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Decisão
O que pensará hoje Cavaco Silva, que há uns anos falava da boa e da má moeda?
FACE ao que se vem passando em Portugal, compreenderão que muitas vezes sinta alguma curiosidade sobre o que pensará e sentirá o Presidente Cavaco Silva que, aqui há anos, defendeu que a boa moeda tinha de substituir a má moeda.
Perante o estado a que chegou o país – e que atinge o Presidente da República nos seus níveis de popularidade –, o que pensará a pessoa que entendeu que era precisa ‘moeda’ bem diferente da que existia quando escreveu o célebre artigo?
Tenho esta curiosidade – e não mudei a minha opinião de que, apesar de tudo, é um conforto ter uma pessoa com a honradez e o sentido de responsabilidade de Cavaco Silva na chefia do Estado.
Só que tudo o que se passa vai exigir, nos próximos tempos, muita firmeza política da sua parte. Como Presidente e como eventual candidato. Não é só o centro-direita que precisa de um Presidente que garanta ordem e rectidão, e que crie as condições políticas para Portugal poder recuperar e progredir. Será Cavaco Silva a protagonizar esse caminho? Já faltará pouco para se saber a decisão.
É essencial que, qualquer que seja o candidato, assuma posições claras sobre os tais temas imperativos de que falei na semana passada e que justificam a tal conferência nacional que referi.
Quase tudo deve mudar, a começar por normas do sistema de Governo e do sistema eleitoral, passando pela Justiça, pela Segurança Social, pela comunicação social.
No sistema de Governo, por exemplo, das duas, uma: ou se limita o poder presidencial de dissolução do Parlamento – ou então, como em França, dá-se ao Presidente da República o direito de presidir ao Conselho de Ministros quando o entender (actualmente, só o pode fazer se o primeiro-ministro o solicitar).
No sistema eleitoral, deve pensar-se na introdução de círculos uninominais ponderados com um círculo nacional proporcional, para além da redução do número de deputados.
No sistema de Justiça, reformar profundamente o regime do segredo de Justiça.
Na comunicação social, reforçar as garantias do pluralismo e prever incompatibilidades éticas.
Na Segurança Social, requacionar, entre outras coisas, o direito ao 14.º mês para as pessoas de rendimentos mais elevados.
É impossível a situação nacional continuar como está. Tal como é insustentável o Estado Providência, em geral, continuar com as responsabilidades que ainda lhe cabem.
Portugal tem novamente pela frente um duro caminho para o reequilíbrio financeiro. Só que a paciência dos portugueses é menor – porque já fizeram vários caminhos desses e tudo volta sempre ao mesmo. Vai ser muito exigente. E repito: só um Governo de salvação nacional o poderá fazer.
Desorientação
Passam-se no país coisas de bradar aos céus!
Há situações na sociedade portuguesa que demonstram que estamos a cair no radicalismo para o qual determinadas forças políticas nos querem empurrar.
Na legislação em matérias de ética, de organização social, do funcionamento da Justiça, só para dar alguns exemplos. E o radicalismo, se começa a impor-se, gera agitação, desnorte, mesmo desorientação.
Quase todos os dias oiço pessoas nas televisões dizendo as maiores barbaridades sem que nada lhes aconteça. Vale tudo. Aliás, mesmo pessoas que são normalmente educadas, caem repetidamente na tentação de dizerem mal de tudo e de todos, só para se fazerem interessantes.
Medina Carreira é uma dessas pessoas que não sabem falar sem generalizar as avaliações. Para ele, os políticos são todos iguais, os partidos são todos iguais, a Justiça é toda igual, só se salva ele próprio.
O exemplo tem de vir de cima. Quem tem mais responsabilidades, tem de demonstrar o respeito pelos outros que deve ser norma em toda a sociedade.
Outro dia assisti a uma situação num telejornal em que o presidente do Supremo Tribunal de Justiça falava aos jornalistas, na rua, nas arcadas do Terreiro do Paço, sobre as escutas em que surge o primeiro-ministro…
Ou seja: no meio da rua, a figura cimeira de um poder soberano do Estado falava sobre a primeira figura de outro órgão de soberania, num assunto muitíssimo melindroso.
Como é possível? É sempre uma questão de respeito. De as pessoas se darem ao respeito e de saberem respeitar as outras.
Tudo o que aqui refiro está relacionado entre si. Nos últimos dias, nas passadas semanas, vamos ouvindo apelos para que comportamentos indevidos terminem.
Dou dois exemplos que conheço bem: o PSD e o Sporting. O que as pessoas dizem umas das outras em declarações públicas, em reuniões, em manifestações colectivas, é de bradar aos céus! Paulo Bento saiu ‘por cima’, mas durante semanas chamaram-lhe tudo… No PSD, _à falta de outros argumentos, atacam-se as pessoas na sua honra e chega-se ao ponto da violência_ física.
Entretanto, noutro plano, ouve-se quase tudo sobre o primeiro-ministro, quase todos os dias – e, ao mesmo tempo, o presidente do Supremo e o procurador-geral trocam argumentos em público (felizmente, Pinto Monteiro teve o bom senso de esclarecer que havia cem por cento de concordância entre eles…). Ao mesmo tempo, são divulgadas sondagens que nos dizem que o apoio ao Presidente da República baixou para níveis inimagináveis.
De muitos lados tenho ouvido que as pessoas não pedem mais nada do que ordem e bom senso. Querem acreditar, querem sentir esperança, querem confiar em alguém.
Clarificação
É preciso clarificar depressa o poder no PSD
A solução já não está em atitudes tradicionais nem pode ser proporcionada pelas regras caducas de um sistema desacreditado. Tem de ser trilhado um caminho assumidamente alternativo.
Por isso mesmo, seja qual for a data de apresentação do Orçamento, impõe-_-se, face ao agravamento da situação no país, que seja clarificado o mais depressa possível o poder no PSD.
São cada vez mais as matérias de elevada responsabilidade em que aparecem indivíduos a dar opiniões pessoais, como no casamento entre pessoas do mesmo sexo ou a regionalização.
Manuela Ferreira Leite pode e deve representar o PSD no debate do Orçamento. Mas nada impede que o PSD marque, inicie e desenvolva o processo de escolha da nova liderança.
Todos temos a sensação de que, quanto mais exigente é a saída da crise, mais adiadas vão sendo as decisões. O Governo, que ainda agora iniciou funções, está seriamente atingido na sua capacidade política por força dos acontecimentos das últimas semanas.
Em breve começarão as escolhas e as decisões em matéria de eleições presidenciais.
E o PSD? Tal como os outros partidos, tem de estar em pleno na sua capacidade de decisão. Não pode estar em ‘gestão corrente’.
Tenho procurado apoiar sempre a acção de Manuela Ferreira Leite. E continuo a fazê-lo. Só que o respeito pela presidente do PSD não pode fazer com que se ignore o estado do país e as exigências que essa realidade coloca a todos nós.
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Desolação
Vive-se um ambiente quase aterrador
O panorama de Portugal é desolador. As suspeitas graves na área da Justiça, o endividamento externo, a divergência com a União Europeia, a dívida pública, o défice orçamental, o nível de desorçamentação, as dívidas das SCUT e os custos inflacionados das novas concessões, a desertificação do território, tudo constitui um quadro quase aterrador.
Detesto o pessimismo e julgo não ser pessimista por natureza. Mas o que se está a passar é mau de mais.
Passe a comparação, é um pouco como nas alterações climáticas. As pessoas dizem que sim, mas não se convencem. Como se pode constatar pelas semanas que passaram, não há ainda condições para que se encontrem os recursos financeiros necessários para sustentar as indispensáveis reduções nas emissões de CO2. Ainda não se entendeu que 9 mil milhões de euros, ou mesmo o dobro, é pouco dinheiro face ao que está em causa.
Os responsáveis vão-se convencendo de que os apocalipses climáticos ainda são só matéria de filmes ou de conferências de Al Gore – e continuam no mesmo caminho, pensando porventura, de modo profundamente egoísta, que o desastre só acontecerá no tempo em que os seus filhos ou netos tiverem a idade que ele hoje têm.
Com as SCUT, com o custo das novas concessões, com a evolução dos indicadores macroeconómicos de Portugal, com o abandono progressivo do território, passa-se algo de semelhante: as pessoas sabem que as coisas não podem continuar assim, mas vão fazendo com que nada mude e tudo continue na mesma.
Para muitos portugueses, para muitas famílias portuguesas, há uma preocupação acrescida: o drama do desemprego. Refiro-o em separado porque, de todos os indicadores, penso ser aquele cujo agravamento está mais ligado à recente crise económica internacional. Porque, mesmo no que respeita ao investimento privado, a sua evolução traduz mais os efeitos de causas internas do que externas.
Salvação
Um Governo de Salvação Nacional
No primeiro artigo que escrevi neste espaço, disse que o mais difícil em Portugal é, normalmente, decidir o que é óbvio.
Sem dúvida que os impasses a que fiz referência na área do Ambiente, a propósito da próxima Cimeira de Copenhaga, podem dar o argumento de que esse bloqueio não é só nacional. Em parte, é verdade. Mas as decisões óbvias que Portugal deve tomar têm menor grau de dificuldade e de complexidade. Até porque dependem só de si próprio, no exercício dos seus poderes soberanos.
Por vezes, aquando de situações de emergência a nível internacional, convocam-se conferências ou cimeiras para tentar descobrir um caminho comum para a solução dos problemas. Portugal precisa de fazer o mesmo internamente.
Vai ser muito duro reduzir o défice orçamental para menos de 3% até 2013. Vai ser muito complicado diminuir o nível da dívida pública, no mesmo período de tempo, para (pelo menos) 60%. Vai ser muito complexo enquadrar, em termos sustentáveis para o Orçamento do Estado, os encargos financeiros decorrentes das sucessivas revisões do Plano Rodoviário Nacional. E por aí fora, com grande realce para o endividamento global da nossa economia e para a desertificação de cada vez maiores parcelas do nosso território.
O que se vai conhecendo, dia após dia, traz cada vez mais de volta a ideia não de um Governo de Bloco Central mas _de um Governo de Salvação _Nacional.
Sei que houve eleições legislativas recentemente. e ninguém nega que o Partido Socialista é o primeiro partido. Mas tudo isso é insuficiente.
O quadro é muito complexo porque, ainda por cima, o Presidente da República está em final de mandato. Mas parece-me evidente que as eleições presidenciais, cuja campanha está próxima, vão ter esse tema em plano cimeiro.
Na actual situação de Portugal, um Governo minoritário é, sempre, um breve interlúdio. O Governo tem de ser forte, tem de dispor de um apoio político forte e tem de contar com um primeiro-ministro forte.
Quem se candidatar às próximas eleições presidenciais deve, por imperativo patriótico, assumir este propósito perante os portugueses.
Protecção
Portugal tem de se defender
Só os inconscientes poderão continuar a negar as evidências. Andar, neste momento, a discutir o casamento dos homossexuais e matérias equivalentes é uma irresponsabilidade. Pela minha parte, já escrevi que essa matéria deve ser decidida por todos os portugueses, em referendo nacional. Mas esta não é altura para desviar a atenção do país dos problemas graves que tem para resolver.
Neste aspecto, o tempo dado pelas televisões a assuntos que minam a confiança das pessoas deve, também, ser objecto de ponderação. As reportagens, dia após dia, às portas dos tribunais, vão degradando o ambiente colectivo. Obviamente que as notícias são muito importantes. Mas todos os dias de manhã estarmos a saber se chegou ou não chegou o arguido A ou B, ou quanto tempo foi ouvido, ou quando volta, é algo que devia também ser objecto de ponderação nessa tal Conferência Nacional. É que, ainda por cima, na maioria dos casos trata-se de pessoas que ninguém conhece.
