Tem aparecido nos últimos dias em alguns fóruns na Internet, um texto escrito por um bibliotecário ao serviço da Câmara Municipal de Olivença, (município português, presentemente administrado pelo Estado Espanhol). Naquele texto, refere-se a tese do catedrático espanhol Fernadez Liesa, de que “quem cala consente”, justificando com o silêncio português a presente situação de ocupação, que a seu ver deverá ser definitiva. É, dos extractos analisados, uma obra com algum interesse e ideias organizadas. No entanto, e infelizmente, como é normal nas ideias expressas pelos Espanhóis, de origem castelhana, trata-se de uma monografia que não esconde uma extrema incapacidade para entender Portugal e os portugueses. Várias questões, são propositadamente ocultadas e pura e simplesmente “esquecidas”. As invasões francesas, não foram apenas francesas, também foram espanholas. Um dos argumentos, por exemplo, é o de que Espanha, não invadiu Portugal em 1807, porque nessa altura, eram os franceses que controlavam Espanha, e que portanto, ficaría a Espanha isenta de responsabilidades nessa questão. Ora em Dezembro de 1807, são as tropas espanholas que entram em Portugal, juntamente com as tropas francesas que se dirigem a Lisboa. Mas, há tropas espanholas que entram em Portugal (sem qualquer comando francês) para tomar o Porto (e que se vão juntar ás tropas espanholas que entraram por Segura junto com os franceses). São tropas espanholas, as que entram em Portugal, em 1 de Dezembro (data que marca o fim do domínio Habsburgo em Portugal) para ocuparem o Alentejo. Tratado de Fontainebleau. O tratado de Fontainebleau, firmado entre os Estado Espanhol e o Estado Francês, tinha como objectivo a ocupação de Portugal e a sua destruição, ficando partes para os espanhóis, e outras para um reino a criar, sob a égide de Espanha. O Estado Espanhol, tornou, com essa acção, totalmente inútil, e totalmente vazio o tratado de Badajoz, único instrumento jurídico que pode de alguma forma justificar a presente ocupação de Olivença pelo Estado Espanhol. Os textos são apresentados e escritos, muito mais com o objectivo pré-definido de justificar a situação de Olivença, do que com o objectivo de fazer um estudo claro, limpo e imparcial, que permitisse aproveitar a obra, para estudar a questão de Olivença. Sendo o objectivo tão claramente pré-definido, teria o autor poupado bastante tempo, se tivesse utilizado, como argumento único, aquele que continua a ser o argumento válido. A presença espanhola na vila de Olivença, justifica-se apenas porque não é possível a Portugal recupera-la pelas armas, da mesma forma que não é possível a Espanha recuperar Gibraltar. O problema de Olivença, não depende no entanto, nem nunca dependeu, de qualquer questão jurídica. Aliás, a própria Espanha, sem ter qualquer fundamentação legal, exige do Reino Unido, (ao qual entregou o rochedo de Gibraltar) a sua devolução. O problema, de Olivença, prende-se acima de tudo com a maneira de ser dos Portugueses, completamente ignorada pelo senhor Fernandes Liesa. É infelizmente típico de certa Espanha “castelhana”, o olhar para os povos peninsulares, como se fossem todos, uma espécie de “castelhanos menores” mas basicamente iguais. Este sempre foi um erro. O erro da soberba, tão criticada por todos os restantes povos peninsulares aos castelhanos. Fernandes Liesa, esquece (ou melhor ignora, porque não se pode esquecer o que nunca se tentou conhecer) não só a história de Portugal, como também esquece o perfil psicológico dos portugueses. Por natureza os portugueses, quando têm um problema, preferem não falar nele. Falam, muitas vezes com o silêncio. Isto ocorre quer nas relações entre vizinhos, quer nas relações entre empresas. Os governos portugueses, são de portugueses e são portugueses com hábitos e costumes portugueses que regem a política externa portuguesa. Não entender isso, é demonstrar apenas, que se escreve um livro com mil páginas, apenas para tentar justificar uma situação incómoda para Espanha, demonstrando ainda que não se teve nenhum cuidado em analisar profundamente a questão. O senhor Fernandez Liesa, diz que “quem cala consente”, mas os portugueses habituaram-se a achar que o silêncio fala mais alto que o grito. O silêncio português sobre Olivença, grita mais alto que todos os livros que quaisquer espanhóis possam escrever para justificar o injustificável: A muito pouco digna e completamente ilegal ocupação da vila de Olivença pelo Estado Espanhol. Ao contrário do silêncio português, a tentativa espanhola de criar a ideia de que tudo está terminado, e que nada há a fazer, serve apenas para demonstrar o desconforto dos espanhois que, no fundo, sabem não ter razão, e sabem que o tempo, corre contra eles.
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