN.

Luís Montez, que detém a produtora Música no Coração, várias rádios e o auditório Meo Arena, em Lisboa, vira nesta oportunidade a forma de reforçar a sua posição nos media. Há muito que vinha a tentar negociar a compra da TSF com Joaquim Oliveira, e foi o único acionista que votou contra a entrada de Camões no JN, fazendo questão de deixar o seu desagrado na ata da reunião do conselho de administração em que a proposta foi aprovada.

Ao SOL, o empresário comentou os motivos que o levaram a tomar esta posição: «Afonso Camões não tinha qualquer experiência de redação, e eu sabia das suas ligações a José Sócrates. Já me tinham tentado envolver durante o processo Face Oculta num esquema semelhante e por isso votei orgulhosamente em minoria».

Recorde-se que o Ministério Público de Aveiro, durante a investigação do processo Face Oculta, em 2009, mandou extrair certidões por ter encontrado nos autos indícios muito fortes de um plano traçado pelo então primeiro-ministro para o controlo de alguns órgãos de comunicação social.

Um dos esquemas envolvia a compra da TVI (detida pela Media Capital) pela PT, com prejuízo para a empresa de telecomunicações, onde o Estado era acionista.

‘Cavaco fica a tratar dos netos’

Para condicionarem a eventual reação do Presidente da República, os peões de Sócrates pretendiam aliciar Montez, casado com a única filha de Cavaco Silva, para ficar com as rádios da Media Capital.

Numa das escutas telefónicas intercetadas pela equipa de investigação, entre dois dos protagonistas utilizados por Sócrates para a execução do plano, Paulo Penedos e Rui Pedro Soares, este último, referindo-se a Cavaco, comentou a chantagem em curso: «É o preço pela paz, e esse cala-se logo, fica a cuidar dos netos».

Mas, desta vez, o projeto de Sócrates não envolvia custos: tinha um homem de confiança no lugar certo dentro da Controlinveste.

No dia em que Mosquito e Maltez se tornaram acionistas, a 28 de janeiro de 2014 (ficando os dois empresários com uma participação conjunta de 42,5% do grupo, e o BES e o BCP com 15% cada, percentagem resultante da conversão de parte da dívida da Controlinveste à banca), Sócrates respirou de alívio. Foi Proença de Carvalho, segundo o SOL apurou junto de fontes conhecedoras do processo, quem o informou.

Montez começara por colocar como condição para a sua entrada no capital do grupo que as rádios que já detinha fossem incorporadas na Controlinveste, aumentando com ativos a sua participação, mas Joaquim Oliveira opusera-se e o processo arrastava-se há três meses, deixando Sócrates pouco tranquilo. Com a questão colocada por Montez ultrapassada, o ex-primeiro-ministro pretendia que Proença mantivesse o negócio sob sigilo, mas a administração do grupo já o tornara público.

Contactos intensificam-se

O Carnaval acabou por atrasar algumas diligências, como fazer adiar para 25 de março a assembleia geral onde seria eleito o novo conselho de administração que tiraria Joaquim Oliveira da presidência do grupo, ficando Proença no seu lugar.

Na recomposição da comissão executiva, Vítor Ribeiro, antigo CEO da Impresa, ganhou a liderança e José Carlos Lourenço conseguiu o pelouro dos conteúdos. Foi este último que, mais tarde, propôs o nome de Afonso Camões para a direção do JN.

Antes da assembleia geral, os contactos entre Sócrates, Camões e Proença intensificaram-se. Com o ex-governante sob vigilância e escuta, o MP, segundo informações que o SOL recolheu junto de fontes próximas do processo, não teve dúvidas de que os encontros e conversas entre o grupo estavam relacionados com o novo controlo da Controlinveste.

No dia 10 desse mês, uma segunda-feira, Sócrates combinou passar pelo gabinete de Proença ao fim da tarde para lhe transmitir o perfil do homem certo para o cargo de diretor do DN: o ‘porta-aviões’ do grupo, como entre eles era referido o diário.

Camões, que fora diretor de comunicação do governo de Macau, consultor da Lena Comunicação e anterior administrador executivo da Controlinveste, terá sido o tema de conversa. Sócrates defendeu-o, dentro da sua conceção do modelo de diretor de um jornal independente, segundo esta narrativa: «Olhe, meu caro, você precisa de um tipo que em qualquer circunstância não faça perguntas e obedeça. E olhe que não tem ninguém melhor em termos de curriculum e de lealdade: é daqueles que sabem fazer as coisas».

Proença tinha a obsessão de uma televisão

Dentro do plano do ex-governante, mantinha-se ainda o sonho de alargar o projeto adquirindo uma estação de televisão. Para Montez, «isso sempre foi a obsessão de Proença de Carvalho», adiantando que só não foi em frente «porque os bancos não tinham dinheiro».

Em simultâneo, Sócrates pretendia criar um diário digital à semelhança do Observador, que seria lançado dois meses depois. Para assumir o projeto, desafiou Nuno Santos, ex-diretor de informação da RTP, à época no Dubai a trabalhar para uma empresa holandesa de fornecimento de internet, a Multichoice.

Fontes próximas de Nuno Santos garantiram ao Sol a existência dos contactos, assegurando, no entanto, que Sócrates nunca chegou a «formalizar o convite» e que a sua grande preocupação se prendia «com o surgimento de novos órgãos de comunicação social ligados à direita e a dificuldade, à esquerda, de criar um projeto com o mesmo perfil ».