Tendo muito pouco a ver com aquilo de que estou a falar, lembro que, no desporto, algumas federações e organizações internacionais combinaram com as televisões não repetir lances faltosos, com entradas duras sobre adversários, bem como aqueles em que pudesse ser discutida a decisão dos árbitros. O objectivo era não contribuir para o aumento da violência.
As sociedades têm de se defender a si próprias, no respeito pelos direitos, liberdades e garantias.
O mundo, para se defender, tem no topo da agenda a protecção do Planeta, a paz e a subsistência de todos os seres humanos.
Portugal, para se proteger, tem vários temas, todos eles também prementes. Quanto mais cedo, melhor.
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Evolução
Em vez de ideias, o que vale hoje no PSD é a capacidade de filiar pessoas
Na passada semana escrevi sobre as razões pelas quais decidi exercer o cargo de vereador para que fui eleito nas autárquicas de 11 de Outubro. Mas não escrevi sobre a razão que me fez admitir tomar a decisão contrária: o estado em que se encontra o PSD.
Já só raramente me refiro ao meu partido como PPD/PSD. Essa diferenciação para mim não é dispicienda. O PPD/PSD, como dizia Francisco Sá Carneiro, era o «partido mais português de Portugal». Carlos da Mota Pinto, por sua vez, dizia que o PPD era o partido das pessoas que «sobem a vida a pulso». A verdade é que, com o passar do tempo, essas características, essas componentes do ADN do PPD/PSD, foram-se diluindo.
Julgo que fui o primeiro a dizer que o partido se ‘balcanizou’. Cheguei a afirmar, num grande jantar na FIL, em Julho de 1989, que o PPD começava a ficar cansado de aturar o PSD. Já na altura exteriorizava o que comecei a sentir em 1986/87: a força crescente do aparelho e a decrescente ligação às mulheres e aos homens bons de cada concelho, de cada terra.
Em cada terra, notários, merceeiros, farmacêuticos, construtores civis ou professores primários, consoante os casos – mas, no geral, as figuras que se destacavam em cada comunidade –, juntavam-se ao partido de Sá Carneiro. Era um partido, ao mesmo tempo, muito interclassista – e esta característica ainda se mantém, mas rapidamente pode perder-se.
Às tantas, para contrapor ao poder cada vez maior da estrutura partidária (ou de uma elite muito reduzida que em Lisboa e no Porto tomava as grandes decisões, como aconteceu quando Durão Barroso substituiu Marcelo Rebelo de Sousa em 1999), comecei a propor as eleições directas, para devolver o poder ‘às bases’. Propu-las, concretamente, aquando do Congresso de Viseu, em 2000. Mas na altura não consegui fazê-las vingar. Vieram a ser aprovadas depois da minha fugaz liderança, julgo que em 2006.
Hoje discute-se muito se as directas foram ou não benéficas para o PPD/PSD. É, de facto, discutível. Mas gostava de vincar o contraste com o que sucedia anteriormente, relembrando com mais pormenor o que se passou nessa substituição de Marcelo Rebelo de Sousa, quando se demitiu da liderança.
Foi feita uma reunião em Lisboa, julgo que em casa de Manuel Dias Loureiro, com cerca de cinco ou seis pessoas, para escolher quem deveria ser o sucessor. Após essa reunião, Leonor Beleza leu na sede nacional uma declaração aos jornalistas em que dizia ser José Manuel Durão Barroso quem reunia melhores condições. E foi.
O que aqui relembro não envolve nenhuma crítica aos intervenientes neste processo, que se limitaram a exercer o poder lhes vinha parar às mãos. Mas confesso que nunca gostei disso. E por essa razão foi nessa altura que comecei a lutar pela alteração do método de escolha da liderança.
As ‘directas’ não são, pois, as culpadas da balcanização ou feudalização. À medida que as ideias e o respectivo debate iam desaparecendo, ganhava cada vez mais peso o papel daqueles a quem chamei «os técnicos da representação permanente». Esses técnicos são aqueles que se dedicaram profissionalmente a assegurar os lugares de representação política – primeiro ao mais alto nível do Estado, e depois, à medida que o número dessas pessoas aumentava na disputa de avenças ou assessorias no nível mais inferior do Estado.
Em vez de se discutirem ideias, em vez de funcionarem os gabinetes de estudo, passou a ter importância a capacidade de filiar pessoas. Principalmente desde que as ‘directas’ foram aprovadas para a eleição dos líderes distritais, ainda antes de o serem a nível nacional.
O único caminho de terminar com a perpetuação do poder dessas pessoas que nunca fizeram mais nada na vida é, de facto, a limitação de mandatos aos mais variados níveis.
Manutenção
É confrangedor ver os camaleões
O PSD passou a estar dividido em grupos cujos laços são única e exclusivamente a conquista ou a manutenção do poder – os quais, por sua vez, rivalizam com supostas elites, de supostos iluminados, que vão vencendo na vida à conta de estarem sempre disponíveis para apoiar qualquer líder desde que tenham a garantia de fazer parte da equipa _dirigente.
Muitas carreiras e muito poder têm sido construídos à conta dessa natureza ‘camaleónica’ de pessoas que, ao longo dos últimos 15 anos, aparecem sempre nas fotografias ao lado dos diferentes líderes. Há pessoas que estiveram na primeira linha com Marcelo Rebelo de Sousa, com Durão Barroso, comigo, com Luís Marques Mendes e com Luís Filipe Menezes. Têm uma tese curiosa: mesmo que exerçam cargos da mais alta responsabilidade, a culpa nunca é deles. É, tão só, dos líderes depostos. Muda o líder e aí estão eles, frescos como nunca, de fatinho engomado, prontos para um novo ciclo de poder.
É absolutamente confrangedor, a esse propósito, aquilo a que se assistiu nas últimas semanas. Há pessoas que nunca estão dispostas a sair. Precisam da influência política, nuns casos, e noutros não sabem fazer mais nada.
Sei que quem ler estas linhas pensará que sou muito ligado à política e que tenho muitos anos disso. Sem dúvida. Mas, como sabem todos os que me conhecem, nunca tive jeito nenhum para os assuntos do aparelhismo partidário, listas, lugares e afins.
E, por outro lado, de modo mais modesto ou mais conseguido, tenho sempre, quando a lei não o impede, a possibilidade de exercício da minha actividade profissional, quer como profissional liberal quer como docente universitário.
Degradação
A situação no partido é muito grave
HOJE em dia é maior e mais forte o poder dos grupos do aparelho do que dessas supostas mini-elites. Mas a questão tomou contornos bem mais graves. Porque alguns grupos, com práticas marginais, começaram a infiltrar-se nas estruturas do PSD e a levarem por diante práticas absolutamente inconcebíveis.
Confesso que é muito difícil ter qualquer espécie de identificação com a vida interna do PSD, nalgumas áreas com que tenho contactado ultimamente. A troca de favores, a negociação de apoios, as mudanças de campo, o descaramento (ou seja, a capacidade de ter duas caras, completamente opostas, no mais curto espaço de tempo), o atrevimento de se aparecer em público a elogiar alguém que durante anos se considerava inaceitável.
A utilização perversa de normas estatutárias. A facilidade em caluniar companheiros de partido, sujeitando-os às maiores humilhações.
A tudo isto se vai assistindo a nível local ou nacional. Por isso mesmo – e tendo autoridade acrescida por ter disputado a liderança do partido com a actual presidente – procurei sempre apoiar Manuela Ferreira Leite. Na verdade, certamente com defeitos como todos os humanos, trata-se de uma pessoa decente e que podia contribuir para impor a dignidade e o respeito pelos princípios, valores e pela história do PPD/PSD. Pelo menos isso!
Como se pode constatar por estas palavras, considero muito grave a situação a que chegou o PPD/PSD. E exercer um cargo público nestas circunstâncias, em nome do PSD, não é nada fácil. Faço-o, como disse na passada semana, por respeito aos cerca de 40% que votaram no projecto que defendo para Lisboa.
Compreendo Marcelo Rebelo de Sousa quando diz que não se quer sujeitar às actuais ‘regras do jogo’ no PSD. Mas também compreendo alguns apoiantes de Pedro Passos Coelho quando defendem ser preciso um tempo novo.
É preciso haver coragem para se mudar quase tudo.
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Avaliação
Perder como perdi não custa muito
Procuro falar o menos possível neste espaço sobre os combates políticos em que estou envolvido. Mas agora, terminado o processo eleitoral autárquico, julgo que aceitarão que faça aqui um balanço breve do que se passou.
Tenho dito aos meus amigos que «perder assim, não custa!». Na verdade, têm sido generalizados os comentários e as análises que demonstram muito apreço pelo trabalho realizado, pelas propostas apresentadas, pela campanha feita e pelo resultado obtido.
Ao princípio até achei estranho. Mas depois, quando comecei a analisar o que se tinha passado, confirmei as razões dessa satisfação. Sendo tão objectivo quanto possível, passo a enumerar:
1. Tudo começou numa sondagem publicada pelo Expresso em 28 de Dezembro passado, encomendada pelo Partido Socialista. Título do Expresso: Sondagem do PS dá 15 pontos de vantagem a António Costa. Ora, para além desta diferença, o Expresso dava 10 pontos aos Cidadãos por Lisboa, de Helena Roseta, e 4 ao CDS, com uma candidata hipotética, Teresa Caeiro.
Fazendo as contas (somando os votos de Roseta e António Costa, e juntando os meus e os de Teresa Caeiro), dava 21 pontos de diferença. Isto sem fazer referência aos votos do PCP, que a sondagem admitia poder atingir os 9,6%. Como se sabe, houve cerca de 15.000 votos da CDU que foram para António Costa.
2. O combate foi com um presidente de Câmara em funções, em primeiro mandato e, mais ainda, só com metade do tempo desse mandato;
3. Foi uma campanha sem debates sobre Lisboa. A mão invisível do sistema político fez tudo para que se falasse o menos possível de Lisboa.
Ao contrário do que possam achar os que reagem epidermicamente ao que digo ou escrevo, nada disto são desculpas. São factos.
Houve dois debates, um antes da campanha, em Julho, entre António Costa e eu próprio, e outro a dois dias do final, com nove candidatos. E a opinião da generalidade dos comentadores sobre quem ganhou esses debates é conhecida.
Volto a falar do assunto para sublinhar que se percebe a razão pela qual não quiseram fazer os debates, ao contrário do que aconteceu nos outros concelhos.
E note-se que, a partir do Verão, não se ouviu o candidato do PCP nem o do Bloco de Esquerda protestarem pelo facto. Na linha, aliás, da enorme discrição e contenção das campanhas levadas a cabo por estes dois partidos.
Pode ser dito que é a democracia – e que as pessoas de ‘esquerda’ tinham o direito de rejeitar a minha candidatura.
Só é estranho que também tenham querido rejeitar a de Manuel Falcão, candidato à Assembleia Municipal, porque a diferença de votação das listas que encabeçámos foi só de cerca de 100 votos. Fará sentido? Não há nenhuma razão para existir essa rejeição quanto a Manuel Falcão.
Em minha opinião, houve concertação nesse desvio de votos. O que, sublinhe-se, é legítimo – mas não pode ser considerado transparente. Não conheço nenhuma situação igual no país todo.
