Um certo galo
Se a inveja entre as mulheres é uma tristeza, entre os homens é uma vergonha.
Lembrei-me disto porque estava o fim-de-semana passado a ler um certo jornal diário onde um certo crítico, que está sempre maldisposto e ganha a vida a dizer mal de toda a gente, desatou ao tiros para o ar a propósito de um certo escritor que reconciliou os leitores portugueses com o romance histórico.
Este escritor é daqueles homens que aparentemente tem tudo; é inteligente, tem charme, tem pinta, é respeitado socialmente, é um opinion leader incontestado, tem graça e estilo, bom gosto nas gravatas, escreve bem, é de boas famílias e tem uma mulher linda. E como tem tudo, também tem a inveja adjacente de quem tem sucesso e dá galo ao próximo.
E o que é que isto tem a ver com o sexo? Tudo tem a ver com o sexo, e a inveja também. Este escritor tem fama de conquistador e mulherengo, o que lhe dá um certo charme perante as mulheres e um certo galo perante os homens. É mais ou menos como aquele tipo do liceu que era o mais bonito do ano e podia escolher sempre as miúdas que eram todas doidinhas por ele, enquanto os amigos ficavam com os restos.
Os homens são muito competitivos em relação ao dinheiro, ao sucesso e ao reconhecimento. Não lhes basta ter um Porsche com mais cavalos. Para alguns, não lhes basta nada porque estão sempre em competição com os outros e com eles próprios.
E depois há os invejosos, os Tulius Detritus – lembram-se dele? O verme baixinho de A Zaragata, de Uderzo e Goscinny, que andava sempre a fazer intrigas por entre as tropas – que vivem os seus dias a invejar os outros, usando o seu fel para tentar abalar o reconhecimento de quem o tem. São seres possuídos por uma raiva daninha misturada com misantropia profunda, assim uma espécie de alma de porteira, mas com canudo e biblioteca.
Portugal é um país onde o sucesso é sistematicamente criticado, invejado e condenado. Portugal é um país onde os críticos escrevem tudo o que lhe apetece só porque pensam que estão no seu direito, convencidos, coitados, de que as suas ideias são lei e que as suas convicções reinam sobre os leitores. Os críticos vivem na triste ilusão de que a opinião publicada é mentora da opinião pública. O mundo não começa nem acaba nas folhas dos jornais. Há mais mundo cá fora, mas isso é para quem sai de casa.
Há muitos anos o Manuel Luís Goucha, uma das pessoas mais felizes que conheço, disse-me que os críticos são como os gato capados; sabem como se faz, mas não fazem. Eu arrisco a teoria até mais longe: pensam que sabem como se faz, mas não podem fazer.
Quanto ao escritor inteligente e bem parecido que tem aparentemente tudo, desejo que as musas continuem a alimentar a sua veia e que se mantenha à margem desta e de outras palhaçadas, assistindo de camarote ao triste espectáculo da inveja em público. Quem deu o espectáculo, ajudou sem querer a que os leitores se interessem ainda mais pelo livro. E ainda bem. Quanto mais livros se venderem, melhor para a economia.