Os lugares de diretores para os órgãos de imprensa da Controlinveste ainda não estavam definidos, muitas figuras do meio colocavam-se em bicos dos pés e Nuno Santos terá alertado Sócrates para o facto de Paulo Baldaia, então diretor da TSF, que em tempos estivera nos planos do antigo governante para o lugar de diretor de informação da TVI, andar politicamente ziguezagueante nas suas opiniões: «Ele pode emergir como figura principal quando ultimamente se transformou num defensor do regime vigente. Andou a trabalhar com Mário Soares e Seguro, no Parlamento Europeu, transformou-se num militante».

O telefonema de Camões que alarmou Sócrates

Enquanto a direção dos jornais do grupo não ficou decidida, Camões manteve-se na Lusa. Em junho, depois de fazer parte da comitiva de jornalistas que acompanhou Cavaco Silva numa viagem à China, deixou Sócrates alarmado durante uma conversa telefónica: alegadamente, um jornalista da revista Sábado, Fernando Esteves, ter-lhe-ia confidenciado que o anterior primeiro-ministro estaria para ser detido.

Nesse dia, uma notícia que fazia a manchete do Correio da Manhã dava conta de que o MP investigava cartões de crédito de Sócrates, estando em causa um eventual abuso de dinheiros públicos enquanto chefe do Governo. O processo remontava a 2012, após uma denúncia apresentada pela Associação Sindical dos Juízes relativa a despesas efetuadas por responsáveis do Executivo socialista.

Sócrates começou por associar a alegada conversa entre Camões  o jornalista da Sábado a esta notícia, mas ficou furibundo. Combinou com Camões colocar uma notícia na Lusa a desmentir o diário, o que o outro aceitou, lendo-a à noite ao ex-governante e aconselhando-o a dar «porrada» nos jornalistas, por se tratarem todos de uns «snipers».

No entanto, o caso da Sábado não ficou esquecido. Camões, que continuava à espera do novo cargo na Controlinveste, vestiu a farda de ‘espião’.

A 25 de junho, dois assessores de imprensa do Presidente da República, José Carlos Vieira e Ana Zita Gomes, organizam um jantar no restaurante Mandarim, no Casino Estoril, com os jornalistas que acompanharam a visita de Cavaco à China. Camões – segundo o SOL confirmou com a maior parte dos jornalistas presentes – ficou sentado entre José Carlos Vieira e Natália Carvalho, da Antena 1, e do lado oposto da mesa estavam Fernando Esteves e Judite de Sousa.

Conta a Sócrates outra versão

No entanto, o homem da Lusa, para subir o seu preço, terá contado a Sócrates outra versão, que levou o antigo líder socialista a dobrar cautelas, a trocar o telefone pelo Skype e a marcar encontros em sua casa. Camões ter-lhe-á dito que, de propósito, se sentara ao lado do jornalista da Sábado, conseguindo mais detalhes sobre o processo em que Sócrates estaria a ser investigado e podia levá-lo à prisão: o caso estava relacionado com a banca.

No início do verão, a máquina desemperrou: chegara a altura de substituir as direções dos vários órgãos de informação da Controlinveste. Camões foi finalmente chamado à administração. Recebeu-o José Carlos Lourenço.

O administrador recolhera informação sobre o jornalista junto de várias pessoas que consideravam a escolha acertada, mas que apontavam um duplo calcanhar de Aquiles. O mais delicado era o facto de ele pertencer ao ramo do Grande Oriente Lusitano, da maçonaria.

Mal saiu da reunião, já com outra agendada para a semana seguinte, Camões encontrou-se com Sócrates para lhe contar que tudo correra como planeado: estavam a pensar nele não só para o DN como para o JN e iriam apresentar o seu nome na semana seguinte. Assim, segundo o próprio, ainda iria a tempo de condicionar alguns assuntos.

Sócrates tinha outro nome na mente

Este seria o plano inicial do grupo: um diretor comum para os dois diários, Afonso Camões, e diretores executivos que dirigissem as redações de Lisboa e do Porto. Para isso, Sócrates tinha outro nome em mente: Ferreira Fernandes, o jornalista que, na sua crónica diária na última página do DN, o defendia com afinco.

Ainda quando Sócrates estava ao leme do Governo, Ferreira Fernandes escrevera sobre outro caso em que o primeiro-ministro se vira envolvido, o Freeport: «Sobre os factos não sei nada, só posso ser testemunha abonatória: ele é o melhor primeiro-ministro que já tive».

E após a sua detenção, já no âmbito da operação Marquês, voltou a defendê-lo nestes termos: «A Justiça fornece informações inquinadas aos jornais. Também não é novo. O milho de pombos dado por justiceiros oficiais a jornalistas canalhas é uma tradição nacional».

Sócrates rejeita Mega Ferreira

Sócrates, ao que o SOL apurou, terá pedido a Camões para que, na reunião seguinte, fizesse tudo para que «o nosso amigo lá fique». Mas o interlocutor de Camões na Controlinveste tinha opinião própria, não considerava Ferreira Fernandes um executivo e contrapôs o nome de António Mega Ferreira.

A reação provocou arrepios ao ex-governante, que terá prevenido que só iriam «gastar dinheiro e arranjar um monte de problemas», quando tinham como solução «o homem da última página, com reputação e aceitação na redação».

José Sócrates não contava com o peso dos outros acionistas e o arranjo acabou por ter outra disposição. Camões acabaria, com o voto contrário de Montez, por ficar apenas com o JN, mas só em setembro, depois de o grupo ter afastado, mediante acordo, Manuel Tavares do cargo de diretor do jornal nortenho.

Contactado pelo SOL, Afonso Camões recusou fazer declarações, argumentando não querer «participar em ficções». Proença de Carvalho foi no mesmo sentido: «Não comento porque isso não tem qualquer tipo de fundamentação».