Reposição
Tive honra em ser candidato pelo partido que me tinha proscrito
Na segunda parte deste balanço quero também deixar claro que foram atingidos os objectivos políticos a que me propus quando aceitei esta candidatura.
Dou como exemplo a questão das finanças da Câmara Municipal de Lisboa.
Com o decorrer da campanha, foi ficando progressivamente mais claro que não era só minha, nem fundamentalmente minha, a responsabilidade pelo passivo da Câmara. Nem pouco mais ou menos. Só isso teria valido uma candidatura. Porque a verdade, no que se refere ao sentido de responsabilidade na gestão pública, tem um valor inestimável.
Podem continuar a usar todos os argumentos que quiserem. Mas as pessoas perceberam que, no meu mandato, foram assumidos muitos milhões de dívidas que não eram do meu tempo e que transitavam de mandatos anteriores. Nomeadamente da Expo-98 e do Casal Ventoso, quando vigorava a regra legal do endividamento zero para as autarquias. Nesta gestão, pelo contrário, foi com empréstimos que se pôde pagar aos fornecedores.
A propósito da reabilitação urbana, também ficou patente o valor e a dimensão da obra feita nos diferentes mandatos.
E ainda no que respeita à correcção de procedimentos na gestão urbanística, nomeadamente em termos comparados.
AS PESSOAS tiveram de suportar três campanhas eleitorais seguidas, mas vão apanhando o essencial. 44% dos votantes deram a vitória a António Costa. Mas quase 40% confiaram na candidatura que encabecei. Ora, tendo sido eu apresentado durante anos quase como ‘a encarnação do Diabo’ na política portuguesa, tendo sido apontado como o causador de muitos males da Pátria, tendo sido condenado por vários ‘tribunais de espíritos brilhantes’, à ‘morte política’, ou pelo menos ao ‘degredo político’, compreenderão a razão pela qual me sinto mesmo satisfeito.
Aliás, agora que passaram as eleições, sublinho a ideia de que a maior honra e o motivo de maior satisfação não foi o resultado – foi ter sido de novo candidato pelo meu partido, que quatro anos antes me tinha proscrito. Ao que se somou a alegria que senti pelo apoio espontâneo das concelhias e direcções nacionais do CDS-_-PP, do MPT e do PPM. E, como dizemos às vezes coloquialmente, ‘o resto é conversa’...
Podem escrever e dizer o que quiserem, até que são consolos de quem perdeu, porque depararão sempre com um sorriso genuíno como resposta.
Decisão
Vou ficar como vereador a lutar pelo que acredito
Durante toda a campanha eleitoral disse sempre que só me candidatava a presidente de Câmara. Durante grande parte desse período acrescentei que não concorria a vereador.
Mas, à medida que o tempo passava e que ia percebendo o que estava (e vai estar) em causa nos próximos anos – e que passará, em boa medida pela Câmara Municipal de Lisboa –, mudei de resposta.
Quando os jornalistas me perguntavam o que faria depois das eleições caso perdesse, respondi que, em combate, só falo de vitória… E, por vezes, acrescentei a tal ideia de que só estava a concorrer para presidente. Deixei de falar nas funções de vereador.
Pensei muito no assunto durante estas semanas – e é curioso como tanta gente, quando ando nas ruas, quando estou na minha actividade profissional ou no meu círculo de relacionamento pessoal, me pede para que fique como vereador.
Por que será? Foi isso que tive de ponderar – e cheguei à conclusão de que esses quase 40%, mais muitas outras pessoas pelo país fora, entenderam o nosso projecto para Lisboa. tem causas pelas quais vale a pena lutar. Causas que, no seu conjunto, representam um desígnio estratégico para a cidade, envolvendo processos de decisão a nível nacional e local.
E esse desígnio estratégico pode ficar muito comprometido se forem por diante algumas decisões anunciadas por José Sócrates e António Costa.
Só essa possibilidade faz-me sentir o dever de ‘não virar a cara’ e de fazer tudo o que estiver ao meu alcance para impedir que façam mal a Lisboa.
Quero fazer tudo para que Lisboa não fique sem aeroporto. Para que mais contentores não ocupem o lugar de cruzeiros turísticos. Para que a terceira travessia Chelas-_-Barreiro não traga carros para Lisboa. Para que a ligação do túnel do Marquês à António Augusto Aguiar seja feita o mais rápido possível. Para que a recuperação do Parque Mayer se concretize. Para que os Planos de Pormenor em falta e a revisão do Plano Director Municipal fiquem concluídos. E, principalmente, para que a reabilitação dos bairros históricos e a requalificação dos bairros sociais sejam assumidas como prioridade cimeira.
Naturalmente não posso impor o nosso programa a quem ganhou as eleições. Mas posso lutar por ele.
Há pessoas que acham estranho que alguém que exerceu altos cargos do Estado aceite ser vereador. Faço-o com toda a honra. Quando perdi as eleições legislativas, em 2005, assumi logo que pude o meu lugar de deputado – e fui, durante uma sessão legislativa, líder parlamentar do maior partido da oposição.
Agora, não tendo ganho as eleições em Lisboa, terei a mesma atitude – procurando representar, no respeito pela sua pluralidade interna, o projecto da coligação ‘Lisboa com Sentido’. Noutros países, quem ocupa altos cargos do Estado pode sempre acumular com cargos de poder local ao serviço da terra a que esteja ligado.
É assim que eu gosto de estar na vida em geral – e, portanto, também na política. Sem vaidades e preconceitos. E com respeito pelas causas que considero importantes para a minha cidade, para o meu país, para o mundo em que vivemos.
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Inconstância
Já não se exige um
Governo maioritário?

O facto mais relevante da evolução política recente é a aceitação, pelo Presidente da República, de uma base de apoio minoritária ao Governo em formação.
É sabido que, durante meses, se arrastou o debate sobre a hipótese de um novo ‘Bloco Central’, após as eleições de 27 de Setembro.
O tema foi tratado em horas e horas de debates por esta ‘catrefada’ de novos especialistas-comentadores de política – que surgiram um pouco por toda a parte para fazerem o que, noutras democracias, é feito por quem está legitimado pelo voto.
Acontecia que tinham todos ficado muito agitados porque o Presidente da República exprimiu um voto de entendimento entre os partidos, dada a gravidade da situação económica.
Logo na altura, numa entrevista ao Diário Económico, eu disse que, para haver ‘Bloco Central’, José Sócrates ou Manuela Ferreira Leite teriam de sair da liderança do PS ou do PSD.
Teve destaque a ideia, mas como curiosidade. Na altura, estavam entretidos com esse tema. Ouviam empresários, ex-governantes, sindicalistas, enfim, o costume...
Está assim a sociedade portuguesa: vai-se distraindo com sucessivos temas de ficção, ou quase, para não ter de falar do essencial.
O tempo passou, as eleições aconteceram, e o tema do ‘Bloco Central’ caiu.
José Sócrates conseguiu espaço para formar um Governo minoritário.
E isto mostra bem o que mudou (e como mudou) em Portugal desde antes das europeias.
Nessa altura, Sócrates estava enfraquecido e ninguém – a não ser os seus apoiantes – o queria a governar sozinho. Depois, o PSD ganhou as europeias e passou a perguntar-se a Manuela Ferreira Leite se admitia governar sozinha (uma vez que tinha recusado acordos com Sócrates). Finalmente, aconteceu a reviravolta que se sabe – e já ninguém contesta a José Sócrates o direito a escolher _a fórmula governativa que _quiser. Verdadeiramente impressionante.
Distância
Tudo acontece e nada tem consequências
Há uns meses era considerado essencial, na crise que o mundo atravessa, conseguir-se uma solução maioritária para o Governo a constituir… O que terá mudado desde aí? A crise não continua a fazer sentir os seus efeitos? Passou-se a acreditar que a retoma económica vai ser rápida? Os níveis de endividamento da nossa economia já não são preocupantes?

Julgo que a resposta a qualquer destas questões terá de ser negativa… Então, quem explica o que terá mudado?
Insisto neste ponto, porque é mais um a juntar a tantos que se vão sucedendo na política portuguesa, que são estranhos, fora do normal, inesperados, insólitos – chamem-lhes o que quiserem – e que vão passando sem qualquer explicação.
É como as reuniões entre partidos, que deveriam ter sido no Largo do Rato e nas outras sedes, e decorreram em São Bento, com toda a normalidade.
A sociedade portuguesa precisa de um exame profundo, de um estudo comparado, de avaliar o que é ou não normal – para que todas estas irracionalidades não agravem, cada vez mais, a disfuncionalidade do sistema.
Mesmo os cidadãos mais leigos, ou com menos instrução, vão detectando as incongruências e as inconsistências nos comportamentos dos agentes políticos e económicos, e das instituições públicas e privadas.
Tudo acontece e nada tem consequências: sondagens erradas, uso (por acção ou omissão) de órgãos de comunicação com alvará público, falsidades evidentes, incompatibilidades disfarçadas ou escondidas, directores de informação a celebrarem vitórias de políticos na noite das próprias eleições… Enfim, de tudo um pouco – e tudo vai passando sem reacção. Pelos vistos, não entendem que, ao agirem assim, estão a deixar as estruturas do regime apodrecer e os seus pilares serem corroídos.
É que, sinceramente, os menos instruídos, ou mais distantes, devem ficar completamente atordoados: então há pouco tempo era essencial para o futuro da Pátria uma maioria estável de apoio ao novo Governo – e agora aparece um Executivo só com minoria e ninguém diz nada?
Relevância
Os jornalistas não podem ter favoritos nem ódios de estimação
É tempo de Portugal pensar mesmo no que quer fazer da sua vida.
Dou vários exemplos: sistema de Governo semipresidencial; sistema eleitoral; redução significativa do número de deputados e criação de uma segunda câmara no Parlamento; nível de endividamento da nossa economia; nível de produtividade; desertificação de grande parte do território; descentralização e regionalização; organização administrativa e burocracia, nomeadamente, governos civis e CCDR; níveis de instrução e de insucesso escolar.
São só alguns pequenos exemplos que, se não justificam um novo partido, podem dar razão de ser a um movimento cívico de que muito tenho falado com várias pessoas, por esse país fora, nomeadamente com Rui Moreira, presidente da Associação Comercial do Porto e permanente interventor cívico que, com um sereno pensamento próprio, vai desafiando o dos outros.
Todos sentimos que é preciso desfazer preconceitos. Por exemplo, avaliar com isenção. Não escrever sempre o mesmo sobre os mesmos. Não depreciar quem combate, esquecendo que aqueles que mais defendemos se refugiam, normalmente, em desculpas e em evasivas, para não terem de se sujeitar a combates difíceis.
Quem é jornalista não pode ter ’favoritos’, nem ódios de estimação. Tem de saber que lhe compete ser verdadeiro. Tem de distinguir quem combate pelos projectos em que acredita de quem nunca vai a votos por si próprio – e, por isso, nunca perde nem ganha há muitos anos.
Como tem de dizer que é muito diferente defrontar um adversário ainda ‘fresco’, porque recém-eleito, de enfrentar alguém já desgastado por vários anos de poder. No poder central e no poder local.
Portugal precisa de uma democracia sem ‘batotas’, de uma democracia limpa.
Eu sei que pode haver quem pense que importa acima de tudo ter o poder – e que não lerão os livros de História que daqui a anos digam desta República que se foi tornando uma democracia cada vez mais condicionada. Pode haver. Mas dos fracos não reza a História. E todos temos de ser fortes na exigência daquilo que queremos para Portugal.
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Evidência
Por que não houve debates sobre Lisboa?
Em Portugal, Lula da Silva e Barack Obama não ganhariam eleições.
Esta afirmação foi feita por Duda Mendonça, brasileiro, conhecido especialista de marketing, que esteve na semana passada no Jornal da Noite, de Mário Crespo, e terá perguntado ao entrevistador qual o motivo que levava as televisões a não promoverem debates com os principais candidatos às eleições para a Câmara de Lisboa.
Terá também sublinhado que, quanto mais debates, mais os eleitores têm oportunidade de conhecer bem os candidatos, sem os jornalistas serem forçados a estar sempre a intermediar – procurando sintetizar o que disseram.
Aliás, no Brasil, todas as eleições têm direito a espaço televisivo – e os candidatos podem adquiri-lo. Exactamente como nos Estados Unidos. Mas aqui não se pede tanto… Só uns ‘debatezinhos’ na campanha.
A questão posta pelo homem que foi o responsável por tanta campanha vitoriosa no Brasil, de que se destaca a que levou Lula da Silva à Presidência, tem tanto mais cabimento quanto esses debates aconteceram para o Porto, para Coimbra, para Sintra, entre outros concelhos. E para Lisboa nada! Porquê?
A TVI 24 ainda tentou. Mas também não conseguiu concretizar a pretensão.
Em Julho, quando a SIC organizou um debate entre mim e António Costa, colaboradores meus puseram logo a questão de que a aceitação desse inesperado convite, com cinco dias de antecedência, não podia prejudicar a existência de debates na campanha.
Nomeadamente, com os candidatos das principais forças políticas. Mas não!... Então, com os candidatos do PCP e do BE, nada. Nunca.
Outro exemplo: pela primeira vez desde que é jornal (e desde que há democracia), o maior semanário português não falava, na capa da edição da semana passada (e apesar de ter saído na sexta-feira, em vez de sábado, exactamente, por causa das eleições), de um acto eleitoral que teria lugar dois dias depois em todo o Portugal.
Factos são factos. Podem dizer que é mania da conspiração. Pois é… Mas, já agora, tentem descobrir se há elementos comuns na definição dos caminhos editoriais desse jornal, que relegou as autárquicas para um plano secundário, e alguma estação televisiva que, ao contrário do que era costume, nem se lembra de fazer durante a campanha um ‘debatezinho’ com os principais candidatos a Lisboa.
Recentemente, alguns dos que falavam em mania da conspiração já sentiram ‘na pele’ como é ‘que elas mordem’, para usar uma expressão popular.
Ainda não quis entrar na análise de resultados deste ciclo eleitoral, resultados nacionais e distritais. Será muito interessante analisar o que foi conseguido – na oportunidade única de disputar eleições europeias, nacionais e autárquicas quase seguidas.
Neste momento, todos precisamos de pensar e agir com especial ponderação para que, no devido momento, seja possível extrair ilações justas e válidas.
Indecência
A fraude das sondagens
O que não precisa de esperar por qualquer ponderação é o comportamento das empresas de sondagens.
Passei a campanha com sondagens a darem nove, dez e doze pontos de diferença. No penúltimo dia de campanha, na quinta-feira, dia 8, a Universidade Católica fez sair um estudo que dava DOZE pontos de diferença... DOZE, repito. Como é possível? Já em eleições anteriores se tinha enganado redondamente, por exemplo, com a votação do CDS.
Ainda por cima, enganam-se sempre a favor dos mesmos e contra os mesmos. Por que motivo não se enganaram, só uma vez, em sentido contrário?
É que um engano desses, a três dias de eleições tira, pelo menos, 5% de indecisos que, como se sabe, tendem a juntar-se ao provável vencedor. Engano por engano, tinha dado muito jeito que previssem uma vitória nossa por dois ou três pontos. O erro relativamente ao resultado eleitoral seria o mesmo – e o efeito teria sido outro!...
Deixando de lado a ironia, que não apetece, só há uma conclusão possível: fechar o centro de sondagens ou, pelo menos, substituir os responsáveis.
Custa a todos ver uma instituição tão respeitada como a Universidade Católica ter o seu nome associado a tão grande incompetência (para sermos generosos…).
Em 2001, a então direcção do Expresso não hesitou em terminar a colaboração com uma conhecida empresa de sondagens que errou redondamente num estudo publicado dois dias antes das eleições que disputei com João Soares.
Agora, é imperioso criar as condições – na lei, na ERC, nos órgãos de comunicação que contratam e publicam essas fraudes políticas – para que a democracia portuguesa não continue a ser manipulada deste modo inaceitável.
Consciência
O Estado português está fraco
DEPOIS deste ciclo eleitoral, o que importa acima de tudo é fazer progredir Portugal. Com os seus municípios e as suas freguesias. E, claro, a União Europeia a que pertencemos.
Os portugueses participaram nesta sequência de actos eleitorais com a esperança de que algo possa melhorar um pouco.
Com ou sem deslocações de voto programadas, em democracia as maiorias estabelecem o que se segue na história dos povos. Temos todos obrigação de pensar no que deve ser feito para minorar as razões pelas quais os portugueses se queixam tanto.
O Estado português está fraco, está expugnável a projectos avulsos ou concertados de exercício do poder. O Estado, mas também entidades importantes no sector privado.
As instituições do Estado devem ser protegidas. E, para que isso possa acontecer, é essencial que as regras do Estado democrático de direito sejam respeitadas. Na política, na comunicação social, na Justiça, há muito a fazer para se suster a degradação que se tem verificado no sistema político e no clima social.
A propósito, é bom lembrar que o desemprego tenderá a aumentar nos próximos tempos. E, no plano político, dentro de poucos meses iniciar-se-á o processo das eleições presidenciais.
Temos, de facto, um sistema de Governo muito complicado, o que nos leva a estar quase sempre em eleições. Só essa constatação deve ser motivo de profunda ponderação, a que tantas vezes já apelei. Com o Estado fraco, com a economia débil, com os privados também em situação difícil, essa sucessão de eleições faz, constantemente, adiar decisões. E elas são prementes – até pelos níveis de endividamento da nossa economia e pela necessidade imperiosa de conseguirmos acompanhar o processo de retoma que, lentamente, se começa a verificar a nível mundial.
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Importância
Votar no PS ou no PSD é muito diferente
NO PRÓXIMO domingo cada um de nós vai decidir a quem entregar o Governo de Portugal nos próximos quatro anos.
Quando há eleições legislativas, está sempre em avaliação o que fez o Governo. E, claro, o que quer fazer cada uma das forças políticas concorrentes. Como é óbvio, não é indiferente um caminho ou outro.
Para além dos ‘casos’ e dos temas laterais, há diferenças bem vincadas. O país será muito diferente caso vença Manuela Ferreira Leite ou José Sócrates? Em minha opinião, será. E em muitos aspectos: nos temas chamados ‘fracturantes’ e que se colocam mais nos planos da ética, da moral e da organização social; na política para as autonomias regionais; nos investimentos públicos; nos apoios às micro, pequenas e médias empresas; na posição sobre o papel do ensino privado e das instituições particulares de solidariedade social… São muitas as matérias em que são nítidas as diferenças.
PARA ALÉM das diferenças programáticas, há, também, as diferenças de atitude. Atitude dos dois candidatos a primeiro-ministro. No modo de estar, de comunicar e – muito importante – no relacionamento dos respectivos partidos com o Estado.
Julgo ser uma evidência que o Partido Socialista hegemonizou a sociedade portuguesa. Certas ou erradas, acabaram tradições como a presença de pessoas de diferentes orientações ideológicas nas administrações de empresas públicas e noutros lugares de responsabilidade.
Com muito poucas excepções, maioria absoluta tornou-se quase equivalente a poder monocolor.
Ninguém nega que o actual primeiro-ministro promoveu uma mudança do regimento da Assembleia da República e se dispôs ao contraditório parlamentar, com uma periodicidade que antes não existia. Mas a vantagem dessa mudança foi um pouco anulada pelo facto de José Sócrates raramente responder às perguntas que lhe eram dirigidas – e, em vez disso, repetir constantemente as frases que levava já seleccionadas.
ESTE foi o poder que mais usou a comunicação para ganhar. Por sua vez, Manuela Ferreira Leite assumiu querer ganhar dando pouca importância ao modo de comunicar.
Os contrastes são nítidos e é difícil haver maiores diferenças entre dois candidatos. São diferentes em quase tudo. Por isso mesmo, quando formos votar no próximo domingo, temos de estar bem cientes do que implica escolher um ou outro. O que implica para Portugal – e, ao fim ao cabo, para a vida de todos nós.
Distância
Deixem-se os ‘casos’: o voto é uma decisão para anos
PELO QUE antes expus, é importante que se deixem de lado os chamados ‘casos’, como, por exemplo, o das ‘escutas’.
É importante que as pessoas pensem naquilo que querem para as suas vidas, naquilo que querem que o país seja nos tempos que aí vêm. Que pensem nas políticas com que concordam e naquelas de que discordam. Cada vez menos importa para o voto a simpatia ou antipatia pelas pessoas dos candidatos. O que importa verdadeiramente são as capacidades de cada um, aquilo que já mostraram da respectiva maneira de estar na vida, e o que se propõem fazer na governação.
José Sócrates é mais feroz ou mais cordato? Manuela Ferreira Leite é mais sisuda ou mais sorridente? O que interessa isso? O que verdadeiramente interessa é aquilo que podem fazer pelo futuro deste país.
O povo costuma dizer que ‘quem vê caras não vê corações’. Aqui, na decisão política, quem olha para os fatos, para os colares, ou para os sorrisos não vê intenções.
OVOTO que entendermos expressar não comporta possibilidade de arrependimento. Não serve para nada se for usado como vingança ou como instrumento de qualquer estado de alma ocasional.
Um voto é uma decisão para anos, com efeitos, por vezes, muito duradouros. Por isso mesmo, considero compreensível que haja cada vez mais indecisos. Porque um voto é algo de muito importante e que não constitui para todos uma decisão fácil, principalmente para os que não são militantes de partidos.
A sociedade portuguesa tem tido tempos difíceis, muito difíceis, nas suas tentativas de aproximação à média do nível de vida da União Europeia.
Estamos na periferia, temos um país cada vez mais desertificado, temos ainda graves insuficiências na formação das pessoas. Temos muito atraso para recuperar. Não podemos perder mais tempo.
E, também por isso, mais importância assume que votemos bem.
Relutância
Partidos ‘médios’ revelaram-se
IMPORTANTE é também que as pessoas não se abstenham. Portugal precisa do cuidado de todos nós.
Por muito mal que cada um pense da política e dos políticos, não há outra maneira de escolher quem governa. Quem se abstém fá-lo, em muitos casos, por considerar que não adianta escolher porque ‘são todos iguais’. Mas, se pensarem bem, não são bem todos iguais!...
Ainda por cima há uma grande variedade de escolha.
E temos de reconhecer que os três partidos de média dimensão, chamemos-lhe assim, fizeram todos um esforço grande para mostrarem as suas propostas, as suas diferenças, e para as levarem, de modo eficaz, ao conhecimento dos eleitores.
CDS, PCP e Bloco de Esquerda não tiveram hesitações em assumir as suas características ideológicas, mesmo aquelas que os tornam mais diferentes dos outros partidos.
DE MODO modo mais ou menos voluntário, o Bloco assumiu as nacionalizações. O Bloco e o PCP falaram muito sobre legislação laboral e contra as grandes fortunas. O CDS assumiu, sem hesitar, uma politica própria quanto ao rendimento social de inserção e quanto à política da imigração, também insistindo na política agrícola.
Nota curiosa: nas análises e nos comentários, o CDS é dado como possível parceiro do PSD e o Bloco de Esquerda como parceiro do PS. O CDS não nega, o Bloco nega. Quanto ao PCP, praticamente não foi referido como possível parte de um acordo de Governo.
Última nota destes textos sobre as eleições: é preciso resolver a situação dos pequenos partidos que concorrem e quase não têm oportunidade para se exprimir.
Apesar de todas as dificuldades, a democracia continua a valer a pena.
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Eventualidade
A maioria absoluta e o ‘esquecimento’ de Sócrates
José Sócrates deixou cair, desde há semanas, a exigência de uma maioria absoluta. Todos se lembrarão de que, ainda não há muito tempo, considerava esse objectivo importante para a governação de Portugal. Disse-o, nomeadamente, no Congresso do Partido Socialista. Mas caiu no esquecimento.
Aliás, com José Sócrates, passam-se situações raras. Há coisas que diz e que faz que não têm as consequências que poderiam esperar-se. Esse silêncio sobre a maioria absoluta tem óbvio significado político. Mas ninguém o lembrou durante os debates. Nem os adversários, nem os entrevistadores.
Perguntam-lhe, isso sim, sobre possíveis coligações pós-_-eleitorais. Mas nem isso fez suscitar o ‘esquecimento’ da meta da maioria absoluta.
É certo que, entretanto, aconteceram as eleições europeias, que o PS perdeu por margem considerável. Mas Sócrates já deveria ter sido forçado a explicar a sua mudança de atitude.
Por mim, estou cada vez mais convencido de que, em caso de vitória do PS, o país encaminhar-se-ia para um acordo parlamentar à esquerda.
Por razões que são cada vez mais evidentes, o cenário (tantas vezes falado) do ‘bloco central’ não é nada verosímil. _As clivagens que a campanha tem acentuado entre os dois principais partidos mostram como é cada vez maior o fosso entre eles.
Estamos em tempo de se acentuar a polaridade, com as diferenças programáticas a serem vincadas.
Por exemplo: à esquerda defende-se a importância dos investimentos públicos. Ora, sendo estes rejeitados pelo centro-direita, se o PS ganhasse, só poderia avançar com os investimentos públicos através de acordos à esquerda.
Outras razões, como a proximidade das eleições presidenciais, fazem-me mesmo duvidar da hipótese de um Governo minoritário do PS sem qualquer acordo formal no Parlamento. A não ser que o Presidente rejeitasse, de modo claro, essa solução ‘à _esquerda’.
Já no caso de uma vitória do PSD – em minha opinião, cada vez mais provável – é previsível um Governo minoritário, sem acordo formal no Parlamento. _E, se PSD e CDS tiverem juntos a maioria no Parlamento, é mais fácil um acordo de Governo entre eles do que entre PS, PCP e BE (que, segundo as sondagens, juntos terão essa maioria).
Probabilidade
Ferreira Leite é quem marca a agenda
Por que considero cada vez mais provável que seja Manuela Ferreira Leite a ganhar as eleições?
Entre outros sinais, porque cada vez mais ocupa as atenções dos adversários. Principalmente, desde a tirada sobre o TGV e os interesses espanhóis, Ferreira Leite tem sido o centro dos debates, dos discursos, das notícias, mesmo na imprensa estrangeira.
Recordo um artigo que escrevi há poucos meses neste espaço, afirmando que Manuela Ferreira Leite é líder, gostem ou não da sua liderança. E tem continuado a provar que o é, com a capacidade que demonstra de ir marcando a agenda política e mediática. Ora são os investimentos públicos, ora são declarações sobre a Madeira, ora é a data de apresentação do programa de Governo, ora são os espanhóis.
Manuela Ferreira Leite tem conseguido fazer, de modo geral, o que quer e como quer. Ainda há dias, dos líderes dos principais partidos, foi a única a dizer ‘não’ a uma entrevista mais pessoal e intimista à SIC e a Raquel Alexandra.
Ao fim e ao cabo, o grande trunfo de Ferreira Leite tem residido no facto de não prescindir de ser igual a si própria. E o grande erro de Sócrates foi tentar surgir com uma nova maneira de ser, passando ‘de lobo a cordeiro’.
Essas ‘jogadas’ políticas cada vez menos compensam quem a elas recorre. Estamos num tempo em que as pessoas só aceitam o que for autêntico. Seja com quem for, fazem muito bem.
Dificuldade
Paulo Portas vai ver premiado o seu labor
Outra previsão que me sinto tentado a fazer é que o CDS vai subir consideravelmente a sua votação.
Eu sei que as sondagens publicadas continuam a dar resultados pouco expressivos ao partido liderado por Paulo Portas. Mas esse é assunto já muito falado – e que, pelos vistos, se mantém.
Por aquilo a que se vai assistindo, por aquilo que nos vão transmitindo, cresce a sensação de que Paulo Portas pode ver premiado o seu labor, que todos reconhecem ser quase incessante.
Poderão dizer-me: então as suas previsões vão no sentido do que quer ou lhe convém? É verdade, vão mesmo. Para já, no caso das legislativas. Em cerca de uma semana, algo pode mudar. Mas creio ser esta a tendência – a que poderá juntar-se uma subida do BE, mantendo o PCP a sua implantação. A ser assim, só o PS baixaria a percentagem.
De qualquer modo, ainda há muitos indecisos. E na abstenção estará a chave dos resultados finais. Nas legislativas, como nas autárquicas. O que, mais uma vez, dará argumentos às empresas de sondagens para explicarem desfasamentos entre as previsões que fazem e o que o povo entender decidir.
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José Manuel Durão Barroso conseguiu o segundo mandato. Motivo de orgulho para Portugal e para os portugueses – mesmo aqueles que, em 2004, não consideravam muito importante que ele aceitasse o cargo de presidente da Comissão Europeia. Outros há que, desta vez, ainda se opuseram, agora por diferenças ideológicas e partidárias. Mas, com o tempo, há-de reconhecer-se como é boa para Portugal esta verdadeira proeza alcançada por um cidadão português.
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Utilidade
Sócrates venceu Louçã com arte e técnica
Se há algo que caracteriza os debates televisivos da actualidade é a preocupação de todos os intervenientes em não discordarem muito uns dos outros. Mas o debate entre José Sócrates e Francisco Louçã foi diferente: ambos fizeram questão de marcar bem o que os separa.
Foi o que se pode chamar um debate ‘à moda antiga’, quase dos tempos do PREC, em que não havia contemplações ou preocupações de contento ou moderação.
Debates travados entre, por exemplo, Mário Soares e Álvaro Cunhal, ou Mário Soares e Sá Carneiro, ou qualquer um destes e Freitas do Amaral. Até os temas tratados entre Sócrates e Louçã fizeram lembrar esses tempos, a começar pelas nacionalizações.
Assusta a inépcia confrangedora de muitos líderes políticos, ao longo de anos, que quase se limitam a ouvir ataques e a procurar responder-lhes, sem cuidarem de pôr os adversários ‘em guarda’. Há muito tempo que era evidente que Francisco Louçã devia ser colocado perante a necessidade de responder ao que proporia para Portugal se algum dia tivesse a responsabilidades de decidir.
Para mais, numa fase em que surge a ‘puxar pelos galões’ do Bloco, fazendo afirmações como a de que teve, nas últimas eleições, quase metade dos votos do Partido Socialista (referindo-se às eleições europeias).
E em que começa a pôr-se ‘em bicos dos pés’, dizendo mais de uma vez «fora eu primeiro-_-ministro»… Ou seja, é óbvio que sonha um dia ganhar as eleições e ninguém o pode levar a mal por isso. Mas tudo devemos fazer para que Portugal se mantenha ‘na realidade’.
Perdoem-me a fraqueza, mas gosto de ver um debate ser conduzido com técnica e com arte. E, em minha opinião, José Sócrates usou bem essas duas armas no debate de terça-feira.
Sócrates não tinha estado tão bem com Paulo Portas – e o líder do CDS-PP esteve muito ‘solto’ nesse combate televisivo. Só não conseguiu responder à insistente questão de Sócrates sobre uma votação do grupo parlamentar do CDS na área da Justiça.
Manuela Ferreira Leite e Jerónimo de Sousa têm usado sobretudo a prudência e a contenção. A líder do PSD, no debate com Louçã, mostrou claramente não querer tornar a ocasião num momento relevante. Aquela não é a sua ‘guerra’ – e, portanto, não tinha que entrar no campo de batalha.
Quanto a Jerónimo de Sousa, prefere nitidamente guardar-se para as intervenções cá fora, procurando atravessar os debates sem contratempos.
Que consequências poderá ter a vitória de Sócrates sobre Louçã?
Admito que algumas, mas ‘à esquerda’. Só que essas consequências ‘à esquerda’ podem levar a mais voto útil no PS, reforçando a sua posição face ao PSD.
A esta luz, assume muita importância o debate de Ferreira Leite com Portas.
Este debate é decisivo para saber quanto voto útil o PSD poderá conseguir nesse sector político – contrabalançando a transferência de votos do Bloco para o PS. Quanto ao voto no PCP, aí, como se sabe, há maior rigidez.
Igualdade
Que mal fez Gehry, afinal?
Se há assunto interessante de que vamos ouvindo falar, de quando em vez, é o da contratação de Frank Gehry.
Campanhas e candidaturas à parte, gostava de perguntar o seguinte: quantos arquitectos há a trabalhar em Lisboa, neste momento, escolhidos sem concurso por encomenda de autoridades públicas? Quantos? Desde o Terreiro do Paço ao Museu dos Coches?
E, já agora, em quanto importam os respectivos honorários? Ninguém quer saber? Frank Gehry terá sido o único arquitecto que até hoje trabalhou em Portugal? Ou o único que esteve para trabalhar? Se houve escolha, publicamente assumida – com cerimónias públicas nos Paços do Concelho, com assinaturas de protocolos em cerimónias oficiais, com visitas cobertas mediaticamente desde a partida até à chegada, de noite e de dia –, foi a de Frank Gehry.
Esteve com o então Presidente da República no Palácio de Belém, com o então primeiro-ministro no Palácio de São Bento, com muitos arquitectos, a começar pelo seu amigo Siza Vieira, passando por outros que fizeram questão em conhecê-lo.
A própria arquitecta Helena Roseta (que, reconheço, sempre defendeu o princípio do concurso, embora umas vezes de modo mais veemente) quis encontrar-se com Gehry, julgo que para o convidar para o Congresso da Ordem dos Arquitectos.
Outra pessoa sempre muito presente nas iniciativas de todos os executivos camarários, Guta Moura Guedes, fez questão de o convidar para uma iniciativa da Experimenta Design. Todos lhe quiseram falar, ou convidá-lo, e todos sabiam que, ao abrigo do que a lei permite, não tinha sido escolhido por concurso.
Cada vez que Gehry vinha a Lisboa era quase como a entrada de Cristiano Ronaldo nos estádios de futebol. Nada existiu de mais público e de mais assumido.
Já agora, será bom saber o que se passa com arquitectos, portugueses ou não, que estão a fazer projectos públicos sem concurso em Lisboa. Alguém os vê?
Alguém sabe quando chegam? E quem os quer entrevistar? Quem os convida e para quantas iniciativas? E alguém sabia que não tinha havido concurso quando começaram a trabalhar?
E o que importará mais: pagar dois milhões de euros ao que é talvez o mais destacado arquitecto do mundo (pelo estudo prévio para três teatros, um museu e outras áreas) ou pagar dois milhões a uma produtora para a produção de cantigas, durante um mês, por razões eleitorais, com final marcado para o próprio dia do acto eleitoral?
Estas não são palavras escritas para ganhar ou perder votos: são questões de justiça, de honra, de igualdade entre os cidadãos num país que cada vez menos sabe o que isso é.
Nada disto significa que uns sejam melhores ou piores do que outros. Eu não sou, nem nunca fui, sócio do ateliê de Frank Gehry, e só o conheci quando a opinião pública soube. Não sou daqueles que convidam os que já conhecem há muito tempo, sem que a opinião pública o saiba.
Realidade
Obama desceu à Terra
BaraCk Obama começou a chegar à estrada da normalidade. Até aqui, vivia quase na estratosfera da política, personagem praticamente mítica. Começou a tratar das políticas concretas e começou a regressar à Terra.
Mesmo o Presidente Clinton, que também quis fazer uma reforma do sistema de Saúde, não assumiu o protagonismo principal nessa reforma. Foi a mulher, Hillary Clinton quem se encarregou dessa missão, rapidamente posta em causa por uma feroz polémica que se gerou em todo o país.
Barack Obama fez questão de cumprir o que disse antes das eleições – e assumiu a responsabilidade de levar por diante essas alterações substanciais no sistema de Saúde dos EUA.
Fica-lhe muito bem.
Mas esta semana, no discurso que fez para todas as escolas que o quiseram ouvir no dia da abertura das aulas, já parecia outro. Parecia um político comum, que já ‘desceu à Terra‘. E mesmo aquelas frases que tão bem soaram na campanha eleitoral já têm outro sabor. Tenho ideia de que as coisas não vão ser nada fáceis para o Presidente norte-_-americano, mesmo que se concretize uma saída da crise mais rápida do que o previsto. É que as expectativas foram muito altas.
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Dificuldade
Falta de referências para análise e exemplos a seguir
A falta de referências que permitam análises comparativas é um dos maiores problemas das sociedades menos desenvolvidas. Na verdade, quanto maior for o grau de desenvolvimento maior será o nível de formação das pessoas, mais elas poderão ter viajado, mais lugares poderão ter conhecido, mais história viva poderão ter visitado, mais poderão ter estudado e ponderado.
Muitas vezes, ‘os pescadores de águas turvas’ procuram aproveitar-se desse desconhecimento para proferirem declarações e desencadearem acções que cairiam no ridículo se a maioria dos cidadãos tivesse possibilidade de comparar realidades.
Cito, frequentemente, o caso do nosso sistema de governo semipresidencial como um exemplo do que quase não existe noutros países e que muitas pessoas pensam ser um sistema ’vulgar de Lineu’.
Outro exemplo, num plano completamente diferente, é o do convite a profissionais estrangeiros, por exemplo, maestros ou arquitectos. É fácil para os tais ‘pescadores’ esgrimirem o argumento de que também os temos cá muito bons, esquecendo o que se passa nas cidades mais competitivas e atractivas, nas sociedades culturalmente mais ricas e, ainda, o que acontece, felizmente, com destacados maestros (e maestrinas) e arquitectos portugueses que vêem o seu valor reconhecido e são convidados por esse mundo fora.
Em inúmeras situações que acontecem em Portugal, e que fazem perder tempo e paciência, muito seria evitado se o mundo fosse mais global do que por vezes se pensa e se diz. Até em questões político-jurídicas, muitos aparecem a falar quase ‘de cátedra’, esquecendo-se de que o tipo de matérias que debatem calorosamente foi estudado há muito tempo e tem soluções encontradas em muitos países com regimes políticos equivalentes ao nosso.
Esta questão coloca-se, de modo especial, em altura de eleições. Eleger significa escolher e, naturalmente, para a decisão importa saber--se o que está em causa. Facilita muito a escolha ter-se uma ideia do que já tenha sido testado, comprovado, posto em prática e dos resultados que se tenham verificado na vida dos países.
Dou um outro exemplo, para não entrar em polémicas eleitorais: se as pessoas soubessem como é natural existir uma Autoridade Metropolitana de Transportes e de Energia não ligariam nada aos disparates que se vão dizendo, sem estudo e sem consistência, sobre prolongamento de linhas do Metro ou a criação de carreiras de eléctricos. Uma política de transportes eficaz exige concertação entre todos os municípios de uma mesma Área Metropolitana – nos itinerários, carreiras, horários dos diferentes modos de transporte. Fora disso, é grande o risco de errar.
Às vezes, nem é preciso viajar muito na distância: basta ir aqui a Espanha. Mas, para quem queira viajar na máquina do tempo e ir até à época em que essas decisões foram tomadas, que saiba que já não é assim tão ‘perto’: já lá vão, pelo menos, vinte anos. É o tempo que levamos de atraso.
Normalidade
Portugal desconhece ou despreza o que se faz lá fora
Se as pessoas pudessem conhecer mais e melhor, saberiam que as empresas de transportes das cidades quase nunca dependem do poder central de cada país. As ‘Carris’ e os ‘Metros’ de cada terra dependem dos respectivos municípios ou, quanto muito, do equivalente às autoridades metropolitanas.
Sendo as autarquias responsabilizadas pelo funcionamento do trânsito no território em que têm jurisdição, é fácil de entender que terem responsabilidade na gestão do sistema de transportes públicos é condição essencial para terem sucesso as políticas de mobilidade que pretendam levar a cabo.
O mesmo se diga em relação às cidades com estatuto de capitais, ou próximo ou equivalente, quanto à presença de agentes e veículos das respectivas polícias municipais nas ruas, nas horas e nos sítios mais complicados. O que aí encontramos são verdadeiras polícias urbanas e aquelas que têm um papel de maior proximidade junto das pessoas e das comunidades.
Em Portugal, tudo aquilo que estou a referir ou não existe, ou está desvirtuado, ou é muito incipiente e é, tudo, objecto de desprezo ou então de controvérsia. Concretizar, e bem, é mais difícil.
Existem várias grandes teorias sobre diferentes formas de exploração. Uma forma lamentável é a que procura aproveitar-se da falta de conhecimento alheio para fazer vingar as próprias posições.
A esse propósito, li recentemente, um interessante livro de Álvaro Santos Pereira sobre Os Mitos da Economia Portuguesa (Guerra e Paz, 2007, 3.ª ed.). O autor é professor na Universidade de York e, também, docente e investigador em universidades do Canadá. Nesta obra, escreve exactamente sobre as nossas realidades, virtualidades, ficções, e as possibilidades que temos no mundo competitivo de hoje. Comparando, avalia e sugere, ponderando realismo e optimismo.
Modernidade
Comícios, estilos de campanha e verdadeira eficácia eleitoral
A propósito de comparações, será interessante tentar avaliar se Manuela Ferreira Leite está distante ou próxima do que se passa noutros países europeus, quanto ao estilo de campanha eleitoral que defende.
Sabemos, todos, o tipo de campanhas que se fazem nas eleições presidenciais nos EUA. São longas, com muitos contactos de rua, pequenos ou médios comícios e uma grande convenção pelo meio. São um caso à parte. Sabemos, também, que no país vizinho e na Europa mais latina, os comícios são frequentes. Já no centro e norte da Europa, as acções de campanha são mais contidas… Mas qual será, neste domínio, o sentido da evolução previsível?
Eu, que também me encontro em campanha, estou convencido de que os tempos estão, cada vez menos, para essas sessões em que se juntam os fiéis e em que raramente participam os que ainda estão indecisos. Na maior parte dos casos, essas sessões justificam-se mais para se falar para os órgãos de comunicação social do que para os presentes no local, os quais, na sua esmagadora maioria, já terão decidido o seu voto.
Então com as novas tecnologias, isso é cada vez mais assim. Esta semana, participei num debate com bloggers e só através do meu portal houve cerca de 12.900 pessoas que assistiram. E muitas delas, provavelmente, do grupo dos indecisos.
Pelo que conhecemos todos de José Sócrates, quero acreditar que é muito mais propenso a comícios do que Manuela Ferreira Leite. Temos ouvido acusações do primeiro-ministro ao espírito supostamente retrógrado da sua adversária.
O tempo dirá quem está mais próximo, nesta matéria da eficácia eleitoral, da verdadeira modernidade: se Sócrates e o seu alegado vanguardismo algo revivalista, ou se Ferreira Leite e o seu falado classicismo algo contestatário.
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Omissão
Dois temas esquecidos: a regionalização e o endividamento do país

Há dois temas que deviam dominar os debates pré-eleitorais e que têm estado completamente fora da agenda. Refiro-me à regionalização e ao endividamento da nossa economia.
Deve ser reconhecido, como já aqui referi, que, pelo menos, estão traçadas importantes fronteiras entre os dois principais partidos na área dos investimentos públicos e nas medidas de apoio às pequenas e médias empresas. Aliás, curiosamente, não só entre os dois maiores partidos, mas, pelo que se vai ouvindo, entre o bloco da ‘esquerda’ (incluindo o PS) e o bloco de centro-direita.
Trata-se, sem dúvida, de temas importantes, mas também o são os que têm ficado de fora. Na verdade, quando falo em regionalização, refiro-me à crescente desertificação do nosso território, situação cujo arrastamento provoca cada vez mais danos a um país tão necessitado de introduzir racionalidade e sustentabilidade no seu processo de desenvolvimento.
Faz, ainda, maior impressão Portugal ter os níveis de endividamento que tem, que ultrapassam já o valor do PIB, e assistirmos a intervenções sobre os mais variados temas mas nenhuma, ou quase nenhuma, sobre essa magna questão.
Sem sectarismo, deve ser reconhecido que, dos dois principais partidos, só a líder do PSD tem falado no assunto. E esse é um tema que, interessando às actuais gerações, deve ser assumido por cada força política, expondo o respectivo caminho para desagravar tais níveis de endividamento.
Se não for falado agora, estaremos a calar uma realidade que se imporá, de modo violento, após as eleições. E, então, lá virá a conversa do costume, dizendo-se que a dimensão do problema que é encontrado pelo novo Governo justifica a adopção de soluções excepcionais. Só que, mais uma vez, se esse for o caminho, estar-se-á a usar como desculpa uma realidade que já existia antes do acto eleitoral.
As pessoas querem mesmo que se lhes diga a verdade. Seja ela qual for.
Podridão
Calúnias e ameaças de campanha
É bom que as pessoas saibam estas verdades antes das eleições, porque depois já ligam menos e fazem sempre interpretações variadas, consoante os resultados.
Imaginem só que o sistema político português chegou ao nível de existir um jornal, julgo que mensal, que é pago, em grande medida, por juntas de freguesia. E esse jornal, supostamente destinado a tratar de assuntos de uma cidade, vai tratando, acima de tudo, de atacar pessoas de um partido, com base nos interesses dos que são ‘inimigos’ dos atacados.
Não digo que seja tudo ‘farinha do mesmo saco’, mas várias das pessoas envolvidas nessas histórias já foram muito próximas ou mesmo muito amigas. Desde há tempos, os que eram subordinados ou colaboradores tudo fazem para destruir aqueles por cuja mão vieram. A velha história da criatura que se vira contra o criador!...
Se falo neste assunto é por dois motivos: em primeiro lugar, porque há dinheiro dos contribuintes envolvido, que deveria servir para outras finalidades; em segundo lugar, pelo facto de se arrastar pela lama da calúnia assuntos tão sérios quanto os do bom nome e da honra das _pessoas.
Durante o processo de elaboração das listas, eu e colaboradores meus, fomos inundados com mails e telefonemas tentando impedir a candidatura de um dado presidente de Junta, senhor com mais de 60 anos – dizendo sobre ele tudo o que se possa imaginar, acerca de supostas condenações com trânsito em julgado nas mais variadas matérias.
Ao que apurei, nada correspondia à realidade ou, pelo menos, nada de relevante ou correspondente ao que me havia sido transmitido. Este caso é só um exemplo do que se passa, semana após semana, num processo absolutamente kafkiano. De facto, são tantas as histórias que tantos vêem e sabem e que fingem ignorar…
Tudo isto visa garantir esquemas de poder e de contrapartidas a várias pessoas, ligadas a alguns ‘pregadores’ de moral que por aí pululam. E manda a verdade dizer que é sabido de vários quadrantes partidários que vão mantendo a indiferença na esperança de verem tombar um qualquer adversário às mãos de mais uma infâmia forjada. Tentam que uma notícia em ‘folha de couve’ seja reproduzida em jornal nacional, que, eventualmente, perante a denúncia, haja a obrigação de um inquérito ou de uma investigação e que, assim, possa também haver mais um arguido(a) e, desse modo, mais um lugar numa lista.
Os cidadãos que não estão envolvidos nestas andanças da política não sonham o que, hoje em dia, temos de aturar de falta de escrúpulos de um conjunto de pessoas que se apresentam ‘trajadas’ de puritanas.
Se tivesse provas de matéria criminal, já as teria participado. Para já, tenho a certeza de que se trata de situações intoleráveis, cuja verdadeira dimensão só pude constatar nas últimas semanas. Jornal, queixas, ameaças, calúnias, chantagens, tudo misturado. À atenção de quem de direito.
Revelação
Leituras e qualidadeda democracia
Nestas semanas de Verão, principalmente para quem tem a sorte de ter férias, vou falando de alguns livros interessantes que tenho conseguido ler mais à noite. Um deles, que recomendo, é Contra todos os Inimigos, de Richard A. Clarke, editado pela Difel em 2004.
O autor, trabalhou com quatro Presidentes dos Estados Unidos, principalmente na luta antiterrorista, tendo integrado, ao longo de anos, o gabinete de crise. Durante cerca de dez anos, o seu local de trabalho foi mesmo a Casa Branca. Desde os vários períodos de relacionamento com Saddam Hussein, até às várias situações pré-bélicas ou de conflito aberto no Golfo Pérsico, passando pela Guerra dos Balcãs, muito conta do muitíssimo que sabe. Mas do que mais fala, ou com mais enfoque, é do desenvolvimento da Al-Qaeda, de Bin Laden e do 11 de Setembro.
Outro livro interessante sobre a política norte-americana, é The Vast Left Wing Conspiracy, de Byron York, editado por Crown Forum, em 2005. York, correspondente na Casa Branca, relata a aliança entre políticos, jornalistas, bilionários (como George Soros) e ‘celebridades’ das artes e de movimentos cívicos, que tudo fizeram para evitar a reeleição de George W. Bush e para John Kerry ganhar a eleição presidencial em 2004. Não o tendo conseguido e, como se diz no próprio subtítulo, não sendo dessa vez teriam de o conseguir na seguinte, embora, como é sabido, já com outro candidato republicano.
A competição política é árdua e por vezes muito desgastante, a todos os níveis. Mas com as regras da democracia e com gente, pelo menos, com algum nível, vale a pena. Competição política a fingir que é democracia ou com gente sem nível, é de fugir.
Tenhamos esperança, método e serenidade.
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Esquecimento
Autocensura, silêncios e tabus na vida dos povos
Um dos fenómenos mais interessantes na psicologia social é o da autocensura. Há assuntos que os povos não querem ouvir em determinadas alturas, por mais graves que sejam.
As razões podem ser as mais variadas, mas duas permitem realce: o trauma profundo provocado por um determinado acontecimento, como, por exemplo, uma guerra; ou, noutro género, o ‘estado de graça’ de alguém com um papel e um estatuto de relevo numa dada comunidade.
Essa autocensura gera, com frequência, tabus. Tal como pode acontecer com a censura, mais ou menos institucionalizada.
Muitas outras causas podem ser apontadas, sendo a mais frequente a existência de determinadas convenções, usos, costumes que vigorem e se tenham imposto numa sociedade. Em Portugal, depois do 25 de Abril era tabu falar em Direita, a não ser para dizer mal. Alguém dizer-se de Direita era praticamente interdito, porque, segundo um trauma de uma parte da sociedade, e também por estratagema desse sector e de outros, quis-se tornar o socialismo ideologia oficial. Assim ficou consagrado na Constituição e todos os partidos, incluindo o CDS, assumiram o propósito de construir uma sociedade socialista ou, noutra versão, uma sociedade sem classes.
Marc Ferro, no interessante livro Les Tabous de l´Histoire, (NiL Éditions, Paris 2002), tratou este tema, dando alguns interessantes exemplos. Um dos mais impressionantes tem a ver com o modo como a Resistência francesa, ou parte dela, foi tratada, ou quase ignorada, depôs da Libertação, pelo general De Gaulle, líder do poder emergente. Razões ligadas com a influência do Partido Comunista Francês e com as novas disputas de poder, no plano interno e no plano externo, poderão ajudar a explicar essas atitudes e esses factos. Mas a luta pelo novo poder é, muitas vezes, a causa directa e indirecta e, aí, temos a censura, mesmo que informal ou meramente oficiosa, a funcionar.
Marc Ferro pergunta, no livro citado, se os silêncios da História não são tanto História quanto a História? E, na contracapa, também se escreve: «O tabu, é tudo o que não se ousa dizer em certas circunstâncias. A História encerra um grande número desses silêncios que não são nem esquecimentos nem interdições».
Diferimento
O exemplo recente de Sócrates
O que se passou com o actual primeiro-_-ministro, na legislatura que agora termina, é um exemplo de um tabu formado por uma autocensura criada na sociedade portuguesa.
Durante mais de quatro anos, tornou-se censurável criticar José Sócrates, fosse no que fosse que não tivesse a ver com os resultados da governação. Mesmo dizer que o primeiro-ministro tem um perfil autoritário era quase indelicado.
Fruto do trauma gerado pelas desilusões do que acontecera com governos anteriores? Talvez. Mas que se livrasse alguém de tentar abordar temas que, com outros personagens, noutras circunstâncias, seriam abertura de telejornais e levariam à queda de Governos, quando não à dissolução de Parlamentos!
Foi preciso passarem uns anos para que a crítica começasse a ser mais livre – e José Sócrates deverá preparar-se para que, cada vez mais, seja e possa ser assim.
Mas outros temas, como o da inventona do défice de 2005, demonstram até que ponto as sociedades se podem mesmo convencer daquilo que querem… Naquela fase, os portugueses queriam acreditar muito em alguém, estavam cansados de instabilidade – e ai de quem se atrevesse a pôr em causa as ’verdades’ proclamadas por aquele em que queriam acreditar a todo o custo.
Outros temas, igualmente sérios, mas bem mais pesados, continuam no esquecimento, até um dia.
O que se está a fazer no Terreiro do Paço e entre esta Praça e o Cais do Sodré, é um exemplo pequeno mas com uma carga muito especial, pelo significado do sítio.
O caso das SCUT é, também, paradigmático, como o é, noutro plano de consequências muito graves, o do endividamento global da nossa economia. Poucos são os que falam nisso, e também ainda não são muitos, nalgumas dessas situações, aqueles que se dispõem a escutar.
Um dia destes, as pessoas acordarão para estes e para outros assuntos e dar-lhes-ão muito mais atenção. Nessa altura, perguntar-se-ão como foi possível as situações arrastarem-se durante tanto tempo. E as recriminações multiplicar-se-ão – com os que antes eram ídolos a serem esconjurados, arguidos, marginalizados.
As sociedades contemporâneas andam mesmo a precisar de despertadores. Em Portugal, já agora, um que toque bem alto.
Discernimento
UEFA ao serviço dos poderosos
O que se passa na UEFA, com frequência, em matéria de arbitragens, é motivo de justa
indignação.
Num tempo em que o novo líder daquela organização, Micchel Platini, faz repetidos discursos pela verdade desportiva, pela seriedade de processos e pela moralização do futebol, aos mais variados níveis, é chocante assistir a algumas actuações de equipas de arbitragem.
Recordo-me de que, no ano passado, o Vitória de Guimarães foi afastado da Liga dos Campeões por lhe ter sido anulado, nos últimos minutos, um golo ‘limpo’, que lhe daria o apuramento, num jogo na Suíça. Imaginem o que representaria, para um clube como o Vitória de Guimarães, um prémio de apuramento na ordem dos 6 milhões de euros. Só que o árbitro e o fiscal-de-linha tiveram um dos tais enganos e lá ganharam os da terra das sedes dos organismos que dirigem o futebol europeu e o futebol mundial...
Esta semana foi no Sporting-Fiorentina, com um árbitro que puniu uma agressão violenta de um jogador da equipa italiana com um simples amarelo e que, depois, não mostrou o segundo amarelo e o consequente cartão vermelho ao capitão da Fiorentina, numa jogada em que era devida essa punição. No primeiro caso, então, ainda é mais misterioso: se mostrou o amarelo é porque viu o que se passou. E o que se passou não deixava margem para dúvidas.
A questão, também aqui, é que se enganam sempre contra os mesmos: os menos poderosos. Está na altura de a Federação Portuguesa de Futebol dizer aos senhores da UEFA que devem olhar para dentro da própria casa e ganharem autoridade para fazerem os discursos e as proclamações solenes que vêm fazendo.
O ano passado, com o Guimarães, foi uma vergonha. Esta semana, com o Sporting, outra vergonha. E o mesmo pode acontecer com qualquer equipa portuguesa presente nas competições europeias.
Organizamos Europeus, candidatamo-nos a co-organizar Mundiais, temos dirigentes bem colocados nas estruturas da UEFA – está, pois, na altura de exigirmos que voltem a respeitar os nossos clubes.
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Discernimento
Um comunista a defender o Estado democrático de Direito
Um dos temas que marcaram a agenda política na última semana foi, mais uma vez, o dos direitos e tratamento político dos arguidos.
O tema voltou à agenda por causa das listas de deputados do PSD. Digo bem, do PSD, porque a questão não se pôs no PS – e era difícil que se colocasse, porque o PS é um partido praticamente sem arguidos. Já o PSD, como se sabe, tem muitos. Não vou comentar, limito-me a constatar.
É evidente que estas matérias também tendem a surgir em períodos pré-eleitorais, como o que estamos a viver. Também aqui não comento, só constato.
Jerónimo de Sousa (e julgo que também Francisco Louçã), fez sobre o assunto declarações surpreendentes. Disse, categoricamente, que ninguém deve ser politicamente penalizado antes de ser julgado (e, portanto, de ser condenado ou absolvido). Já tinha ouvido dirigentes do Partido Comunista fazerem afirmações com conteúdo aproximado, mas esta declaração do secretário-geral do PCP, que vi pela televisão, impressionou-me até pela forma: Jerónimo de Sousa não fez as declarações ‘em abstracto’ mas sim a propósito das tais listas do PSD.
Essas palavras do dirigente comunista, ditas com serenidade e clareza, contrastam com a ligeireza de muitos comentários que temos ouvido.
Assistimos ao paradoxo de ouvir dirigentes comunistas a defender os direitos, liberdades e garantias próprios de um Estado democrático de direito, em contraste com as posições de pessoas defensoras de ideologias e modelos políticos antes chamados ‘ocidentais’.
Não me esqueço de que os comunistas defenderam esses direitos durante o regime autoritário e ditatorial, antes do 25 de Abril. Mas também não esqueço o modelo de sociedade preconizado pela ideologia comunista e o processo necessário para lá chegar, que envolvia uma ditadura – no caso, do proletariado.
Mas manda a verdade dizer que quase todas as ideologias estão caducas ou ultrapassadas e em carência de actualização.
O facto é que isto está tudo muito confuso e anda mesmo tudo ao contrário. Na prática, Manuela Ferreira Leite e Jerónimo de Sousa têm aqui a mesma posição, que creio ser partilhada igualmente por Paulo Portas e por José Sócrates, para além do referido Francisco Louçã.
A ser assim, existirá aqui uma convergência de posições sobre uma importante matéria respeitante ao funcionamento do Estado e do sistema político. E o país muito ganhará se forem dados passos para ultrapassar as tão desagradáveis polémicas que este tipo de assuntos sempre provocam.
Entendimento
Regras claras para os políticos a contas com a Justiça
Pelo que antes referi, julgo existirem condições para o Presidente da República promover um consenso alargado sobre estas matérias.
As questões judiciais, que normalmente mexem com o bom nome e a honra das pessoas, não podem continuar a servir como armas de ataque político.
É certo que nem todas as situações são iguais. O termo do processo judicial, em primeira instância, em que está envolvido Isaltino Morais, coloca esse caso noutro plano. Isso porque houve já um desfecho, com sentença proferida, embora tenha sido objecto de recurso e não esteja ainda transitada em julgado.
Foi também recentemente noticiado que Fátima Felgueiras foi absolvida num dos processos judiciais a que esteve sujeita, por actos praticados no exercício das suas funções. E esta semana veio afirmar que lhe eram devidas desculpas (julgo que por parte de todo o país) por aquilo que dela se disse e escreveu quanto à matéria nesse processo.
É de facto uma confusão – e quase ninguém sabe o que há-de pensar sobre tudo isto. Cada pessoa que se vê envolvida nestas situações sente-se vexada e humilhada – mas muitas vezes a generalidade dos cidadãos já pouco liga a acusações que vão sendo noticiadas.
É uma exigência cívica, um imperativo de cidadania, uma obrigação democrática conseguir o tal acordo de regime sobre este tema. Porque, de outra maneira, de cada vez que houver eleições teremos novas polémicas. E polémicas normalmente lamentáveis, em que tudo é posto no mesmo plano, tratando de igual modo acusações de abuso de poder, de difamação, de falsificação, de corrupção ou de burla…
Há que ter decoro. Há que ter nível. Há que ter elevação.
Porque, agora, nas listas do PSD, falou-se em dois casos. Mas, a aplicar a doutrina integralmente, haveria ainda mais candidatos aos próximos actos eleitorais que não o poderiam ser. Até onde se chegaria?
Uma vez conseguido esse acordo entre os partidos, passará a haver regras claras. O que será também, certamente, motivo de alívio para a Procuradoria-Geral da República, para o Ministério Público, para as polícias de investigação e para os próprios tribunais. Será assim tão difícil? Estou convencido de que não. Embora, obviamente, não seja esta a altura. A altura certa é logo a seguir às próximas eleições.
Reconhecimento
Solnado era o cómico que mais vezes falava a sério
Todos aqueles a quem Raul Solnado fez bem devem, em especial nestes dias, agradecer publicamente onde o possam fazer.
Sempre que olhava para Raul Solnado, nos momentos em que ele não estava a fazer-nos rir, pensava no significado daquela expressão quase triste com que muitas vezes surgia.
Dos actores cómicos que conheci, Raul Solnado foi aquele que mais vezes e mais tempo ouvi falar a sério. E, por isso, o que menos vezes vi com um sorriso na face.
Certa ocasião, numa cerimónia nos Paços do Concelho, em que recebeu uma justa condecoração da cidade, recordo-me que ele estava muito bem disposto – e aí arrancou de todos os presentes sucessivas gargalhadas com as palavras que proferiu.
Primeiro como secretário de Estado da Cultura, mais tarde como presidente da Câmara de Lisboa, contactei bastante com ele – quer como actor, quer pelo seu trabalho na Casa do Artista.
Por isso mesmo, nunca tendo feito parte do seu círculo de amigos, quero dar este testemunho de que sempre olhei para Solnado como o cómico que nos fazia quase sempre pensar em coisas sérias.
Parecia estar sempre a reflectir sobre a complexidade das coisas da vida. Nestes dias tem sido muito lembrada a sua frase «Façam o favor de ser felizes». Julgo que essa frase tem muito a ver com que o aqui testemunhei. A sua expressão dava sempre a ideia de estar a pensar no caminho para ser feliz.
Obrigado Raul Solnado!
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Equisol
Sócrates e Ferreira Leite: caminhos opostos nas listas
As listaS de deputados são sempre um momento muito complicado. Mas há listas mais complicadas do que outras. Estas, para a próxima legislatura, foram bem complicadas no PS e no PSD.
Talvez mais complicadas na casa laranja do que na casa rosa. Resta saber se, neste caso,
o complicado é inimigo do bom. Ou seja, se aquilo que sucedeu com a constituição das listas dos partidos os pode ou não prejudicar.
Devo recordar, para aqueles que já não se lembram ou que ainda não tinham idade, que Cavaco Silva, quando foi eleito líder do PSD em Maio de 1985, frustrou as expectativas de vários deputados de uma maneira que ninguém esperava.
Ficou apontado como exemplo dessa orientação o que aconteceu em Faro. Nesse distrito, José Vitorino, então presidente da distrital de Faro, ex-secretário de Estado de Pinto Balsemão, era indicado como cabeça-de-lista. Se bem me lembro, Cavaco Silva colocou António Capucho em primeiro, Mendes Bota em segundo e José Vitorino em terceiro. Este recusou o que considerou ser uma afronta – e candidatou-se como independente pelo CDS.
Recorde-se que Cavaco Silva ganhou o Congresso da Figueira por poucos votos, com uma percentagem pouco superior a 50 por cento.
António Capucho era o candidato a secretário-geral de João Salgueiro, que saiu derrotado na disputa da liderança.
Cavaco Silva, em Faro, pôs Vitorino abaixo de um apoiante seu de longa data, Mendes Bota, e de um opositor, o referido António Capucho (que na altura aceitou o desafio).
Sublinhe-se que João Salgueiro não quis ser candidato – e julgo que também não foi convidado.
Desta vez, em 2009, novos afastamentos acontecem, sendo que também os principais críticos das lideranças do PS e do PSD não são candidatos.
No PS, o líder José Sócrates queria que o seu opositor Manuel Alegre se candidatasse – e foi este que não aceitou. No PSD, o opositor queria ser deputado – e foi a líder Manuela Ferreira Leite que recusou. O que será mais relevante? Qual das situações produzirá mais efeitos positivos ou negativos?
José Sócrates demonstrou ser complacente, mas sofreu o revés de Manuel Alegre lhe dizer que não – por considerar que o PS que vai a eleições não é o PS que ele desejava.
Manuela Ferreira Leite demonstrou firmeza, mas tem de suportar o ónus de a acusarem de algum ‘sectarismo’.
Em qualquer dos casos, a resultante é a de que os partidos não estão unidos.
Em 1985, Cavaco Silva ganhou com a sua demonstração de autoridade, que se seguiu a um Governo de ‘bloco central’ chefiado por Mário Soares e que teve Mota Pinto e Rui Manchete, este durante poucos meses, como vice-primeiros-ministros.
Agora, os dois candidatos a primeiro-ministro jogam em imagens diferentes: José Sócrates quer mostrar-se dialogante, sucedendo ao José Sócrates autoritário. Manuela Ferreira Leite quer parecer autoritária, correspondendo à imagem que sempre teve.
Oque ganhará cada um dos dois com as respectivas escolhas?
A primeiros-ministros mais dialogantes sucederam-se, normalmente, outros mais autoritários – e isso poderia não favorecer Manuela Ferreira Leite.
A Mário Soares sucedeu Cavaco Silva, a Cavaco Silva sucedeu António Guterres, a António Guterres sucedeu Durão Barroso, e à instabilidade provocada quando do meu Governo sucedeu a liderança estável de José Sócrates.
O que quererão os portugueses agora? Mais diálogo ou mais autoridade? E mais diálogo com o candidato que pouco o prezou no mandato que está a terminar?
Afinidade
Louçã tem de pensar melhor
A história de Joana Amaral Dias, contada por Francisco Louçã, não teve do PS a resposta que devia ter tido.
Francisco Louçã andou muito indignado estas semanas por o PS ter convidado Joana Amaral Dias para integrar as suas listas.
A este propósito, convém recordar que a própria foi objecto de muitas notícias quando da Convenção do Bloco, por ter ficado fora dos respectivos órgãos dirigentes.
Foi, pois, público e notório que houve algum afastamento – e foram até avançadas algumas explicações para o facto, ligadas à pouca participação nas reuniões ou iniciativas do partido e ao apoio à candidatura de Mário Soares.
Ora, o que andou Francisco Louçã a tentar com Manuel Alegre durante tanto tempo?
Manuel Alegre também é militante do Partido Socialista. E o Bloco andou a tentar convencê-lo a romper com o PS e a juntar-se a uma ampla frente de esquerda naturalmente liderada ou co-_-liderada pelo BE.
No caso de Joana Amaral Dias, terá havido um convite para o Instituto da Droga – e essa parte, que não foi confirmada pela própria, a ser verdadeira, é censurável e dá a tudo uma dimensão diferente. Mas, sem isso, convidar Joana Amaral Dias para as listas de deputados não pode ser, e não é, mais grave do que convidar Manuel Alegre.
Francisco Louçã tem que ter mais cuidado com as lições de moral. Para não correr o risco de cair em situações com algo de caricato.
Novidade
Obama encanta e PIB sobe
É muito interessante ver como está a funcionar aparentemente bem a equipa que Obama constituiu.
Como ainda está em estado de graça, tudo ‘corre sobre rodas’ – e o que não corre vai-se resolvendo.
Barack Obama tem palavras infelizes sobre um polícia que prendeu um homem de raça
negra, seu amigo – e acabam os três, com o vice-Presidente Joe Biden, a tomar uma cerveja, sentados numa mesa no jardim da Casa Branca.
Depois, assunto mais sério, o da viagem à Coreia do Norte, também para conseguir a libertação de duas jornalistas americanas. E lá foi Bill Clinton, marido da secretária de Estado, Hillary Clinton, abrir portas num relacionamento cheio de dificuldades ou mesmo de impossibilidades.
E Barack Obama permite-se até, no dia do seu aniversário, entrar pela sala de conferências de imprensa com um bolo de anos na mão cantando o Happy Birthday, para celebrar com outra aniversariante: a decano dos jornalistas acreditados na Casa Branca.
O Presidente dos Estados Unidos está numa fase em que ainda pode fazer quase tudo. Mas o que mais importa é a notícia de que o PIB norte- -americano, no segundo trimestre do ano, já só caiu um por cento, segundo os últimos indicadores, esperando-se que possa ultrapassar muito em breve a linha de água. Isso é que conta!